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Em 1996, um estudo tentou descobrir de onde vem a homofobia

Em entrevista exclusiva ao site da AH, o jornalista Alexandre Carvalho explicou um estudo de 1996 que aponta a ligação entre o preconceito e o desejo sexual reprimido

Pamela Malva Publicado em 18/12/2021, às 07h46 - Atualizado às 10h00

Imagem meramente ilustrativa de casal
Imagem meramente ilustrativa de casal - Getty Images

No dia 7 de agosto de 2001, a deputada Iara Bernardi (PT) apresentou um, até então, inusitado projeto de lei na Câmara dos Deputados. Denominada de PL 5003/2001, a legislação teria o objetivo de criminalizar a homofobia no país.

Foi apenas no dia 13 de junho de 2019, quase 18 anos depois, no entanto, que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela criminalização da homotransfobia — crimes de discriminação com base em identidade de gênero e orientação sexual.

Depois daquele ano, o preconceito contra a comunidade LGBTQIA+ passou a ser crime no Brasil, tipificado pela Constituição, com a aplicação da Lei do Racismo (7.716/1989). Restava, então, solucionar uma questão: de onde, afinal, vem a homofobia?

Foi essa pergunta que, anos atrás, uma pesquisa da Universidade de Georgia, nos EUA, tentou responder. Citado pelo jornalista e escritor Alexandre Carvalho durante entrevista exclusiva ao site da Aventuras na História, o estudo teve resultados surpreendentes.

Conceitos freudianos

Convidado pela AH para falar sobre sua nova obra, “Freud sem traumas”, Alexandre comentou alguns dos conceitos estudados pelo pensador austríaco. Entre eles, a ideia de afastar aquilo que identificamos em terceiros, não temos, mas gostaríamos de ter.

“Isso é muito narcisismo. Porque quando você está sendo contrariado e vê que uma pessoa tem razões que te convencem, isso cria o que Freud chamava de ferida narcísica”, narra o jornalista. “Bateu no seu ego. Então você pensa ‘opa, preciso ser mais duro e preciso recorrer até a mentiras para vencer essa discussão’.”

Em sua obra, então, Alexandre explica com ainda mais profundidade e didática esse conceito. “Um exemplo que eu cito no livro, que não faz parte da esfera política, é de um estudo feito com pessoas que se consideravam homofóbicas e outras que não”, diz.

Fotografia de Freud / Crédito: Domínio Público

 

Uma pesquisa inusitada

O estudo ao qual o jornalista se refere foi publicado em agosto de 1996, por estudiosos da Universidade da Georgia, nos Estados Unidos. Na análise, os pesquisadores buscavam compreender se a homofobia está ou não associada ao desejo homosexual.

Para encontrar tais respostas, os cientistas perguntaram a um grupo de homens heterossexuais qual seria o grau de desconforto de cada um ao redor de homens gays. Assim, os voluntários foram separados em dois grupos menores: os com sinais de homofobia (um total de 35 homens) e os considerados não-homofóbicos (29 deles).

Curiosamente, depois de analisarem os resultados, os cientistas perceberam que sim, “a homofobia está aparentemente associada à excitação homossexual que o indivíduo homofóbico desconhece ou nega”.

A metodologia

Ainda em entrevista à AH, Alexandre explicou os bastidores da curiosa pesquisa. “Eles [os estudiosos] mostraram cenas de sexo homossexual [aos voluntários] e colocaram um sensor no pênis de cada um desses caras”, narrou o jornalista.

Nesse sentido, três tipos de gravações foram exibidas durante a pesquisa. Primeiro, cenas de sexo entre um homem e uma mulher, em seguida, cenas de relações entre duas mulheres e, por fim, cenas de sexo entre dois homens.

O aparelho ligado ao pênis dos voluntários, então, registrava os níveis de excitação de cada um — mas sem confundi-la com outros sentimentos, como medo ou nervosismo. “Adivinha quais pênis se mexeram mais?”, questionou Alexandre.

Imagem meramente ilustrativa de homem vendo TV / Crédito: Divulgação/ Pexels/ cottonbro

 

Os resultados

Ao assistirem os vídeos de sexo lésbico e heterossexual, homens em ambos os grupos de voluntários apresentaram “aumento da circunferência do pênis”. Na hora dos vídeos com sexo gay, contudo, a história foi diferente.

“Apenas o grupo homofóbico exibiu sinais de excitação sexual” diante das cenas de sexo gay, de acordo com os pesquisadores. “Isso é a prova cabal de que esses caras tinham um desejo maior de vivenciar aquilo, de se aproximar daquilo, do que os caras tranquilos com sua própria sexualidade”, narrou Alexandre.

Dessa forma, tanto conforme os conceitos de Freud, quanto segundo os resultados da pesquisa de 1996, parece que a homofobia tem origens muito mais próximas do desejo sexual homoafetivo do que imaginamos. E, para Alexandre, a solução é simples.

“Se a gente aceitar um conceito do Freud de que, na mente, somos todos bissexuais, nós viveríamos de uma forma muito melhor”, narra o escritor. “Você não seria homofóbico, não ia querer bater em gay na rua, não ia fazer nada disso.”


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