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Em busca do filho, Pureza se tornou símbolo do combate ao trabalho análogo à escravidão

A maranhense, que recebeu um importante prêmio internacional, realizou uma jornada por diversas fazendas ao longo de mais de três anos

Giovanna Gomes, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 14/03/2021, às 09h00

Pureza Lopes Loyola
Pureza Lopes Loyola - Divulgação

A história da maranhense Pureza Lopes Loyola, que recebeu em Londres o Prêmio Anti-Escravidão da Anti-Slavery International, inspira a muitos desde a década de 1990, quando a mulher moveu esforços em uma incessante missão à procura de seu filho mais novo, Antônio Abel, que estava desaparecido há um mês.

Entretanto, a busca pelo familiar tomou proporções muito maiores quando ela percebeu, em meio a sua jornada pelas fazendas da região Norte do país, as condições às quais se sujeitavam muitos trabalhadores.

A mulher, que trabalhou durante décadas como oleira, tornou-se então um grande símbolo, buscando o auxílio das autoridades para encontrar o filho e denunciando os crimes que presenciara em sua missão. Por esse motivo, sua história de luta é lembrada ainda hoje, tanto que fora retratada em uma produção cinematográfica intitulada 'Pureza', no ano de 2019.

A atriz Dira Paes interpreta Pureza no filme - Crédito: Divulgação

 

Movida pela fé

Quando Abel deixou de dar notícias, Pureza logo ligou para seus parentes no estado vizinho. Foi então que ela descobriu que ele, ao contrário do que tinha informado, não havia contatado os familiares paraenses, os quais nem ao menos sabiam da viagem do rapaz. Foi esta descoberta que motivou a mulher a iniciar sua busca. As informações da emocionante história foram divulgadas pela BBC.

"Medo eu não tinha. Nunca tive. Mas tinha a certeza de que ia ir atrás dele, porque eu tenho um Deus. Eu chamava ele e dizia 'não deixa eu morrer, deixa eu ir ao fim. Eu quero ir ao fim dessa briga'", disse Pureza em entrevista à BBC News Brasil.

Em sua jornada, a oleira começou a trabalhar como cozinheira em fazendas do sul do Pará, para onde acreditava que o filho tinha ido.

Escravidão à beira do século 21

De acordo com a maranhense, os trabalhadores desses locais eram, em sua maioria, provindos de outros estados da região Norte e também do Nordeste e atuavam na derrubada de mata nativa para transformá-la em pasto. Eles eram recrutados pelos "gatos", como são conhecidos os aliciadores que agem a serviço de fazendeiros, em grandes cidades do Pará.

Mas ao contrário das promessas irrecusáveis de trabalho, ao chegarem às propriedades, tinham seus documentos confiscados e deixavam de ter contato com o mundo exterior.  Além disso, eram obrigados a se endividar com os patrões para obter itens básicos para sua sobrevivência e, até mesmo, para o desempenho de suas funções.

Por ter atuado em muitas fazendas durante os mais de três anos de sua procura, Pureza conheceu de perto histórias de trabalhadores que viviam como escravos de seus empregadores. Soube do confisco de documentos, dos endividamentos para conseguir comida, remédio e vestuário, e também das ameaças que sofriam aqueles homens.

Convencida de que o filho estaria passando pela mesma situação daquelas pessoas, Pureza foi até a sede da Comissão Pastoral da Terra (CPT), localizada em São Luís. Lá, ela encontrou o missionário diocesano Flavio Lazzarin, quem a ajudou em sua busca.

Em seguida, a maranhense, com o auxílio da CPT, contatou o Ministério do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho nos estados do Maranhão e do Pará e também no Distrito Federal. Ela chegou a escrever cartas para os presidentes Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, mas somente obteve resposta do segundo.

Na época, a oleira foi para Brasília, mas declara não ter recebido a devida atenção. "Ali ninguém tem coração, ali só briga por dinheiro", afirmou. Mesmo assim, Pureza nunca desistiu de sua missão, pois tinha fé de que um dia encontraria Abel. No final, ela estava certa.

Conforme divulgado pela Agência Brasil, no ano de 1996, a maranhense finalmente reencontrou o filho no Pará, após ele ter conseguido fugir de uma fazenda local. Desde então, Abel vive a salvo com a família na cidade de Bacabal, no Maranhão.


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