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Ritual antropofágico dos tupinambás: Comer o inimigo era o máximo da vingança

Da captura à boca, o que acontecia com os inimigos dos índios no século 16

André Ducci Publicado em 24/07/2019, às 00h00

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- Para os tupis, alimento para o espírito/ Crédito: Reprodução

Os exploradores e missionários da época do descobrimento fizeram vários relatos sobre antropofagia entre os tupis, etnia que ocupava todo o litoral brasileiro. Eles se dividiam em duas culturas rivais, os tupinambás e tupiniquins. Os primeiros eram aliados dos franceses, os segundos, dos portugueses. Viviam em guerra e tratavam os cativos europeus da mesma maneira que seus adversários indígenas: como alimento para corpo e espírito, em sua interpretação de que, ao comer um guerreiro, se absorvia sua força. 

O ritual antropofágico foi descrito em detalhes pelo mercenário alemão Hans Staden, que naufragou na costa de São Paulo em 1550, foi pego pelos tupinambás, e presenciou todo o processo. 

O próprio Staden estava destinado a virar almoço, mas conseguiu, a muito custo, convencer os tupinambás de que não era um português e até ficar amigo deles. Ele é a fonte principal desta matéria.

Um parêntesis importante aqui: alguns historiadores questionam toda a narrativa da antropofagia como uma construção colonialista. Ou ao menos alguns detalhes dela, como toda essa parte do sexo. Não há ritual semelhante em nenhum grupo indígena atual — o mais perto são os ianomâmis, que consomem seus entes queridos na forma de cinzas. 

Recepção

Quando a vítima chegava à aldeia, era estapeada e beliscada pelas mulheres, e obrigada a gritar: "Eis a sua comida chegando". Era enfeitada com penas e suas sobrancelhas, cortadas. As mulheres gritavam "Vingo-me em você por aquilo que os teus fizeram aos nossos".

Representação de ritual antropofágico / Crédito: Reprodução

 

Uma vez na aldeia, o prisioneiro era acolhido por uma mulher (uma irmã de seu dono era o mais comum). Podiam fazer sexo, mas se nascesse um bebê, seria comido ao chegar à juventude.

Preparação

O inimigo tinha de usar uma corda grossa presa ao pescoço, a mussurana. Seu rosto era pintado, e ele, obrigado a beber e fazer sexo com as mulheres.

Iverapema era o nome do tacape ritual com que a vítima seria abatida. Uma mulher fazia desenhos no porrete e o enfeitava com penas.

Toda a preparação era recebida com dança pela aldeia — amigos de aldeias vizinhas eram convidados a participar. O carrasco da vítima pintava todo o corpo com cinzas.

O ritual

As mulheres levam o corpo para o fogo e o esfolam até que fique bem branco. Então, enfiam um pedaço de madeira no ânus para evitar excreções. Já esfolado, o corpo é cortado por um homem. As pernas, acima do joelho. Os braços em seguida. As mulheres pegam os quatro pedaços e dão voltas na aldeira, aos gritos.

As costas são abertas, separadas da parte da frente, e repartidas. As mulheres ficam com as vísceras. O caldo é fervido e vira uma sopa chamada mingau, tomada pelas crianças, que também comem partes moles, como os intestinos e a língua.

A carne humana é servida acompanhada de farinha de mandioca. A ela se dá o nome de moquem. Pedaços do inimigo são levados para as cabanas e cada família come sua parte. Os homens comem a pele do crânio, e as mulheres, o órgão sexual. Mães embebem o seio com sangue para oferecê-los aos bebês.

Souvenir

Quem matou o prisioneiro ganha mais um nome e tem o braço riscado pelo cacique com o dente de um animal, motivo de orgulho a seu detentor.

Os ossos do morto eram conservados, e o crânio fincado em uma estaca na frente da casa de seu carrasco. Os dentes viravam colar, e as tíbias, flautas.