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Em nome da ciência: O cientista infectado com 50 ovos de parasita para testar vacina

“Aqui está a história de como me ofereci para ser infectado com 50 vermes parasitas por um ano como parte de um estudo de pesquisa”, disse Jimmy Bernot em uma thread no Twitter. Confira!

Fabio Previdelli Publicado em 11/02/2021, às 08h00

O cientista Jimmy Bernot
O cientista Jimmy Bernot - Divulgação

Todos os anos, segundo dados do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA (CDC), entre 576 milhões e 740 milhões de pessoas são acometidas com doenças causadas por parasitas.

Esses casos são mais frequentes em países que não contam com um bom sistema de saneamento básico, como no Brasil, onde cerca de metade da população não tem acesso a rede de esgoto, de acordo com dados levantados pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), segundo censo de 2020.  

Porém, muitas dessas enfermidades podem sem prevenidas — ou combatidas — com o uso de vacinas. Muitos desses imunizantes, no entanto, só são desenvolvidos após diversas fases de testes, o que inclui a infecção desses parasitas em voluntários humanos.  

Um desses casos foi registrado por Jimmy Bernot, especialista em crustáceos no departamento de zoologia do Museu Nacional de História Natural, nos Estados Unidos.

Há cerca de um ano, ele resolveu participar de um experimento para o desenvolvimento de uma vacina contra o ancilostomídeo Necator americanus, popularmente conhecido como amarelão. 

Para isso, no entanto, ele teve de ser contaminado com 50 larvas do verme. Bernot relatou suas experiências nas redes sociais e acabou viralizando com seus depoimentos. 

O estudo 

“Aqui está a história de como me ofereci para ser infectado com 50 vermes parasitas (ancilostomíase) por um ano como parte de um estudo de pesquisa”, escreveu o pesquisador em uma thread que publicou no Twitter.  

O cientista foi um dos voluntários de um estudo clínico duplo-cego, ou seja, nem o profissional, tampouco os responsáveis pelo estudo, sabiam se ele havia recebido a vacina ou o placebo. 

“Ofereci-me para ser vacinado (também fui pago) com uma vacina experimental contra a ancilostomíase. Após a vacinação, a vacina (ou placebo) foi testada infectando-me com 50 ancilostomídeos (Necator americanus) que penetraram na minha pele a partir de um pedaço de gaze que usei no pulso durante 1 hora”, explicou.  

Segundo conta, os efeitos da aplicação foram imediatos. “Em poucos minutos, senti uma sensação de formigamento sob o adesivo. Os vermes bebês estavam penetrando na minha pele!”, declarou. “Os vermes detectam ácidos graxos na minha pele e liberam enzimas proteolíticas para facilitar o deslizamento entre as células da pele e os vasos sanguíneos”. 

Bernot conta que, segundos depois, seu pulso começou a coçar muito. Porém, o pesquisador teve que se conter e lutar contra essa vontade.

A angústia só acabou depois de cerca de 30 minutos. Assim ficou o braço dele depois de uma hora que o adesivo foi retirado.  

Apesar desse primeiro incômodo, Jimmy disse que não teve receio de ser um voluntário no estudo. “Eu conheço a biologia desses parasitas e não me preocupei com minha saúde em nenhum momento”.  

Como em qualquer estudo clínico, o pesquisador era acompanhado por uma equipe de pesquisadores, neste caso um médico da The GW Medical Faculty Associates, que conduzia a pesquisa.  

A infecção por ancilostomídeos pode ser tratada com o uso de anti-helmintos, porém, ainda assim, ela pode afetar muitas pessoas, conforme explica Bernot. “A infecção por muitos vermes (mais de 100) pode causar anemia, que é mais problemática em crianças, mulheres grávidas e idosos”, diz. 

 “Os ancilóstomos são nematódeos alimentadores de sangue que vivem no intestino de mamíferos, incluindo gatos, cães e humanos. Cerca de 500 milhões de pessoas estão infectadas com ancilostomíase, principalmente em áreas tropicais e subtropicais, incluindo o sul dos EUA”.  

Os parasitas 

Depois de 10 dias do início dos experimentos, ele passou a ser acometido por erupções cutâneas, um dos sintomas da doença. “Durante a semana seguinte, a erupção dos vermes e minha resposta imunológica aumentaram. A coceira foi mais intensa do que qualquer outra que já experimentei — pior do que a hera venenosa”, conta. “(Além disso) eu dormi com um creme de Benadryl ao lado da minha cama, porque a erupção cutânea me acordava no meio da noite". 

“Nesse ponto, os vermes bebês já estavam atravessando minha pele e circulando pelo meu sistema circulatório como um escorregador em um parque aquático. Pelo menos é assim que eu os imaginei”, explica de maneira descontraída. 

Com isso, além de amostras de sangue, o médico passou a analisar — quinzenalmente — amostras de fezes de Jimmy. Isso mostraria se os parasitas estavam, ou não, se reproduzindo em seu organismo.

Para seu azar, elas estavam se espalhando. Uma de suas amostras fecais continha cerca de 7 mil ovos de ancilostomídeos, o que significa que os parasitas se reproduziram, ao menos, mais de 140 vezes desde que encontraram abrigo em seu organismo.  

Após seis meses participando do estudo, sua participação nos testes estava chegando ao fim. Assim, Jimmy foi medicado com três doses de Albendazol, medicamento usado no tratamento de verminoses.

O uso do remédio por três dias consecutivos foi o suficiente para expelir todos os parasitas ao longo de um mês. Entretanto, ele continuará sendo avaliado por cerca de um ano.  

"Ainda não sei se fiz parte do grupo da vacina ou do placebo, mas irei acompanhar os pesquisadores para descobrir", explica. Devido ao fato de que os parasitas conseguiram se reproduzir em seu corpo, só existe dois caminhos plausíveis para o caso registrado em Bernot: ou ele recebeu, de fato, um placebo, ou a vacina não é eficaz.  

“Hoje em dia, temos tantos remédios, tratamentos e vacinas que tornam nossas vidas muito mais fáceis — é fácil ignorar todo o trabalho e sacrifício que envolve torná-los seguros e eficazes”, celebra, apesar do resultado. 

Sem ressentimentos 

Apesar de toda essa experiência, o pesquisador continua com a mesma opinião sobre a importâncias dos vermes. “Penso que o equívoco mais comum sobre os parasitas é que todos eles são ruins”, disse em entrevista à IFL Science.  

“É verdade que os parasitas têm efeitos negativos sobre seus hospedeiros. Alguns parasitas causam doenças em humanos e devemos tratá-los e preveni-los. Dito isso, a maioria das pessoas ficaria surpresa ao descobrir que os parasitas também são uma parte natural e importante de ecossistemas saudáveis", alerta. 

“Os parasitas desempenham muitos papéis nos ecossistemas e vários estudos mostraram que os parasitas beneficiam as cadeias alimentares naturais e são indicadores positivos da saúde do ecossistema. Assim, como os predadores ajudam a regular as populações de presas, os parasitas ajudam a regular as populações de hospedeiros e sua presença é um sinal de um ecossistema saudável e bem conectado”, concluiu.


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