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Matérias / Personagem

Emilie Schindler e seu passo ignorado pela História

Como Steven Spielberg, Branko Lustig e a Universal a ignoraram de seu próprio papel relevante: o resgate, junto a seu marido Oskar, de tantos judeus, poloneses e tchecos

Erika Roseberg-Band* / Tradução: Fabio Previdelli Publicado em 13/02/2022, às 06h00

Emilie Schindler, esposa de Oskar Schindler, e o diretor Steven Spielberg - Erika Rosenberg-Band e Gage Skidmore via Wikimedia Commons
Emilie Schindler, esposa de Oskar Schindler, e o diretor Steven Spielberg - Erika Rosenberg-Band e Gage Skidmore via Wikimedia Commons

O ano era 1990 e eu estava coletando material para um novo livro sobre imigração na Argentina. No meu processo de investigações e entrevistas conheci Emilie Schindler, sem saber quem ela era, o que havia feito e quantas pessoas havia salvado do Holocausto.

Isso aconteceu exatamente em 22 de junho de 1990, três anos antes do filme ‘A Lista de Schindler’ ser lançado. Emilie viveu esquecida pela História, pelos sobreviventes e por Alemanha, Israel e Argentina em um povoado a 60 km ao sul de Buenos Aires.

Naquele dia frio de junho cheguei a San Vicente com meu gravador, meu caderno de notas e grandes expectativas. Tocando a campainha de sua humilde casinha na avenida principal (San Martín 353), me surpreendi com a quantidade de gatos que cercavam o jardim. Pequenos bebedouros com leite e potes com comida estavam espalhados por toda parte.

Emilie Schindler ao lado de Erika Rosenberg-Band/ Crédito: Imagem gentilmente cedida por Erika Rosenberg-Band

No segundo toque, a porta foi aberta por uma mulherzinha senescente de cabelos brancos e rosto circundado com rugas típicas de sua idade, mas o mais marcante para mim eram seus olhos brilhantes e vivos que expressavam tudo e apagavam as outras marcas da passagem do tempo.

Ao entrar fiz um comentário sobre o frio. É verdade, aquele inverno tinha sido muito frio. De repente me vi no meio de uma sala com paredes nuas e móveis puídos, uma grande pobreza reinava no ambiente. Mas à medida que a conversa avançava, tudo isso desapareceu e minha mente, meus sentidos, meu coração foram tocados por uma varinha mágica.

Tomamos café, conversamos sobre Deus e o mundo, sobre seus gatos, seu cachorro, meu carinho pelos animais.. e, depois de três horas, percebi que não lhe fizera nenhuma pergunta.

Emilie, uma mulher inteligente e intuitiva, percebeu meus pensamentos e me disse: “Senhora Rosenberg, volte no próximo sábado ou domingo e continuaremos conversando sobre a entrevista”...

… E foi assim que voltei aos fins de semana seguintes e seguintes, até completar 11 anos, quando o fim de sua vida chegou.

Semana após semana ela me contou, quase que cronologicamente, parte de sua vida, até que um momento me pareceu grotesco e até ridículo continuar com minha ideia de escrever sobre imigração. Foi assim que lhe propus, em 1º de janeiro de 1991, que escrevesse uma biografia sobre ela e seu marido. Sua história foi mais do que fascinante para mim.

Emilie Schindler, esposa de Oskar Schindler, na parte final de sua vida/ Crédito: Imagem gentilmente cedida por Erika Rosenberg-Band

Em janeiro de 1991 começamos com as entrevistas e minhas visitas se tornaram cada vez mais assíduas. Com o passar do tempo percebi na grande pobreza que Emilie vivia, na sua solidão e em seu abandono.

Emilie esperava-me aos fins de semana com muita alegria e sempre cozinhava alguma comida que eu gostava. Compartilhamos esses momentos daqueles maravilhosos anos junto a ela. 

Mas o que vivi ao lado dela, principalmente quando o filme ‘A Lista de Schindler’ saiu, foi um ato mais do que vergonhoso. E vou contar tudo …

Era meados de maio de 1993, já havíamos terminado as entrevistas para o livro. Eu havia realizado outras com sobreviventes, para as quais tive que viajar para Israel, EUA, Canadá e Europa para poder falar com eles. Eu tinha o manuscrito terminado, só precisava de algumas correções.

Certa manhã, Emilie me ligou e me pediu para ir visitá-la e traduzir uma carta que ela recebeu em inglês. Pedi para ela esperar até sábado. Então eu fiz isso.

Lendo a carta em papel timbrado de Steven Spielberg e da 'Lista de Schindler', fiquei surpresa ao descobrir que Spielberg a convidou para Jerusalém, onde a última cena no túmulo de Oskar foi gravada, como se Emilie fosse apenas mais uma judia entre as 1.200 salvas pelo heroico Oskar Schindler. Mais tarde, em outro parágrafo, ele acabou convidando-a junto a seu marido.

A surpresa de Emilie e minha, claro, foi tão grande que ficamos atordoadas. Então, eu vi os olhos de Emilie brilharem com raiva viva. Logo em seguida, ela começou a insultar Spielberg, a xingá-lo e, também, a chorar.

Carta de Spielber enviado à Emilie/ Crédito: Imagem gentilmente cedida por Erika Rosenberg-Band

Ela estava certa. Emilie foi companheira constante de Oskar de 1927 a 1957, nunca se divorciaram e teve um valor relevante no resgate dos judeus das fábricas de Cracóvia e Brünnlitz, no período de outubro de 1939 até maio de 1945.

Alguns dias depois, Emilie recebeu um envelope com duas passagens aéreas para Israel via Europa. Ela me pediu para ir com ela e eu fui. Chegando a Jerusalém, fizemos check-in num hotel cinco estrelas. A recepcionista nos convidou para um jantar de gala às 18h. Nos exigiu pontualidade. 

Ao olhar o convite, descubri que nos foi atribuída a mesa 85. Minha pergunta era por que Emilie, tendo a importância que tinha, não ocuparia a mesa 1, 2, 3…

Pontualmente fomos ao grande salão onde aconteceria o jantar de gala. Estava lotado de pessoas, aparentemente todos sobreviventes, produtores, coprodutores, atores. Enfim, Hollywood... “o show deve continuar!”. Uma jovem nos guiou até nossa mesa na última fileira, exatamente como eu havia calculado de acordo com a numeração.

Sentadas, ninguém falava conosco, ninguém havia reconhecido em Emilie aquela mulher que, junto com o marido, arriscou mil vezes a vida em busca da Humanidade, colocando constantemente a sua própria em risco.

Mais tarde, em um palco, conversaram entre si sobre os "esforços" da produção, sobre os milhões que o filme custou, com os quais percebi que já havia sido feito sem nunca terem feito uma miserável entrevista com Emilie como principal protagonista e testemunha elementar.

Depois de um tempo, Emilie decidiu voltar para seu quarto. Ao nos levantarmos, um homem idoso se aproximou de nós e, virando-se para Emilie, disse: “Você é a senhora Schindler?” 

Emilie Schindler com mulheres que foram salvas por ela e seu marido/ Crédito: Imagem gentilmente cedida por Erika Rosenberg-Band

Ao respondê-lo afirmamente, notei que os olhos do homem estavam lacrimejando, então ele respondeu sem hesitar e com um sorriso largo: “Você é nossa mãe, foi nossa mãe. Nos deu comida, chocolate, remédios.. Por favor, não vá embora, espere, eu vou avisar os outros”. Ele então deu meia-volta e caminhou até as mesas dizendo: “A esposa do diretor Schindler está aqui, ela está aqui!”. 

Muitos se levantaram e pararam de saborear as iguarias que os anfitriões nos ofereceram. Lentamente eles se aproximaram de Emilie e pegaram suas mãos. Lágrimas rolaram, alguns tentaram abraçá-la. Foi um momento muito emocionante que nunca vou esquecer.

Fiquei de lado, a observava como se estivesse no meio de um filme de ação que estava se desenrolando. Lamento até hoje, porém, que não tinha nenhuma câmera para registrar aqueles momentos quase sublimes.

Cerca de 20, ou 25 minutos, se passaram quando surgiu no meio do salão um homem de estatura mediana, meio desgrenhado, quase boêmio. Era Steven Spielberg. Pensei comigo mesma que ele iria cumprimentá-la e pedir desculpas pela má interpretação de seu convite… mas quão errada eu estava em minhas convicções. 

Spielberg ficou a cerca de 10 metros de distância, observou com um sorriso, depois alisou o cabelo, virou os calcanhares para trás e nunca mais o vimos de perto. Sempre dirigindo de longe, mandou que todos se preparassem para a última cena das gravações.

No quinto dia, em 30 de maio de 1993, data final do evento, estávamos prestes a sair quando um jovem mensageiro bateu à nossa porta e nos entregou uma carta de despedida de Spielberg:

Querida Sra. Schindler,

Você faz parte de uma história notável. Li pela primeira vez sobre o improvável resgate de Oskar Schindler a você mais de 1.300 outros judeus da ameaça dos campos de extermínio nazistas há mais de dez anos, e demorei até agora para trazer esse importante pedaço da história para a tela.

Atualmente estou em Cracóvia, Polônia, onde filmo ‘A Lista de Schindler’, baseado no romance de Thomas Keneally. A história de como suas vidas foram salvas será compartilhada com pessoas de todo o mundo como um grande filme até o final deste ano.

Mas a ‘Lista de Schindler’ não é meramente uma visão geral de um acontecimento na história. É uma história sobre pessoas, tão relevante agora quanto era quando aconteceu há cinquenta anos. Ao fazer este filme, foi muito importante para mim enfatizar nomes e rostos, não apenas datas e lugares.

O que me leva à razão pela qual estou escrevendo para você. Estarei viajando para Israel com minha equipe para filmar uma cena de epílogo no túmulo de Oskar Schindler. Eu ficaria profundamente honrado se você aparecesse na cena e me permitisse incluir seu rosto importante no filme.

Você e seu esposo estão convidados a virem a Jerusalém como meus convidados de 25 a 30 de maio de 1993. Faremos uma recepção especial para todos os judeus Schindler presentes em 27 de maio e vamos filmar no túmulo em 28 de maio. Meu escritório entrará em contato com você com mais detalhes e pagamentos de viagens.

Espero que você possa se juntar a mim em Jerusalém para fazer parte desta importante mensagem de paz para o mundo; o lembrete de que 'Aquele que salva uma única vida, salva o mundo inteiro', uma homenagem a um tempo que nunca deve ser esquecido. Estou ansioso para te ver”.

Infelizmente Spielberg tinha esquecido que, para ser salvo, deve haver salvadores.

Emilie voltou para Buenos Aires e decidiu processar Spielberg, cujos advogados responderam com um balanço da Universal mostrando que o filme teve um prejuízo de 13 milhões de dólares. 

E, em uma carta, ele diz que Emilie não tinha direito a uma porcentagem porque ela era a viúva divorciada de Oskar. (Os documentos, que provam o contrário, estão em minha posse).

Emilie e Oskar na Cracóvia, em 1942/ Crédito: Crédito: Imagem gentilmente cedida por Erika Rosenberg-Band

Como a segunda parte deste interessante circo chamado Hollywood e suas verdades oficiais, em outra ocasião, relatarei a história não contada do filme de 1962 que nunca foi feito. O importante é o conteúdo de seu roteiro. Uma história fascinante e reveladora de outra verdade. Por muitos anos pesquisei isso e agora parte dele está em minha posse.


Erika Roseberg-Band é professora, jornalista, escritora e biógrafa de Oskar e Emilie Schindler


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