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Entre banditismo e romance, a turbulenta saga de Lampião e Maria Bonita

Em entrevista à AH, o jornalista Wagner Barreira contou detalhes sobre o começo da trama amorosa, as regalias de Maria de Déa no bando e a relação do casal com sua única filha

Isabela Barreiros Publicado em 19/11/2020, às 08h00

Lampião e Maria Bonita com seu bando
Lampião e Maria Bonita com seu bando - Divulgação

Maria Bonita se casou muito cedo, como geralmente acontecia no sertão nordestino no começo do século passado. Zé de Neném, um primo seu que era sapateiro e também estéril, foi o escolhido para o casório. Com fama de boêmio, as atitudes do homem enfureciam a mulher ciumenta, que não sabia lidar com as brigas do relacionamento.

Toda vez que o casal brigava, ela partia para a fazenda dos pais, no município de Paulo Afonso, ao norte da Bahia e na beira do rio São Francisco. Embora fosse casada, Maria tinha uma paixonite crescente por uma figura importante da região, que se consolidou de vez quando ela finalmente o conheceu nas terras de sua família, durante esses períodos de ‘exílio’.

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, Wagner G. Barreira, autor do livroLampião e Maria Bonita: Uma história de amor entre balas (2018), conta que o romance entre Maria Bonita e Lampião começou quando o lugar-tenente do cangaceiro, chamado Luís Pedro, bancou o papel de cupido para o casal.

Encontro do fotógrafo Benjamin Abrahão Botto com Lampião e seu bando / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ele chegou para o capitão e disse que sabia de uma mulher bonita que gostava dele. Desconfiado, o líder do bando rejeitou a proposta: “eu cismo com essas amorosas”, teria dito. Mas o amigo era insistente e continuou teimando na tal da mulher bonita que falava constantemente sobre ele. 

Depois de muita persistência, Lampião cedeu e decidiu finalmente visitar a moça na fazenda de seus pais. No entanto, a história de amor entre o casal mais conhecido do cangaço começou com uma conversa simples, um papo comum sobre bordado. Segundo Barreira, “ele perguntou se ela sabia bordar e pediu para ela bordar uns lenços de seda que ele tinha, fazer um monograma ‘CV’, de capitão Virgulino”.

O cangaceiro disse então que passaria no local novamente para buscar os lenços bordados por ela. Quando voltou, tempos depois, pagou muito mais do que deveria pelo trabalho. Nesse momento, o futuro casal passou a ter um novo incentivo: a mãe de Maria, chamada dona Déia, que logo tomou o cargo de Luís e se tornou o novo cupido da relação. 

A mulher falava bem do líder do bando para a filha e fazia o mesmo na situação contrária. Os dois passaram a se ver cada vez mais. Parecia que o amor estava surgindo ali, no meio das terras áridas do sertão nordestino, entre uma mulher ainda casada e um homem nômade e fora da lei.

O casal / Crédito: Domínio Público

 

No entanto, outro problema surgiu. “A questão era que o pai da Maria Bonita começou a se incomodar porque, de um lado era legal, era um símbolo de status ser amigo do Lampião e dos cangaceiros, só que isso também trazia polícia para as terras dele. Por exemplo, a polícia tinha as volantes, que combatiam o cangaço, e chegavam na fazenda e matavam bois, bodes, comiam e não pagavam, arrancavam cercas”, explica Barreira.

Cansado da confusão que a presença constante de Virgulino causava, ele decidiu que iria se mudar — o destino era Alagoas, queria ficar longe da polícia que perseguia o maior cangaceiro do nordeste. Mulher decidida, Maria disse que não o acompanharia na mudança. Ela queria ficar com Lampião, abandonar o marido-primo e transformar totalmente a sua realidade.

“Nessa altura, Lampião já estava apaixonado por ela. No fim dos anos 30 e no começo de 1931, ele foi, pegou a Maria e disse, ‘bom, a Maria vai entrar para o cangaço’. O que era algo absolutamente inédito, porque cangaço era o clube do bolinha, não tinha mulher”, afirma o autor. “Os cangaceiros não eram padres, eles tinham uma vida sexual que no geral se resolvia com prostituta ou com mulheres alheias. Mas não tinha essa história de ficar junto, isso foi invenção do Lampião”.

Na opinião do jornalista, o amor foi o que fez Lampião mudar as regras do cangaço. Ele foi o primeiro a trazer consigo sua mulher para a rotina do bando, que era de constante mudança e tensão. Depois de Maria, muitas mulheres entraram para o cangaço, a maioria sequestrada e obrigada a acompanhar muitos homens do grupo, e outras decidiram por conta própria largar suas vidas comuns e se juntar aos cangaceiros.

Como era mulher do capitão, a própria Maria Bonita tinha algumas regalias dentro do bando. Barreira explica que “o papel dela era ser a mulher do chefe e com isso ela tinha o respeito de todos os cangaceiros, então ela brincava e barbarizava”. Mas papel formal na organização do bando, isso nem ela, nem nenhuma outra cangaceira tinha. 

Em quase uma década de relacionamento, Lampião e Maria Bonita tiveram apenas uma filha. Nesse quesito, porém, eles não puderam quebrar a tradição do cangaço, que não permitia crianças no bando. Pouco depois do nascimento, os bebês eram entregues para a adoção, e Expedita, filha do casal de ouro, não fugiu à regra. 

Expedita Ferreira Nunes / Crédito: Acervo Pessoal

 

“Em geral, eles eram entregues para autoridades ou padres. No caso da Expedita, o casal ficou com o bebê durante um mês e depois entregou para um vaqueiro. A Expedita, que está viva, tem lembranças de visitas do pai e da mãe, que eram esparsas por eles estarem sempre em movimento. O contato foi realmente bem pequeno e ela soube que era filha do Lampião bem mais velha”, contou o autor.

Eles não poderiam visitar a filha por muito mais tempo nem se quisessem. No dia 28 de julho de 1938, Virgulino, Maria Bonita e outros 33 membros do cangaço foram surpreendidos por uma emboscada que acabou com suas vidas em uma ação de apenas 20 minutos. Seus corpos foram degolados e mutilados, colocados em uma exposição fúnebre para qualquer sertanejo que quisesse ver o fim de Lampião.

Tanto a história de amor quanto o cangaço por si só acabaram nas primeiras horas daquele dia. O fenômeno cultural foi único na história do Brasil, mas a trama de Maria Bonita e Lampião poderia estar em um romance dramático: para Barreira, eles eram “uma mulher que larga tudo para seguir um fora da lei e um fora da lei que põe em risco o próprio sentido do cangaço para ficar com uma mulher”.


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