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Entre o sexo e a sífilis: As prostitutas da Primeira Guerra

Para satisfazer os soldados, até bordéis móveis foram criados

Santiago Farrell Publicado em 27/07/2019, às 16h00

Prostitutas na Primeira Guerra
Prostitutas na Primeira Guerra - Reprodução

A propaganda dos países em luta, que exaltava o "moral" das tropas, e a severa censura às cartas que os soldados enviavam para casa fizeram da sexualidade durante a Grande Guerra um tabu durante muito tempo.

Anos depois, um opositor de consciência alemã, Ernst Friedrichm publicou um livro chamado Krieg dem Krieg (Guerra à Guerra), no qual incluiu fotografias de prostitutas e reabriu o debate. Uma das fotos mostra o cartaz no salão de um prostíbulo da França ocupada, com o detalhe dos preços dos serviços: bebidas e tempo com as mulheres.

No primeiro se vê que uma garrafa de champagne custava 18 marcos, e uma cerveja, 1,50. O segundo informa que para passar a noite com uma mulher é preciso pagar 30 marcos; por uma hora durante a noite, 10 marcos, o mesmo que em qualquer horário entre nove da manhã e seis da tarde.

Diferente da regulamentação alemã, no front ocidental as prostitutas francesas ou belgas, se bem controladas pela lei, que as obrigava a fazer exames periódicos de saúde, confortavam os soldados, fossem eles alemães, britânicos ou franceses, às vezes a dois quilômetros do front, em castelos abandonados, nas casas dos povoados, em celeiros, granjas ou, na melhor das circunstâncias, em pequenas pousadas.

Lâmpadas de cores diferentes indicavam o nível da clientela atendida: azul significava um lugar reservado para oficiais; vermelho era a cor dos soldados comuns. Às vezes, a fila na porta desses lugares podia ser de cem homens ou mais, com três ou quatro mulheres exaustas esperando lá dentro. O preço dos serviços variava de 2,50 a 10 francos, embora muitas vezes se adotasse um sistema de trocas com pão e salsichas.

Por sua vez, bem de acordo com a tradição alemã, os alemães não podiam deixar nada ao acaso, e, desde o começo, o alto-comando tratou o tema da sexualidade. Se no começo recomendavam a abstinência, o risco da sífilis os levou a criar bordéis supervisionados por médicos militares em cada uma das cidades que ocupavam e bordéis móveis (no terreno) perto das frentes.

A distribuição de preservativos e substâncias desinfetantes produziu uma taxa muito baixa de infectados pela sífilis no Exército: apenas 2% ainda no caótico 1918, quando a organização e a logística enfrentavam sérias dificuldades.

Por outro lado, os soldados canadenses eram proibidos de todo contato com mulheres, exceto em períodos de descanso em seu país. Isso fez muitos recorrerem às prostitutas e o resultado foi que, em determinado momento, um terço do Exército do Canadá estava contaminado com a sífilis.

Uma das advertências recebidas pelos soldados britânicos, além de manter práticas de higiente impossíveis na vida das trincheiras, referia-se a não se satisfazerem sexualmente entre si. A homossexualidade era perseguida: 270 soldados e 20 oficiais foram submetidos a uma corte marcial por cometer atos de indecência com outro homem, de acordo com o Manual de Lei Militar.

A Freuenpolizei, ou polícia moral, controlava de perto cada mulher que exercia a prostituição com os soldados. Cada uma era registrada e mantinha um controle de seus clientes para monitorar os riscos de infecção. Naturalmente, à medida que o conflito avançava, esse controle se tornou mais difícil.

As prostitutas que trabalhavam com soldados alemães enfrentavam uma demanda tão esmagadora quanto as colegas francesas. Em um dia regular em um bordel móvel ou de campo, atendiam trinta clientes, pelo menos. Trabalhavam seis dias por semana e recebiam um marco (dos quatro cobrados pelo bordel) para cada soldado ou oficial, assim podiam ganhar 180 marcos semanais, uma soma nada desprezível para a época.


Reportagem retirada do livro Tudo o Que Você Precisa Saber sobre a Primeira Guerra Mundial, de Santiago Farrell.