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Envenenamento, tiros e "ressurreição": a polêmica morte de Rasputin

O bruxo de Alexandra, a esposa do último czar do país, despertou o ódio da sociedade teve uma morte, no minimo, bizarra

Simone Bitar Publicado em 19/09/2019, às 08h00

Grigori Rasputin
Grigori Rasputin - Reprodução

No dia 16 de dezembro de 1916 o príncipe Félix Yusupov convidou Rasputin para uma noitada em seu palácio, às margens do canal Moika, em São Petersburgo. Ele parece ter insinuado que, naquela noite, Rasputin poderia desfrutar de sua esposa, a princesa Irina Alexandrovna. O libertino não deixaria passar em branco essa oportunidade, já que Irina era irmã de Nicolau II. Mesmo sabendo que vivia sob ameaça, o bruxo aceitou o convite. Era uma cilada.

A trama para assassinar Rasputin foi descrita por Yusupov no seu diário pessoal, em que ele declara ter sido o único mentor do atentado. O objetivo seria salvar a honra da monarquia russa. O príncipe cita outros personagens. Um deles é o grão-duque Dimitri Pavlovich, primo de Nicolau II . Outro é o deputado Vladimir Purishkevich, membro do Duma, a câmara baixa do Parlamento russo e feroz crítico de Rasputin.

Félix Yusupov e a princesa Irina Alexandrovna / Crédito: Reprodução


O diário de Yusupov conta que Rasputin chegou ao palácio no início da madrugada. Lá, foi acomodado na sala de jantar — arrumada para dar a impressão de que uma multidão tinha acabado de cear. No andar de cima, os conspiradores ouviam música alta, fingindo ser convidados que ainda não haviam ido embora. Rasputin foi informado de que deveria esperar a princesa Irina despachar os visitantes. O plano era que o bruxo morresse ao ingerir vinho e pedaços de bolo envenenados com cianeto.

Rasputin relutou, mas aceitou comer e beber. Yusupov ficou na sala, esperando em vão que o veneno fizesse efeito. Já passava das 2h30 quando o convidado, aparentemente imune ao cianeto, começou a se irritar com a demora. O príncipe subiu ao segundo andar, sob o pretexto de apressar Irina. Foi quando os seus comparsas o convenceram a atirar em Rasputin com a pistola de Pavlovich.

Yusupov desceu as escadas e disparou contra o curandeiro, que caiu no chão. Todos desceram, examinaram o corpo e voltaram ao segundo andar para festejar o sucesso do atentado. Yusupov continuava tenso, imaginando que, graças a poderes sobrenaturais, a vítima ainda estivesse viva. Perto de 3h30, o príncipe voltou à sala de jantar. O, até então inerte, Rasputin subitamente se levantou e atacou o desesperado Yusupov, que clamou por ajuda. O místico ainda teve forças para fugir pelo pátio, onde foi alvejado novamente. O tiro de misericórdia teria sido disparado por Purishkevich.

Um quadro representando Felix Yusupov com Grigori Rasputin no período que antecedeu o assassinato de Rasputin / Crédito: Reprodução


O cadáver foi enrolado num tapete e atirado nas águas do rio Neva. Em depoimentos dados em 1934 e 1965, Félix Yusupov repetiu exatamente essa história. Mas os detalhes não batem com as versões dos outros envolvidos.

Depois do fim da União Soviética, documentos da época foram analisados com novas técnicas forenses. Descobriu-se que os três tiros encontrados no cadáver vieram de armas diferentes. A primeira, de Pavlovich. A segunda, de Purishkevich. Já o tiro fatal, dado no centro da testa com destreza profissional, saiu de uma Webley .455, pistola usada por oficiais ingleses. “Acho completamente possível que os britânicos estivessem envolvidos no assassinato de Rasputin, trabalhando para manter a Rússia na guerra”, diz o professor Saunders.

Segundo um documentário de 2004, produzido pela emissora inglesa BBC, relatórios do antigo serviço secreto inglês se referem à data do crime como o “extermínio das forças ocultas na Rússia”. O agente Oswald Rayner (que estudou com o príncipe Yusupov em Oxford) teria sido destacado para acompanhar a conspiração e assegurar que Rasputin fosse mesmo assassinado.

Ao saber do crime, a czarina Alexandra exigiu uma investigação minuciosa. A polícia encontrou provas por todos os cantos, incriminando Yusupov e Pavlovich. Ambos foram expulsos do país por Nicolau II, que, com esse ato, acabou salvando a vida deles. O assassinato de Rasputin foi usado por grupos revolucionários como mais um pretexto para incitar levantes populares.

Três meses depois do crime, o czar seria derrubado. Em outubro de 1917, o poder chegaria às mãos dos bolcheviques liderados por Vladimir Lênin. No novo regime, praticamente toda a nobreza russa, incluindo Alexei, Alexandra e Nicolau II, seria executada. Já Rasputin seria transformado pelos comunistas em ícone dos desmandos da monarquia. Até hoje seu nome ainda é sinônimo de devassidão, manipulação e charlatanice.

Corpo de Rasputin / Crédito: Reprodução


No início do século 20, muitos nobres europeus sofriam de hemofilia – traço comum aos descendentes da rainha inglesa Vitória, como Alexei. A doença (que impede a coagulação do sangue) já era conhecida, mas não havia tratamentos eficazes. Por isso, a czarina Alexandra recorreu a místicos para cuidar do filho. Porém, é possível que Alexei não fosse hemofílico. Essa é a hipótese do escritor Robert Massie em The Romanovs: The Final Chapter (“Os Romanov: o capítulo final”, livro inédito no Brasil). Os diários da czarina e dos médicos falam de sintomas que poderiam ser de crises aplásticas, descritas apenas em 1947. Em geral, elas se manifestam até a metade da adolescência, causando hemorragias internas por cerca de dez dias até que o sangue volte ao normal. Massie diz que Rasputin, devido a sua prática de curandeiro, já conhecia a doença e sabia que as crises de Alexei não seriam fatais.


Saiba mais

To Kill Rasputin: The Life and Death of Gregori Rasputin, Andrew Cook, Tempus Publishing, 2006