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Quando um tubarão iniciou uma das maiores investigações criminais da Austrália

Em 1935, ao cuspir um braço tatuado, o bicho levou as autoridades a círculos de fraude e crime organizado. Entenda!

André Nogueira Publicado em 11/07/2019, às 08h00

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Reprodução

Em 1935, um tubarão de 4,2 metros de comprimento, num tanque do Coogee Aquarium, surgiu na superfície e cuspiu um braço humano consideravelmente preservado. O braço era de um homem e tinha a imagem de um boxeador tatuado.

O tubarão havia sido capturado no dia anterior e se recusava a comer desde que foi parar no tanque. Os policiais, sabendo do caso, tentaram tirar as impressões digitais do braço, sem grande sucesso. Rapidamente descobriram a origem do membro regurgitado.

Apenas duas pessoas na região de Sidney, Austrália, foram identificadas com a tal tatuagem: uma delas provavelmente não era a vítima, pois foi encontrada com os braços intactos. A outra, nunca foi plenamente encontrada.

Braço com a tatuagem / Crédito: Domínio Público

 

Trata-se de um homem cuja esposa relatou estar a sua procura a uma semana do incidente. Seu nome era James Jimmy’ Smith, um ex-boxeador que tinha a exata tatuagem quando desapareceu. Como consequência, a história se tornou um dos maiores mistérios criminais da Austrália: o The Shark Arm Case (o caso do braço do tubarão).

O tubarão foi encontrado pelos pescadores da família Hobson, que teria capturado o peixe por acidente ao tentar pescar um peixe menor. No entanto, o pequeno tubarão serviu de isca para o maior, fazendo com que o grande se ferisse na superfície e acabasse na praia de Coogee, na região de Sidney. Os pescadores chamaram as autoridades locais, que levaram o tubarão para o Coogee Aquarium.

Não conseguindo digerir o grande pedaço que havia engolido, o tubarão vomitou o braço no Aquário. No começo, muitos pensaram que se tratava de uma brincadeira de mau gosto, mas a polícia logo confirmou a autenticidade do membro.

Na autópsia, foi confirmado que ele teria sido arrancado por corte único de uma lâmina. Ou seja, era parte de um corpo morto antes. Assim, as investigações se tornaram mais intensas.

Tanque com o tubarão-tigre, em 1935 / Crédito: Reprodução

 

Jimmy era um ex-boxeador sem sucesso, que decidiu arrumar um emprego que o fizessem subir na vida. Ele era conhecido pela polícia, mas nunca praticou nada hediondo: alguns golpes pequenos, brigas e foi contratante de algumas figuras do crime da Austrália. Fora visto pela última vez 10 dias antes do ocorrido no aquário.

Segundo investigações da polícia, a última pessoa a se encontrar com Jimmy foi um amigo, Patrick Brady. Jimmy e Brady estavam hospedados em um hotel em Cronulla e foram vistos bebendo e saindo do pub juntos tarde da noite.

Depois, Brady teria alugado uma casa de campo na Baía de Guanamatta, onde foi visto no dia seguinte à bebedeira. Em seguida, o dono do imóvel vistoriou o local e se deparou com um colchão novo, paredes molhadas e um barco no chalé. Brady se tornou o maior suspeito do crime.

Na investigação de Cronulla, um taxista relatou que, nessa noite, teria levado um homem ansioso e apressado para Lavander Bay, na costa norte. Quando a polícia mostrou uma foto ao motorista, foi confirmado que era Brady, deixado pelo taxi na frente da casa de Reginald Lloyd Holmes.

Holmes era um construtor de barcos da região muito conhecido e respeitado. Homem de família, financiador da Igreja Presbiteriana e pai, ele ficou famoso por manter suas economias durante a Grande Depressão. Porém, para a polícia de Sidney, Holmes era, antes de um samaritano, um daqueles nomes suspeitos com quem Jimmy teria trabalhado e suspeito de fraudes.

Jimmy e Holmes, respectivamente / Crédito: Reprodução

 

A polícia acreditava que Holmes estava envolvido com um importante circuito de tráfico de drogas da região e, quando ocorreu o acidente do tubarão, a análise das digitais apontara para Smith, colocando já Holmes na lista de suspeitos - bem na época em que Jimmy trabalhava para ele.

Holmes já era alvo da polícia, pois vários de seus barcos e apartamentos (que estava construindo) pegaram fogo de repente, de maneira suspeita. A hipótese dos policiais era a de que ele estava usando os veículos para traficar cocaína e heroína para a máfia australiana e, depois, teria incendiado todas as provas e indícios do crime.

Foi então que um dos mais luxuosos barcos de Holmes afundou de maneira suspeita e abriu espaço para as investigações. A polícia imaginava que Holmes tinha motivos para matar Jimmy. Porém, nada implicava realmente Holmes no caso do assassinato.

Holmes e Brady foram levados para prestar depoimentos na Delegacia Central, mas não confessaram crimes, Brady apenas admitiu que estava com Jimmy na noite em que alugou a cabana. Ele usara como álibi o fato de que teria ido à casa de Holmes, deixando Smith para trás. 

O acusado foi dispensado por falta de provas, mas Brady foi detido por suspeita de falsificação, como forma de tentar pressionar Holmes a cometer algum erro e admitir cumplicidade.

Brady na delegacia / Crédito: Reprodução

 

A pressão foi o suficiente para criar um estado de pânico e um colapso nervoso em Holmes. Em 20 de maio de 1935, ele tentou se matar num passeio de lancha em Lavender Bay, mas apenas se feriu. O incidente foi relatado por testemunhas, que acionaram a polícia. Então, deu-se início a uma perseguição de quatro horas sobre a água, que só acabou com a falha do motor da lancha de Holmes. 

Pronto para cooperar e delatar o assassino, Holmes foi morto com três facadas no peito, no dia em que o julgamento fora marcado para que a delação acontecesse. Seu corpo foi encontrado com os ferimentos num carro em Dawes Point.

O julgamento continuou com 39 testemunhas de acusação contra Brady. Porém, com a morte de Holmes, não havia testemunhos suficientes para ligar Brady ao assassinato. E mais importante, de acordo com seu advogado, não havia corpo de Smith, e sem um corpo, não havia investigação do assassinato. 

Sem provas, Brady foi inocentado. Sem o corpo de Jimmy, não houve, oficialmente, crime estabelecido pela lei. Ou seja, ninguém foi condenado ou punido.