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Escândalo no Vaticano: a investigação que revelou um esquema de abuso de menores

Premiados com o Pulitzer, um grupo formado por jornalistas investigativos relatou esquema de acobertamento de padres que seduziam crianças em Boston

Fabio Previdelli Publicado em 25/04/2020, às 15h00

Imagem ilustrativa de um padre saindo da Igreja
Imagem ilustrativa de um padre saindo da Igreja - Getty Images

Em 2002, a equipe Spotlight do Boston Globe, formada por cinco jornalistas investigativos, descobriu um escândalo de abuso sexual de crianças por dezenas de clérigos do distrito. A apuração também revelou um acobertamento: os padres acusados de má conduta estavam sendo sistematicamente realocados e autorizados a trabalharem em outras paróquias.

A busca jornalística da equipe ganhou destaque nacional nos Estados Unidos, conquistando o Prêmio Pulitzer pelo serviço público. A história desses jornalistas foi  retratada com maestria no filme homônimo ao nome da equipe: Spotilight, que foi estrelado em 2015 por Michael Keaton, Mark Ruffalo e Rachel McAdams.

Além de uma carta de amor ao jornalismo investigativo, a obra cinematográfica também serviu de lembrete às vítimas de Boston, assim como de outros locais do globo, que ainda esperam uma ação satisfatória de longo prazo do Vaticano.

Cena do filme Spotlight: Segredos Revelados / Crédito: Divulgação

 

"A igreja católica costuma falar sobre isso como uma dor do passado", disse o co-roteirista do Filme, Josh Singer, em entrevista ao The Guardian em 2016. "Acho que os sobreviventes diriam que estão menos interessados ​​na igreja tentando fazer as pazes e mais interessados ​​na igreja que protege as crianças no futuro."

Singer chama os jornalistas do Spotlight de 2002 de “time dos sonhos”. Nessa seleção, o camisa 10/diretor era Walter Robinson. Natural de Boston, a escola onde Robinson estudou, que ficava do outro lado da rua dos escritórios da redação do jornal, empregava três padres que, mais tarde, foram suspensos por má conduta.

No filme, Walter, que é interpretado por Keaton, representa a velha guarda jornalística. Ele está navegando em uma comunidade muito católica e muito unida, trabalhando em uma história contenciosa para um artigo que ele diz ser, para época, "muito respeitoso para a igreja".

"Todas as grandes cidades dos EUA têm duas coisas em comum", diz o jornalista. “Eles têm uma arquidiocese e um grande jornal. Não conheço uma única cidade onde, em retrospectiva, as pistas de que isso estava acontecendo não aparecessem há muito tempo. Se estivéssemos mais abertos à noção de que uma instituição tão icônica poderia ter cometido crimes tão hediondos, acho que as pessoas teriam chegado nisso mais cedo”.

Foi essa deferência implícita da polícia, advogados e, até certo ponto, da imprensa que fez com que a história se tornasse interessante para Singer. Em uma cena marcante do filme, um advogado que representa as vítimas diz: “É preciso um vilarejo para criar um filho. É preciso uma vila para abusar de uma criança”.

"Esse coletivo de desviar o olhar sempre foi interessante. Como a comunidade promoveu isso?”, contesta Singer. "Às vezes precisamos questionar um pouco mais quando fazemos parte de um grupo interno".

Vítimas da Igreja

Phil Saviano lutava para que alguém ouvisse sua história muito antes da narrativa contada pela equipe do Spotlight ser publicada. Saviano começou a ser abusado por um pároco quando ele tinha 12 anos e, posteriormente, enviou informações aos jornalistas sobre o clero de Boston.

Depoimento de Phil Saviano (interpretado por Neal Huff) no filme Spotlight: Segredos Revelados / Crédito: Divulgação

 

Interpretado no filme por Neal Huff, a vítima diz para a equipe do Spotlight que, para um garoto pobre da cidade, ser preparado por um padre era como ser escolhido pelo Todo Poderoso: “Como você diz não a Deus?”.

Saviano, agora com mais de 60 anos, foi uma das vítimas que recusou um acordo com a igreja e manteve, ao contrário de outras pessoas, o direito de falar livremente sobre sua experiência. Ele é membro fundado da Rede de Sobreviventes dos Abusados pelos Sacerdotes da Nova Inglaterra (Snap, sigla em inglês). Após a investigação do Spotlight, os membros do Snap aumentaram para mais de 22 mil vítimas.

Desde a investigação do Spotlight, o Vaticano passou a estabelecer um tribunal para ouvir casos de bispos acusados ​​de perpetrar ou encobrir o abuso infantil. "Faz anos desde que publicamos nossas histórias", diz o jornalista Michael Rezendes, que no filme é interpretado por Mark Ruffalo. “Até agora, para os sobreviventes, houve um tribunal que não tomou nenhuma ação concreta. Nos últimos dez anos, o Vaticano excomungou cerca de 850 padres e sancionou outros 2.500, talvez. Mas em termos de política, houve pouca mudança sistêmica”.


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