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Os escândalos de Catarina, a Grande, rainha da Rússia

Imperatriz da Rússia de 17 de julho de 1762 até sua morte, em 1796, Catarina teve uma vida cheia de mistérios

Eduardo Szklarz e Thiago Lincolins Publicado em 17/07/2019, às 13h00

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A história começa muito longe de São Petersburgo, a capital da Rússia Imperial. Frederica Sofia era uma princesa sem grandes chances de subir ao trono. Seu pai era um dos tantos nobres decadentes da Prússia do século 18. Mas, aos 15 anos, a czarina Isabel a convidou para conhecer seu sobrinho, o príncipe herdeiro Pedro III, neto de Pedro, o Grande. Isabel achava que ela seria mais dócil que uma nobre de alta linhagem para se casar com o futuro czar. Ledo engano!

Para realizar a boda, Sofia se converteu à fé ortodoxa e passou a se chamar Yekaterina. Mas o casamento logo azedou. Além de obcecado pela disciplina prussiana, Pedro era imaturo e impotente. Ou estéril, como diziam os fofoqueiros da corte.

Seja como for, os dois não se bicavam — e ela decidiu disputar o trono sozinha. "Catarina sabia que só seria aceita se parecesse russa. Passava noites aprendendo o novo idioma", diz Henri Troyat na biografia Catarina, a Grande.

Quando Pedro III ascendeu ao trono, em 5 de janeiro de 1762, Catarina sentiu o perigo: o marido a deixaria para se casar com outra.

Czar Pedro III e a czarina Catarina II / Crédito: Domínio Público

 

Sua resposta foi nada menos que um golpe de Estado. Com a ajuda de seu amante Grigori Orlov, membro da guarda imperial, prendeu o czar. Em 28 de junho, declarava a si própria Catarina II, soberana de todos os russos.

Pedro III foi para a cadeia e, em 17 de julho de 1762, assassinado em circunstâncias misteriosas. O clero e a nobreza apoiaram o golpe e aclamaram a nova imperadora. E ela passou a desfrutar de seu poder absoluto.

Os amantes da czarina

Ter amantes era uma prática comum na corte imperial russa, e Catarina não foi exceção. Aos 23 anos, depois de oito sem dividir a cama com o marido, Pedro III, ela conheceu os prazeres da carne com o jovem Sergei Saltikov. "Ele era lindo como o dia", escreveu Catarina em suas memórias, dando a entender que o mancebo era o pai de seu filho, Paulo I. Saltikov se cansou da imperadora, mas muitos outros viriam. "Minha desgraça é que meu coração não pode se contentar nem uma hora se não tem amor", ela confessou em seu diário.

Sorte de Estanislao Poniatowski, um virgem de 23 anos enviado pelo embaixador inglês. Foi o brinquedinho de Catarina, que passou a gastar fortunas com seus amantes. De todos, o mais poderoso foi o tenente Grigori Potiomkin. Ele influía nas decisões da czarina, e talvez tenha sido o único que ela amou.

"Potiomkin vivia no palácio. Só precisava dar dois passos, subir uma escada e já estava no aposento real. Chegava desnudo por baixo da bata", diz Henri Troyat. Quando o sexo esfriou, Potiomkin passou a selecionar os novos "favoritos".

Grigori Potiomkin / Crédito: Domínio Público

 

Ser "favorito", aliás, era uma profissão. O sujeito recebia salário, e quando deixava de agradar era indenizado com terras, rublos e servos. "Em seguida, abandonava discretamente seus aposentos, enquanto Potiomkin escolhia o substituto", diz Troyat. "O novo candidato era examinado por um médico e depois submetido a uma prova íntima com uma condessa, que passava um relatório a Catarina. Só então ela tomava a decisão."

Magnânima

Com ou sem motivos, Catarina II foi o centro de burburinhos em vida e depois, mas não entrou para a história como A Grande à toa. Exemplo máximo do "déspota esclarecido" dos ideais iluministas, modernizadora na marra, estabilizou o reino e conquistou prestígio entre os europeus. Também conquistou terras da Turquia, coisa que nem Pedro, o outro Grande, havia feito.

E déspota ela era: o já citado escritor Alexandre Radishchev foi exilado na Sibéria. Já Yemelyan Pugachov, líder de uma rebelião dos cossacos, terminou esquartejado. Quando Catarina se foi, seu detestado filho, Paulo I, tentou apagar seu governo. Anistiou seu grande desafeto Radishchev , deu ao pai Pedro III um enterro digno da realeza e proibiu o uso de chapéus redondos e ternos à francesa, buscando apagar sua herança até na moda.

Paulo morreria em 1801, após meros 4 anos. Assassinado. Seu sucessor e filho, Alexandre I, não perseguiu os matadores. Ele era amado e mimado pela avó.

O fim de Catarina

Na manhã de 16 de novembro de 1796, Yekaterina Alekseyevna, aquela que seria lembrada como A Grande, levantou cedo e tomou o seu café da manhã. Tinha 67 anos, 34 dos quais como governante absoluta da Rússia. Ao ser questionada pela criada se havia dormido bem, respondeu: "já não durmo bem há muito tempo".

Recolheu-se aos aposentos e, em algum momento após as 9 horas daquela manhã, o seu criado estranhou o silêncio. Encontrou a imperatriz no chão do banheiro tendo espasmos. Era claramente um derrame. John Rogerson, médico da corte, foi chamado às pressas, mas já era tarde.

Mesmo com diversas tentativas de revivê-la, Catarina já estava em coma. A sua morte se deu às 21:45 da noite seguinte. A autópsia determinou que o óbito foi causado por acidente vascular cerebral. No testamento, a czarina deixou instruções específicas sobre o seu funeral. "Deitem o meu corpo vestido de branco, com uma coroa dourada na cabeça na qual deve estar inscrito o meu nome cristão. O luto deve durar seis meses, nada mais, quanto menos tempo, melhor".

Esta é a história como aconteceu. Um fim discreto de uma poderosa mulher. Mas logo começaram a circular rumores extremamente perniciosos. Coisa do tipo que era atribuído aos mais devassos césares de Roma. A rainha teria morrido fazendo sexo com um cavalo. A treliça que segurava o animal quebrou fazendo com que Catarina fosse esmagada.

Não há qualquer evidência de que algo assim tenha acontecido. Mas dá para fazer uma ideia de onde veio o boato: "Em 1796, seu filho Paulo I a sucedeu disposto a reverter tudo o que a mãe havia feito. Os dois se odiavam", afirma o biógrafo russo Henri Troyat. Os boatos surgiram nessa época.