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Escravidão, catolicismo e tradição: a controversa rainha Nzinga Mbandi

Em meio à colonização portuguesa na África, a guerreira usou de sua diplomacia e influência para manter a independência de seu povo, mas tinha suas incoerências

Pamela Malva Publicado em 23/03/2020, às 17h40

Representação de Nzinga Mbandi, a rainha de Ndongo
Representação de Nzinga Mbandi, a rainha de Ndongo - Wikimedia Commons

Durante a colonização portuguesa na África, os africanos de língua bantu que viviam em Ndongo tinham mais preocupações, além dos lusitanos que chegavam. Eles tinham de se proteger dos os jagas, um povo composto por guerreiros saqueadores.

Nesse meio tempo, o rei Jinga Mbandi criava sua filha, Nzinga Mbandi, para dominar as terras e, quando estivesse pronta, guiar seu povo pelo caminho correto. Em 1617, entretanto, o governante morreu e outra história foi escrita.

No lugar de Nzinga, quem assumiu o trono foi o segundo filho de Jinga, Kia Mbamdi. O novo rei, então, ordenou que o único filho de sua irmã fosse morto. Assim, sua coroa não seria ameaçada pelo concorrente.

Em 1624, todavia, uma grande crise atingiu o governo de Kia. Desesperado, ele pediu ajuda da irmã, que era uma grande estrategista militar, além de ótima diplomata. Mais do que capacitada, ela viajou para Luanda, a fim de negociar com os portugueses.

 Nzinga Mbandi, em ilustração da UNESCO / Crédito: Wikimedia Commons

 

No encontro com o governador, Nzinga percebeu que estava sendo tratada com indiferença. Na sala de negociações, o homem dispunha de uma cadeira, enquanto ela era obrigada a acomodar-se no chão. A princesa não aceitou a inferiorização e ordenou que uma de suas escravas ajoelhasse. Nzinga, então, sentou-se sobre ela.

Feitas as negociações, a mulher voltou ao seu povo. Em Ndongo, ela percebeu que a diplomacia não fora de todo eficaz e que seu irmão estava perdendo terreno para os portugueses. Em pouco tempo, durante a mesma crise, Kia foi assassinado.

Assim, Nzinga se tornou rainha de Ndongo, a atual Angola. Uma vez coroada, ela teve de superar uma grande oposição. Afinal, ela era uma governante mulher e, ainda mais, era filha de uma escrava.

Em seus anos de trono, a rainha conseguiu superar toda e qualquer oposição, mostrando-se mais do que capaz de governar. Nzinga até garantiu a paz com os jagas, unindo-se a eles em uma inédita e bem-sucedida manobra política. 

Ilustração de Nzinga sentada em sua escrava, enquanto negocia com potuguês / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ela sabia que, se quisesse juntar seu povo aos guerreiros teria de adotar alguns dos costumes jagas. Dessa forma, o povo de Ndongo se viu obrigado a conviver com rituais de canibalismo, por exemplo — na mitologia jagas, o consumo de carne humana ajudava a manter os soldados em forma para a batalha.

Conhecida como Mãe da Angola, a guerreira protegeu seu povo e chefiou seu povo por décadas, até alcançar os 73 anos de idade. Mesmo assim, Nzinga não se esquivou dos impiedosos boatos que eram disseminados sobre ela.

Segundo algumas lendas, a rainha assumia diferentes posturas em certos rituais. Em um deles, ela se vestia com roupas masculinas e obrigava seus amantes a desempenhar papéis femininos, vestidos com roupas femininas. Para muitos, esse era mais um costume da mulher que adorava subverter tradições.

Ainda piores que os boatos, eram as contradições do governo de Nzinga, que, mesmo sendo uma ótima rainha, teve algumas atitudes incoerentes, para dizer o mínimo. Por mais que ela tenha lutado contra a escravidão de seu povo, por exemplo, Nzinga também vendeu alguns de seus escravos para os portugueses.

 Nzinga Mbandi, em ilustração da UNESCO / Crédito: Wikimedia Commons

 

A rainha defendeu com unhas e dentes a religião de Ndongo, mas, quando conheceu dois missionários capuchinhos, se converteu ao cristianismo, em 1656. Como se não bastasse, ela tentou implementar costumes católicos em seu reino, ainda que se opusesse à religião desde 1627.

Mesmo assim, independentemente de todas suas contradições, Nzinga foi uma das maiores governantes que a África já viu. Apesar do forte movimento contrário à sua coroa, a rainha manteve a independência de seu povo por décadas.

Nzinga sobreviveu às muitas tentativas de assassinato por parte dos portugueses e superou as diversas tentativas de golpes para destroná-la. Resistente e constante, a rainha morreu pacificamente, de forma natural, em 1663. Ela tinha 81 anos.

Tamanha era a influência da rainha que foi apenas depois de sua morte que os portugueses dominaram as terras de Ndongo. Seu povo, mesmo tão distante, esticou raízes até o Brasil, onde, entre as paredes da senzala, criaram o samba e a capoeira.


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