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Escravos da Berbéria: a época em que europeus cristãos eram sequestrados

Piratas do norte da África levavam os prisioneiros da Europa como cativos a países islâmicos

Otávio Urbinatti Publicado em 08/11/2019, às 10h00

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Do alto da torre, o vigia gritava: “Há mouro na costa!”. O sinal ecoava pelos povoados costeiros à medida que a suspeita embarcação surgia no horizonte. O clamor antecipava o desespero de inúmeras famílias. Nessa hora, era resistir ou correr.

O desembarque dos mouros em terras portuguesas causava rebuliço na população. Fugir para o interior ou criar barreiras que impedissem a sua chegada ao continente eram as únicas alternativas de defesa. O fracasso, no entanto, dava aos moradores do litoral anos longos de penúria e submissão.

Entre os séculos 15 e 18, essa prática se tornou tão recorrente que não só Portugal mas regiões que beiravam o Mediterrâneo e o Atlântico temiam a presença de navios carregados de muçulmanos. Em terra e em mar, piratas do Norte da África colocavam em risco a liberdade de inúmeros europeus cristãos, que eram sequestrados e levados à força para terras islâmicas na condição de escravos.

Prática lucrativa

A escravidão é quase sempre relacionada a desigualdade racial entre os povos. Contudo, e mais do que isso, a História revela que, além de características físicas, ela também é refletida por aspectos culturais.

Crédito: Reprodução

 

A escravidão dos europeus esteve ligada sobretudo a uma disputa pela supremacia religiosa. Enquanto negros africanos eram levados às Américas com a justificativa de salvação da alma pela conversão ao catolicismo, para os cristãos, o cativeiro no Norte da África e nas demais regiões muçulmanas representava um perigo de ordem espiritual e religiosa.

A história do escravismo em terras islâmicas se inicia a partir do sincretismo que a religião representou aos povos árabes. A atração pelo saque e pela Guerra Santa contra aqueles que não seguissem o livro sagrado de Maomé fazia parte das diretrizes da crença.

Após seu surgimento, por volta do ano 630, o islamismo se tornou uma religião próspera em curto período de tempo. A fragilidade dos Impérios da época (sobretudo, o Bizantino) e dos Estados Bárbaros foi um dos motivos determinantes para que ela se expandisse rapidamente para regiões da Ásia, África e Europa.

Em um cenário especialmente de disputa religiosa entre cristãos e islâmicos, o sequestro de cativos se tornou, então, uma prática frequente e lucrativa para ambos os lados. O conflito entre os dois povos tem seu início no contexto das Cruzadas, quando europeus enviados à Terra Santa eram capturados pelos inimigos. Do outro lado, porém, os movimentos de reconquista da Península Ibérica, empreendidos por monarcas europeus, também resultaram em apreensões muçulmanas.

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Mas foi com a ascensão do Império Otomano na região de Anatólia (atual Turquia) que os islâmicos passaram a controlar importantes territórios de interesses comerciais, incluindo a navegação no Mediterrâneo Oriental e Central. Um deles era o porto de Argel, no Norte da África, região denominada Berbéria, que possuía uma localização extremamente estratégica e um poderio naval muito grande. O domínio de oportunas rotas comerciais nas mãos dos seguidores de Maomé, desse modo, ameaçava diretamente os interesses das nações cristãs.

No século 16, a cidade de Argel, sob domínio otomano, cresceu e enriqueceu em virtude das incursões piratas às embarcações cristãs e às regiões costeiras de Portugal, Espanha, França, Itália, Islândia e Reino Unido. A prática se tornou duplamente rentável, pois, além de dificultar as atividades comerciais, poderia obter elevadas somas de dinheiro com a venda de títulos de resgates para entrega dos cristãos.

Quando capturados, os europeus eram levados para o povoado do Norte da África. “Na impossibilidade de manter todos os cativos, o governador do local vendia-os para os seus cidadãos. Trabalhando como escravos, aguardavam a oportunidade de resgate, feito pelos seus países de origem”, explica Edite Alberto, investigadora do Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Em terras islâmicas, os europeus, então, eram utilizados em tarefas urbanas para executar trabalhos nas pedreiras, extração de minas, construção de edifícios e de infraestruturas, tarefas domésticas (no caso das mulheres), além dos serviços nas galés.

Por anos, os piratas da Berbéria ocasionaram impactos tão violentos no litoral europeu que cidades inteiras acabaram desocupadas. Homens, mulheres e crianças: todos viviam constantemente ameaçados.

Negócio pela liberdade

Ao cair nas mãos dos muçulmanos, os cristãos temiam que o contato com o islamismo colocasse em risco a salvação de sua alma. Quando conseguiam voltar à Europa, muitos deles eram alvo de suspeita por parte da Inquisição. Acreditava-se que os cativos tivessem aderido à religião do infiel e que, ao regressarem, procurassem disseminá-la entre os cristãos.

Assim, procurando evitar situações como essa, os reinos cristãos criaram organizações para recolher fundos destinados para compra da liberdade dos escravos no Norte da África. A Bula da Cruzada, que, inicialmente, se destinava a financiar as expedições à Terra Santa, garantia a concessão de indulgências a todos os que contribuíssem financeiramente para o resgate de cativos. As operações contavam com o trabalho de diferentes entidades religiosas.

“Uma das ordens que se especializaram nesse trato comercial, desde o século 12, foi a Ordem da Santíssima Trindade (fundada na França), também conhecida como Ordem dos Frades Trinitários. Tais frades pediam esmolas e doações para, com esse dinheiro, ir comprar cativos cristãos nas praças onde eles eram vendidos”, explica o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Saul António Gomes. Em Barcelona, na Espanha, também fora criada outra entidade capacitada, a Ordem de Nossa Senhora das Mercês.

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O governo português, neste caso, chegou a organizar armadas para patrulhar a costa e proteger as embarcações do país. Mas a medida adotada foi em vão e nem assim os ataques corsários cessaram. Caberia, então, aos trinitários e demais ordens religiosas negociar a compra dos cativos em solo berbere.

Para isso, os frades fretavam navios e chegavam a levar presentes valiosos aos governantes e nobres da Berbéria para que estes fossem influenciados positivamente na venda e na liberdade dos cativos. Cada real de ouro português equivalia a sete patacas argelinas e, então, era fixado um preço de compra. Inicialmente, durante o reinado português de D. João V (1706-1750), foram feitas quatro grandes remições pelos frades trinitários, que se deram entre 1720 e 1739. Nesses resgates, também há registro histórico de libertação de escravos em outras regiões otomanas, como as fronteiras do Império Austro-Húngaro e no Oriente.

Em solo europeu, os cativos reconquistavam sua liberdade e, em poucos dias, já eram enviados para as suas terras de origem.

Mal da humanidade

A mudança das estruturas econômicas e da sociedade de antigo regime por uma outra sociedade liberal e assentada no respeito dos direitos humanos foi decisiva para estagnar o fenômeno de escravidão em terras otomanas. “O neocolonialismo ocidental, sobretudo após 1780, impactante no Norte da África e no Oriente Médio, fez retrair os mercados da escravatura de cristãos. A longa duração desse fenômeno traduz tanto interesses financeiros e comerciais quanto demográficos (mão de obra a serviço dos senhores muçulmanos), culturais e religiosos”, declara Gomes.

Tratados de paz, dessa forma, surgiram somente no final do século 18 e início do 19. Em 1813 ainda foram resgatados cerca de 600 portugueses que estavam prisioneiros em Argel. Além disso, registros mostraram que o comércio de cativos no mundo islâmico também esteve presente no começo do século 20. Isso fez com que, em 1904, em Paris, fosse assinado um acordo com alguns Estados europeus para supressão do tráfico de escravos da região.

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No entanto, os pesquisadores portugueses alertam para o fato de ainda haver apreensões de indivíduos até os dias de hoje com base em fundamentalismos religiosos. Conforme Edite Alberto explica, a escravidão tem acompanhado toda a história da Humanidade, qualquer que seja a cor da pele dos seus protagonistas.

“Os hebreus foram escravos dos babilônicos, os gregos foram escravos dos romanos e, até na atualidade, regimes totalitários escravizam populações pela sua ideologia ou etnia. Hoje, por exemplo, os yazidis (comunidades estabelecidas em regiões do Iraque, Síria, Turquia e Irã) são escravizados pelo autodenominado Estado Islâmico nos territórios da Síria. E estamos sempre a falar de escravatura branca”, termina.

Em terras islâmicas, os cativeiros nunca foram inteiramente extintos. Basta lembrarmos da conquista do Monte Sinjar, no Iraque, em agosto de 2014, pelo Estado Islâmico (EI), colocando em risco a vida de 500 mil yazidis que viviam na região. Com a ocupação, o grupo realizou ataques violentos à comunidade. Os que não conseguiram escapar continuam como reféns em territórios iraquianos e sírios — as mulheres yazidis são até hoje vendidas ou reduzidas à condição de escravas sexuais. Desde 2018, a ONU recolhe provas de massacres e demais atrocidades provocadas pelo EI na região.

“Embora sejam um grupo fechado, eles sempre foram respeitados pelos muçulmanos. No entanto, quando o EI atacou as comunidades, os seus direitos foram tomados e, a partir de então, passaram a enfrentar muitas dificuldades”, esclarece o professor de teologia iraniano Hossein Khaliloo. “Não vamos ver uma melhora tão cedo, tendo em vista que ainda há muitos conflitos e bombardeios naquela região envolvendo grandes nações”, finaliza ele.

O presente ainda conserva em sua memória vestígios históricos e culturais desses e de outros sistemas escravistas. Há de se reconhecer que a história dos povos guarda múltiplas faces de racismo e de divergências ideológicas. E, embora haja muito o que pesquisar e estudar sobre o assunto, o fato é que ainda existem, entre nós, diversas relações a serem resolvidas.


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