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Escravizados, sorvetes e sujeira: O Rio de Janeiro do século 19

Um passeio pela cidade de antigamente revela ruas, personagens esquecidos e hábitos da família imperial

Texto de Rose Esquenazi / Revisado por Alana Sousa Publicado em 28/10/2020, às 19h34

Rio de Janeiro, século 19
Rio de Janeiro, século 19 - Wikimedia Commons

“Prostituta é presa em flagrante quando ia tomar o sangue de um bebê roubado em orfanato”. A notícia certamente chocaria os habitantes do Rio de Janeiro no século 21. A manchete, caso tivesse sido publicada no Jornal do Commercio ou no País, também deixaria os cariocas do século 18 de cabelo em pé. Não foi notícia, mas a história era absolutamente verdadeira.

Bárbara dos Prazeres era uma mulher que se prostituía nas noites do Arco dos Teles, no centro, perto da praça XV. Lá, ela permaneceu ativa até mesmo quando contraiu sífilis. Na sua ignorância, Bárbara achava que só se curaria se ingerisse o sangue fresco de bebês e crianças. Por isso, esperava que mães solteiras ou desafortunadas deixassem seus filhos recém-nascidos nas rodas dos expostos – uma cabine de madeira que se abria para a calçada e, quando girada sobre seu eixo, levava seu conteúdo para dentro do Hospital Geral.

O engenhoso objeto, pensado para recolher bebês indesejados e, ao mesmo tempo, proteger a identidade da mãe que abandonava seu filho, era o lugar perfeito para Bárbara conseguir suas vítimas. Hoje, a roda está em exposição no Educandário Romão Duarte, no bairro do Flamengo, na zona sul do Rio.

Esse e muitos outros casos surpreendentes podem ser encontrados na extensa bibliografia da cidade. Quanto mais se sabe, mais fica interessante caminhar pelo centro, conferindo os cenários de 200 anos. Os cariocas sempre se preocuparam em preservar a memória da cidade, tanto que, no século, quando as autoridades tentaram trocar os nomes das ruas do centro, um movimento popular enfrentou as autoridades.

A rua do Ouvidor, por exemplo, passou a se chamar Moreira César, mas ninguém tomou conhecimento disso. Em uma de suas viagens, o médico sanitarista Arthur Neiva conversando com um australiano ouviu dele uma reclamação que no Brasil a língua falada era muito diferente da escrita. “Pois no Rio”, disse o estrangeiro, “o que está escrito nas placas é Moreira César, mas para todos os brasileiros sua pronúncia é rua do Ouvidor...” Conclusão: o nome Moreira César sumiu das placas.

Quem passa hoje apressado pela famosa rua Direita, atualmente Primeiro de Março, não poderiam dizer que por ali passaram reis e rainhas, personagens históricos, mulheres vestidas com roupas negras, pesadas e longas. A família real, assim que chegou ao Rio, em 1808, hospedou-se no Paço Imperial, na praça XV, sendo que a rainha dona Maria preferiu ficar no Convento do Carmo.

Dom Pedro I / Crédito: Wikimedia Commons

 

Por meio de passadiços construídos especialmente para os novos moradores, eles não se esforçavam muito para pagar seus pecados na igreja Ordem Terceira do Carmo, em pé até hoje, na rua Primeiro de Março. A corte desembarcou com 15 mil súditos e encontrou uma cidade com 46 ruas, 19 largos, seis becos e quatro travessas.

As autoridades, para agradar os portugueses, decidiram abrigar os novos moradores nas melhores casas e, para isso, pichavam a sigla PR, Príncipe Regente, nas paredes, indicando que a família tinha de fazer as malas e procurar outra paragem. Revoltados, os cariocas passaram a entender o PR como “ponha-se na rua”, ou “propriedade roubada.”

Além da igreja do Carmo, na rua Direita, resistem bravamente as igrejas São José e Santa Cruz dos Militares. Poucos cariocas sabem que esse trecho do Rio foi comparado a um pedaço de Londres, sinônimo de luxo. Lá, foi instalada a primeira instituição financeira do país – o Banco do Brasil.

Não é pouca coisa quando se imagina que foi ali também que se tomou o primeiro sorvete, criado, em 1834, pelo italiano Luís Bassini, que se estabeleceu no Brasil anos antes. Sem energia elétrica, introduzida apenas no século 20, o sorvete era feito com o gelo que vinha do lado do Lago Potomac, localizado perto de Boston, na América do Norte. A primeira remessa chegou aqui no mesmo ano da criação do sorvete. Assim que saiu dos navios, o gelo era enterrado em covas profundas, chegando a durar até cinco meses.

Bassini ficou famoso com a novidade vendida na sua confeitaria Café do Círculo do Comércio. Dom Pedro I gostou da novidade, e pedia sempre o sorvete em cone sabor de pitanga, caju, carambola ou abacaxi. Era o tempo de famosas confeitarias, mais um modismo francês que durou mais de um século. Carcelar, Meneres, Cavé, Alvear, Glacier e a fabulosa Colombo ofereciam, além dos sorvetes “que queimavam a boca”, como reclamavam os comensais de antigamente, as empadinhas de camarão, mães-bentas e pastelões, tudo regado a vinho do Porto.

O Rio era uma cidade suja: não havia nenhum sistema de esgoto e, por isso, as várias lagoas espalhadas pelo centro reuniam uma incrível população de mosquitos. As soluções encontradas décadas atrás eram precárias, mas a “empresa de matérias fecais Mesquita & Moreira” tentava se profissionalizar, encarregando-se de esvaziar urinóis caseiros diretamente no mar, lá para os lados da Prainha. 

Dona Maria / Crédito: Wikimedia Commons

 

Por toda a parte viam-se escravizados, sequestrados de várias nações africanas, que chegavam ao ancoradouro da praça XV para uma vida de pouca comida, trabalho absurdo e muito castigo. Um dos piores serviços que eles exerciam era carregar dejetos das casas de seus senhores para longe dos narizes sensíveis das senhorinhas. Eram chamados de tigres. Quando fugiam ou, simplesmente, não eram “propriedade” de nenhum senhor, costumavam vender frutas e doces nas ruas, como foram retratados por Debret.

Muitas vezes, o Jornal do Commercio anunciava: “Procura- se escravo fugidio”, ou “Vendese ama-de-leite”, para espanto dos leitores contemporâneos. Os escravizados também foi retratado pela inglesa Maria Graham, que acompanhava o marido, capitão da Marinha inglesa. É dela a autoria de Diário de uma Viagem ao Brasil, publicado em Londres, em 1824.

“Os negros, tanto livres quanto os escravos, parecem alegres e felizes no trabalho. Há tanta procura deles que se encontram em pleno emprego e têm, naturalmente, boa paga. Lembram aos outros aqui o menos possível a triste condição servil, a não ser quando se passa pela rua do Valongo. Então, todo o tráfico de escravos surge com todos os seus horrores perante nossos olhos. De ambos os lados, estão armazéns de escravos novos, chamados de peças, e aqui as desgraçadas criaturas ficam sujeitas a todas as misérias da vida de um negro novo, escassa dieta, exame brutal e açoite.”

O Rio espantava os estrangeiros com a mistura de tantas raças. Mas os viajantes também se extasiavam com a beleza natural e os recantos que ainda se mantêm, apesar de tudo. Se quisessem, podiam passear nos tílburis, espécie de táxis de dois séculos atrás, puxados a burros. Ou embarcavam nas charretes, vitórias, serpentinas, redes e populares cadeirinhas. O modelo da família real era pintada com requinte e tinha a figura de Apolo na porta.

Esses meios de transporte costumavam circular na rua do Ouvidor, onde o comércio e a sofisticação se assemelhavam ao de Paris. Com a chegada da família real, da missão artística francesa e a abertura dos portos, era chique importar todas as novidades, mesmo que os tecidos fossem impróprios para o clima tropical. As lojas da rua do Ouvidor atraíam as mulheres que só saíam de casa depois de horas diante do espelho.

Petrópolis, Rio de Janeiro / Crédito: Getty Images

 

Com suas cinturinhas finas, de “vespas”, como se dizia, viviam apertadas nos espartilhos com barbatanas de aço e, por cima, se enfeitavam com caros vestidos de seda, veludo, crepe da China ou renda. Nunca se esqueciam dos chapéus de plumas, flores, luvas e sapatos de marcas famosas. Os homens não eram menos requintados.

Para fazer boa presença nas confeitarias, usavam colarinhos altos, jaquetão, sobrecasaca, cartolas, luvas, polainas, monóculos, sapatos da Incroyable e chapéus da Chapelaria Watson. Ah, não podiam faltar grandes e oleosos bigodes. Já na rua do Ourives, agora travessa do Ouvidor, estavam concentradas as joalherias. Eram 66 lojas, instaladas uma ao lado da outra, para facilitar o trabalho do Fisco.

Afinal, era preciso recolher impostos para pagar as dívidas externas do Reino Unido do Brasil com a Inglaterra, que já era grande. Mas a rua do Ouvires não vivia apenas do luxo de joias caras. Havia quem investisse na modernidade como inaugurar um serviço de distribuição de leite em carrocinhas. Antes disso, os cariocas costumavam comprar leite das próprias vaquinhas, puxadas por zelosos leiteiros.

No beco dos Barbeiros, que voltou a ter esse nome em 1965 depois de ter sido chamado de travessa Onze de Agosto, reuniam-se os profissionais que cortavam cabelos, faziam barbas, bigodes e arrancavam dentes a frio. Fato corriqueiro, já que a anestesia ainda não havia sido descoberta. Os barbeiros também aplicavam sanguessugas, vermes que ficavam expostos em vidros, sempre famintos e prontos para retirar do cliente o sangue doente.

A canaleta aberta no meio da rua, feita para escoar o sangue dos fregueses, continua no mesmo lugar no centro do Rio. Mais uma prova que os cariocas antenados com a história continuam a conviver com esse incrível passado.


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