Busca
Facebook Aventuras na HistóriaTwitter Aventuras na HistóriaInstagram Aventuras na HistóriaYoutube Aventuras na HistóriaTiktok Aventuras na HistóriaSpotify Aventuras na História
Matérias / Holocausto

A esquecida história de amor LGBT que transcendeu os horrores do Holocausto

Lola Alexander e Ursula Finke escaparam repetidamente — e por pouco — da deportação para Auschwitz; e se tornaram inseparáveis pós-Guerra

Fabio Previdelli

por Fabio Previdelli

fprevidelli_colab@caras.com.br

Publicado em 15/05/2024, às 19h00

WhatsAppFacebookTwitterFlipboardGmail
Lola Alexander e Ursula Finke - Arquivo pessoal
Lola Alexander e Ursula Finke - Arquivo pessoal

Ao lado de sua amiga australiana Jane Becker, a escritora Hilda Hoy, radicada em Berlim, faz parte de uma nova geração que busca preservar a cultura da memória do Holocausto. Mais do que isso, as ativistas tentam lançar luz sobre aqueles que foram marginalizados das mais diferentes formas tradicionais de recordação.

"Quando Jane e eu nos conhecemos, não estávamos planejando que isso acontecesse — eu apenas iria ajudá-la a desvendar esses mistérios familiares que pairavam sobre ela", disse Hoy ao The Guardian.

Essa história começou em 2016, quando Hilda, que é canadense tailandesa, visitou Jane em Sydney; junto de sua parceira, Carla, conhecida de longa data de Becker. Na ocasião, a australiana começava a ter curiosidade sobre as raízes de sua família em Berlim.

Por ser fluente em alemão, Hoy se ofereceu para ajudá-la em algumas pesquisas genealógicas quando voltasse para casa. Revirando arquivos alemães, ela encontrou mais detalhes sobre a família judia de Becker. "Foi uma espécie de bola de neve", disse ao veículo. Acontece que o pai de Jane era primo de uma mulher chamada Lola Alexander.

Encontramos esta estranha história de amor que estava completamente enterrada há décadas", relatou.

Nos últimos dias de abril de 1945, na bombardeada Berlim, Lola reencontrou uma mulher chamada Ursula Finke. Descrita como apenas um "esqueleto", Finke pesava menos de 31 quilos. O destino unia novamente duas mulheres que escaparam repetidamente — e por pouco — da deportação para Auschwitz; onde perderam inúmeros parentes judeus.

Segundo testemunho de sobreviventes da década de 1950, elas se tornaram "amigas" enquanto se escondiam da Gestapo na casa de um membro da resistência. Depois que Lola resgatou Ursula, gravemente ferida e acorrentada a uma cama no porão úmido de um hospital judeu, elas permaneceriam juntas pelo resto da vida de Lola.

+ O sobrevivente do Holocausto que se apaixonou pela filha de carrasco nazista

Vidas de perseguições

Lola — e sua irmã gêmea Hansi — nasceu em uma abastada família judia em 20 de junho de 1907, na cidade de Berlim. Quando tinha apenas 21 anos, apenas meia década antes de Hitler ascender ao poder, Lola Alexander abriu uma loja de roupas masculinas, onde sua mãe, Martha, também trabalhava.

Dez anos depois, durante a Noite dos Cristais, pogrom nazista conhecido como Kristallnacht, agentes da SS destruíram seu comércio. Em 1941, Lola foi forçada a trabalhar na construção de motores de avião.

Por sorte, seu supervisor, Wilhelm Daene, era membro de um grupo da resistência e lhe avisou sobre a Fabrikaktion — última grande captura de judeus para deportação de Berlim, que começou em 27 de fevereiro de 1943 e durou uma semana.

Hansi acabou sendo levada para Auschwitz, onde foi assassinada. Martha, a mãe das meninas, teria o mesmo destino, mas preferiu tirar a própria vida para não ser enviada aos campos. Já Lola encontrou refúgio nas casas dos sogros de Daene, num subúrbio arborizado.

Do outro lado dessa história de amor está Ursula Finke, que era 16 anos mais nova que Lola. Finke conseguiu se esconder dois dias antes da Fabrikaktio; que ceifou a vida de seus pais em Auschwitz. Em agosto de 1943, ela também foi acolhida pelos Daenes, que entregaram a ela e Lola documentos falsos para lhes empregar em duas bibliotecas que operavam na cidade.

Lola Alexander e Ursula Finke em 1951 - Arquivo Pessoal

Depois de cada jornada de trabalho, Lola e Ursula se encontravam na estação de Gesundbrunnen e voltavam juntas para casa. Em um testemunho pós-guerra escrito por Ursula, e encontrado na Biblioteca do Holocausto de Wiener, em Londres, a mulher revela que havia encontrado "felicidade" entre os livros enquanto enfrentava o terrível medo de ser desmascarada como um "U-Boot" (submarino) — como eram conhecidos os cerca de 7 mil judeus que se escondiam em Berlim.

Mas a sorte enfim cessou. Certo dia, um informante avistou Ursula na plataforma de Gesundbrunnen, a agarrou pelo braço e a conduziu diante dos olhos de Lola. "Jurei para mim mesma que não me deixaria ser morta por esses cães", disse Finke anos depois, segundo recorda o Guardian. Assim, se jogou em frente ao trem que chegava na plataforma.

Embora gravemente ferida, Ursula sobreviveu e — mais uma vez — evitou a deportação para Auschwitz. Agora, contara com a ajuda de um médico muito solidário que tratou de seu pé esmagado; optando por tratá-lo ao invés de amputá-lo. Lola, por sua vez, teve que encontrar outro esconderijo, visto que a captura da amiga expôs o refúgio dos Daenes.

Foi apenas nos últimos dias de guerra que Alexander reencontrou 'Ursel', como chamava carinhosamente a companheira. Finke estava em um hospital judeu no bairro de Wedding. "Não preciso contar a alegria que nós duas sentimos", Lola relataria mais tarde.

Lola continuou a levar rações alimentares para Ursula no centro médico — então sob administração soviética — até que ela estivesse bem o suficiente para deixar a clínica. As duas logo encontrariam um apartamento no setor leste da cidade.

Juntas, abriram uma loja de costura, adotaram um cachorrinho e permaneceram inseparáveis até a morte de Lola, em 1965. Ursula viveu até 2003 e, de acordo com quem a conheceu, nunca teve outro companheiro (a).

Amor para recordar

Os familiares que visitavam Lola e Ursula após o fim da guerra notavam algo 'especial' na casa das duas: elas não só partilhavam um imóvel e um negócio, mas também uma cama e uma vida, embora sempre se chamassem de "amigas".

Irmão de Ursula, Hans Finke — que mudou seu nome para John Fink depois de sobreviver a Auschwitz e imigrar para os EUA — teve sua filha, Debbie Fink, sendo criada próxima à tia. Ainda assim, a mulher mais velha se recusava a discutir sua vida íntima com a sobrinha, mesmo quando Debbie revelou ser lésbica.

Eu gostaria de ter conhecido Lola para agradecê-la por salvar a vida de Ursula", disse Debbie durante viagem para uma cerimônia memorial que celebrou os 79 anos da queda da Alemanha Nazista, na semana passada.

"Sinto-me muito melhor do que antes porque tudo sempre foi secreto. Para minha paz de espírito, é muito bom que as coisas sejam comentadas e tudo esteja aberto e não seja apenas uma coisa privada que foi reprimida", continuou.

Fink disse que o amor entre Ursula e Lola era um segredo tácito, mas aberto para a família; visto que vários parentes notavam que o apartamento tinha apenas uma cama de casal.

Lola Alexander e Ursula Finke em 1952 - Arquivo Pessoal

Agora, Hoy e Becker trabalham em uma história em quadrinhos sobre Ursula e Lola, com o objetivo de homenagear o casal que foi alvo dos nazistas por serem judias. Mas, além disso, para resgatar casos como esse que foram esquecidas na lembrança histórica.

As histórias LGBT daquela época foram varridas para debaixo do tapete por muito tempo, mas nós, como mulheres queer, estamos ansiosas para iluminar essa história de amor", disse Hoy.

Para Mirjam Zadoff, diretora do Centro de Documentação de Munique para a História do Nacional Socialismo, a relação entre Lola e Ursula era crucial para que as vítimas e os sobreviventes fossem apreciados em toda a sua humanidade, e não apenas nas categorias que lhes foram impostas pelos nazis.

"As pessoas precisam de compreender porque é que a história da violência é relevante para elas e é por isso que precisam ver as suas histórias sendo representadas", declarou ao The Guardian.

Durante a Segunda Guerra, os nazistas enviaram cerca de 10.000 homens para campos de concentração por serem homossexuais; enquanto as mulheres lésbicas eram frequentemente acusadas como lascívia pública ou comportamento "associal".

+ Alvos durante e após o Reich: A saga dos gays perseguidos pelos nazistas

No ano passado, após duas décadas de luta, ativistas conseguiram com que o parlamento alemão homenageasse em suas comemorações anuais da memória do Holocausto, a história de pessoas perseguidas e mortas por conta de sua identidade de gênero. Infelizmente, porém, não havia nenhum sobrevivente LGBT conhecido para participar.