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A esquecida saga dos soldados gays na Primeira Guerra Mundial

Hoje, 11 de novembro, é celebrado os 102 anos do fim do conflito. Apesar de muitos soldados ficarem marcados como heróis, outros foram esquecidos por terem uma orientação sexual diferente dos padrões aceitos

Fabio Previdelli Publicado em 11/11/2020, às 16h00

O poeta e soldado Siegfried Sassoon
O poeta e soldado Siegfried Sassoon - Wikimedia Commons

Hoje, 11 de novembro, é comemorado o 102º aniversário do fim da Primeira Guerra Mundial. Durante o conflito, que durou pouco mais que quatro anos, cerca de 70 mil pessoas foram mobilizadas entre todos os países. Acredita-se que cerca de 19 milhões de pessoas morreram no confronto e outras 21 milhões ficaram feridas.  

Dentre esse número, muitos viraram heróis, condecorados e marcados para sempre na história. Já outros foram esquecidos, não por suas ineficiências, mas devido a um ponto muito menos importante, mas que naquela época, ainda mais, era um tabu para a sociedade: a homossexualidade.  

Celebrações do Dia do Armistício na Filadélfia em 11 de Novembro de 1918 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Alguns acreditam que a primeira grande guerra serviu como ponto de partida para movimentos modernos pelos direitos LGBTQI+, como explica a professora assistente de história na Universidade de Washington, Laurie Marhoefer, à Attitude: “Os soldados gays que sobreviveram ao derramamento de sangue voltaram para casa convencidos de que seus governos lhes deviam algo: cidadania plena.” 

Já na Alemanha, explica Marhoefer, organizações — incluindo a Liga Alemã para os Direitos Humanos, que tinha cerca de 100 mil membros — pediram algum tipo de igualdade para os gays. Porém, a verdade é que, como muitos imaginam, eles voltaram a enfrentar o mesmo ódio. Principalmente com a ascensão do Nazismo.  

Embora o relacionamento homossexual não fosse proibido no Exército Britânico, isso não foi relatado até 1955, quando a ‘prática’ era ilegal em todo Reino Unido. Assim, a maioria dos soldados gays mantinham suas uniões escondidas.  

Outro ponto fundamental para tal discriminação, se é que ela pode ser justificada, era o aumento crescente de vítimas do conflito. Naquela época, havia uma ênfase no fato de os homens “cumprirem seu dever” de ter filhos, para suprir uma queda populacional masculina. Sendo assim, ser gay era, portanto, não apenas algo ilegal, como um ato considerado antipatriótico.  

Os soldados esquecidos 

Mesmo assim, a relação homossexual não era algo ‘exatamente desconhecido’ no Exército britânico. Poetas de guerra e soldados, por exemplo, Wilfred Owen — que morreu uma semana antes do armistício —, e Siegfried Sassoon, que sobreviveu às guerras, eram ambos gays, embora suas orientações sexuais não fossem conhecidas naquela época.  

O poeta e soldado Wilfred Owen / Crédito: Wikimedia Commons

 

Outro poeta de guerra, Rupert Brooke, outrora chamado de o jovem mais bonito da Inglaterra, teria se descrito como "meio heterossexual, um quarto totalmente homossexual e um quarto 'homossexual sentimental'". 

Soldados gays que eram abertos sobre sua sexualidade eram frequentemente condenados ao ostracismo e denunciados a seus superiores por indecência. Pelo menos 230 combatentes foram condenados pela corte marcial e mandados para a prisão.  

Já outros, como o tenente Wilfrid Marsden, do Royal Flying Corps — que logo se tornaria a RAF —, foi julgado em um tribunal civil, sendo obrigado a trabalhar forçadamente por dois anos. Pelo menos outros dois gays foram condenados a trabalhos forçados na primavera de 1915: Frederic Llewellyn, segundo em comando do 8º Batalhão, a Infantaria Ligeira de Oxford e Buckingham; condenado por seis acusações de indecência. Enquanto Alfred Boyd, um tenente dos Territoriais, foi considerado culpado de nove acusações. 

Rupert Brooke / Crédito: Wikimedia Commons

 

Para piorar o cenário, militares gays eram atormentados por pensamentos que os faziam entender que sua sexualidade era uma doença ou um vício, e muitos viam a guerra como uma forma de se livrar desse ‘mal’. 

A homossexualidade em outros países 

Mas os gays não serviam apenas no exército britânico. Na Rússia, um historiador descobriu uma carta enviada por um suboficial a um psiquiatra. No escrito, ele narra sua paixão por outros homens com os quais serviu. Seu cansaço por viver uma "vida estranha", como ele mesmo define, e seu desejo de morrer no campo de batalha, lutando contra a Alemanha, também são relatados. 

A carta continua: “Aos 15 anos, trabalhava como balconista e o dono [me mostrou] uma coleção de cartões pornográficos. Depois de algum tempo, comecei a sentir atração pelos homens, tentando seduzi-los, sem entender esse terrível vício. Claro, fiz isso com muita cautela”. 

“Então fui convocado para o serviço militar, onde encontrei um ambiente conveniente para minha realização. Nunca senti nenhuma atração por mulheres e frequentemente acalentei pensamentos suicidas. Então a guerra foi declarada e eu fui mobilizado. Minhas experiências na frente de batalha me fizeram esquecer meu passado podre, mas quando me tornei um herói e ganhei a medalha de São Jorge, fiquei com vergonha, lembrando minha vil vida privada”, diz. “Então fui ferido em uma trincheira alemã. Depois de duas operações, implorei pela morte, mas a vida voltou para mim; meu corpo não parou”. 

Do outro lado das trincheiras, os gays também serviram no exército do Kaiser. No inverno de 1915, um soldado alemão desconhecido morreu em um hospital de campanha na Rússia, após ser atingido por estilhaços. Embora a sua identidade nunca tenha sido revelada, uma carta ao namorado — identificado apenas como S — revelou que ele “ansiava por um gole de água decente, que não existe aqui”. 

Soldados alemães em um vagão a caminho para a frente de batalha em 1914 / Crédito: Wikimidia Commons

 

Ao todo, os gays lutaram bravamente e morreram por seus países. Mas os oficiais que foram considerados culpados de “indecência” e tentaram se alistar novamente como “soldados comuns” foram chamados de Dirty Brigade (Brigada Suja, em tradução literal).


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