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Na União Soviética, dissidentes do governo eram diagnosticados com Esquizofrenia Progressiva

Até a queda do comunismo, muitas pessoas foram privadas de seus direitos cívicos, ficando confinadas a clínicas e hospitais

Joseane Pereira Publicado em 07/09/2019, às 09h00

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- Reprodução

Considerado um exemplo do uso abusivo da psiquiatria na União Soviética, o termo Esquizofrenia Lenta ou Progressiva foi utilizado para descrever sintomas que poderiam levar à loucura. Esses sintomas incluíam "delírios de reforma", "perseverança" e "luta pela verdade". O termo foi largamente utilizado para colocar pessoas contrárias ao regime da URSS no papel de doentes mentais.

Diagnósticos mentais como arma política

Ainda que os esquizofrênicos lentos não apresentassem distúrbios psicóticos, esses certamente apareceriam mais tarde. Era nisso que acreditavam os profissionais que seguiam Andrei Snezhnevsky, psiquiatra soviético que desenvolveu o termo na década de 1960. Até a queda do comunismo, várias pessoas foram diagnosticadas com o transtorno e privadas de seus direitos cívicos, ficando confinadas a clínicas e hospitais.

Andrei Snezhnevsky / Crédito: Reprodução

 

Tal abuso político da medicina surgiu da ideia de que os opositores ao regime soviético eram doentes, já que não havia razão para ser contrário a tal sistema. O termo nunca foi reconhecido pela Organização Mundial de Saúde e seu uso foi restrito à URSS, fornecendo por décadas uma estrutura que possibilitava afastar da sociedade pensamentos políticos diferentes.

Sufocando os dissidentes

Sentindo-se amparados pela estrutura política, os psiquiatras do regime usavam e abusavam do termo criado por Snezhnevsky. Os dissidentes eram tratados em um Hospital Psiquiátrico Especial, com doses pesadas de medicamentos antipsicóticos. Artigos científicos eram escritos sobre o tema, e pessoas contrárias ao governo como o escritor britânico Vladimir Bukovsky e a poeta russa Natalya Gorbanevskaya foram tratados como loucos.

Hospital psiquiátrico Especial de Leningrado / Crédito: Wikimedia Commons

 

O dogmatismo de Snezhnevsky só foi revelado internacionalmente em meados de 1970, como resultado da alta incidência de esquizofrenia na população russa. Embora o psiquiatra tenha sido fortemente atacado por fazer uso da medicina com fins políticos, a “ilusão de reformismo” continuou sendo tratada como doença: em 2012, ela foi mencionada como um sintoma de transtorno mental no Manual Nacional de Psiquiatria da Rússia.