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Estopim para a Primeira Guerra: Há 106 anos, o arquiduque Francisco Ferdinando era assassinado

O episódio, orquestrado pelo terrorista Gavrilo Princip, poderia terminar nisso, se não fosse a complexa trama de alianças e tensões que levou a um conflito global

José Francisco Botelho e Thiago Lincolins Publicado em 28/06/2020, às 00h00

O arquiduque em imagem oficial
O arquiduque em imagem oficial - Wikimedia Commons

Em 28 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando – herdeiro do Império Austro-Húngaro – fazia uma visita a Sarajevo, na atual Bósnia. O território, na época, era dominado pelos austríacos, mas diversas organizações clandestinas buscavam a independência.

Era o caso da Mão Negra – grupo formado por bósnios de etnia sérvia, que sonhavam com a criação de uma Grande Iugoslávia, unindo todos os eslavos do leste europeu. Foi um membro da Mão Negra, o sérvio étnico Gravilo Princip, quem puxou o gatilho da Primeira Guerra: os tiros de sua pistola derrubaram o arquiduque austríaco e sua esposa, quando passavam pelas ruas de Sarajevo no carro oficial.

Em seguida, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia, apoiadora da Mão Negra – mas o que deveria ser uma guerra punitiva e localizada se alastrou por toda a Europa e pelo resto do mundo. A monarquia alemã, aliada dos austríacos, logo entrou na guerra. 

E arrastou consigo o Império Turco-Otomano, aliado de Berlim. A Sérvia, por sua vez, era aliada da Rússia, que era aliada da França, que era aliada da Inglaterra... Como alpinistas cegos, amarrados uns aos outros, as grandes potências foram desabando no precipício – e sua queda envolveu também os protetorados e colônias europeias, que, na época, ocupavam 80% do globo. 

Quase todos os envolvidos saíram perdendo. A Alemanha planejava usar a conflagração para construir um império – mas o passo foi maior que suas pernas. Os impérios russo, austro-húngaro e turco-otomano pretendiam proteger suas fronteiras e aumentar seu poder, mas acabaram destroçados ao fim do conflito.

Já a França e a Inglaterra acreditavam, no início da guerra, que suas antigas táticas de infantaria seriam suficientes para derrotar o maquinário alemão, mas acabaram perdendo mais de 2 milhões de soldados – na maioria, jovens. Não por acaso, o historiador alemão Fritz Fischer chamou a Primeira Guerra de “a guerra das ilusões”.

A Grande Guerra original pode não ter a mesma presença na imaginação popular que a seguinte. Meses nas trincheiras para morrer futilmente diante de ninhos de metralhadoras ou envenado por gás não rende filmes heroicos. E, por isso, suas consequências são seriamente subestimadas.


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