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Estudo revela que a escravidão ficou marcada no DNA dos povos americanos

O objetivo era obter respostas sobre a questão da correspondência entre a origem geográfica de diferentes regiões da África

Nicoli Raveli Publicado em 05/03/2020, às 08h00

Alguns africanos foram levadas para o Caribe e América do Norte, enquanto outros foram escravizados no sul do Brasil
Alguns africanos foram levadas para o Caribe e América do Norte, enquanto outros foram escravizados no sul do Brasil - Getty Images

Por cerca de três séculos, entre 1503 a 1870, mais de nove milhões de pessoas foram tiradas à força de suas casas e aldeias no continente africano. Elas tinham como destino as Américas para trabalharem como escravas em lavoras.

Recentemente, pesquisadores brasileiros lideraram um estudo internacional sobre a influência da escravidão na genética das populações presentes no continente americano.

De acordo com o líder do estudo e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Eduardo Tarazona Santos, o objetivo do estudo era obter respostas sobre a questão da correspondência entre a origem geográfica de diferentes regiões da África e determinados destinos da diáspora nas Américas.

Da mesma forma, a pesquisa planejava esclarecer as dúvidas sobre a miscigenação biológica e a diversidade genética. Conforme os dados analisados, Eduardo afirmou que há uma organização das ancestralidades. As pessoas do oeste da África foram levadas para o Caribe e América do Norte, enquanto os africanos do sul e leste foram escravizados no sul do Brasil.

Os cientistas também compararam os dados genéticos da população com informações sobre os embarques e desembarques africanos. Para Santos, essa comparação revelou que o período crítico entre 1750 e 1850, quando houve picos na chegada de escravos, foi acompanhado de uma intensificação da miscigenação em todo o continente americano.

Diversos dados genômicos de africanos foram incluídos na pesquisa / Crédito: Getty Images

 

Os pesquisadores também notaram que os escravos levaram consigo toda a diversidade para seus países de origem. "Em contrapartida, nos últimos 500 anos, nós aqui nos misturamos mais que do que lá e a parte africana do nosso genoma fiou mais homogênea entre as populações daqui. Um brasileiro do sul e um afro-americano são geneticamente mais similares que um moçambicano e um nigeriano, por exemplo”, completou Santos.

Além de proporcionar um maior entendimento sobre o tema, os resultados também têm importância médica, já que informam que os componentes genéticos que são responsáveis por doenças estão mais distribuídos entre diferentes povos.

Atualmente, muito se sabe sobre as doenças genéticas presentes nos genomas herdados da Europa, e temos pouca informação sobre outros povos. "Nosso trabalho contribui para compreender melhor a diversidade genética africana e como estão distribuídas as variantes vindas de lá nas Américas. Os diversos povos não-europeus no mundo poderão se beneficiar da medicina genômica unicamente se conhecermos como são do ponto de vista genético”, disse o pesquisador.

O artigo científico intitulado Impacto da Diáspora Africana na Genética das Populações das Américas foi assinado por 37 pesquisadores e 18 instituições. O estudo teve início no período de doutorado do pesquisador Mateus Gouveia, no Instituto Nacional de Saude dos Estados Unidos e foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).


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