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Eugene Allen, o mordomo negro que aconselhou presidentes americanos por 34 anos

Em contato com os principais líderes dos Estados Unidos na segunda metade do século 20, o funcionário chegou a ser presenteado com itens raros

Wallacy Ferrari Publicado em 21/05/2020, às 10h15

Eugene com Ronald e Nancy Reagan (à esq.) e com Gerald Ford (à dir.)
Eugene com Ronald e Nancy Reagan (à esq.) e com Gerald Ford (à dir.) - Arquivo Nacional dos Estados Unidos

Nascido no condado de Buckingham, Virgínia, Eugene Allen jamais conseguiria pensar o quão notável seria sua trajetória pelos corredores da mais famosa residência presidencial no mundo. Sem compor algum partido ou trilhando uma carreira militar, Allen esteve perto dos principais líderes dos Estados Unidos durante o século 20, conquistando a admiração deles pelo compromisso e lealdade.

Durante a juventude, trabalhou por anos em resorts e clubes de camping exclusivos para sócios brancos. Gradativamente, Allen se deslocava para estabelecimentos mais requintados e requisitados, até chegar no estado de Washington, onde ganhou notoriedade pelos serviços prestados em um clube de elite.

Já no estado que abriga a Casa Branca, Eugene foi convidado para um processo seletivo durante o governo de Harry Truman, em 1952. Após passar com facilidade, impressionou os recrutadores pela disposição, sendo selecionado apenas para lavar pratos e talheres, antes e depois das refeições da casa — tanto de funcionários quanto em jantares presidenciais.

Por lá ficou ao longo de 34 anos, sem registrar uma só falta ao trabalho. Serviu a oito presidentes até 1986 e, por muito tempo, foi o homem afro-americano que mais circulou nos corredores da residência oficial. De lavador de pratos, foi promovido a garçom, onde se consagrou, sendo nomeado maître d'hôtel, cargo máximo em sua categoria.

Eugene servindo o presidente Dwight Eisenhower e seus convidados / Crédito: Arquivo pessoal

 

Presidentes ao seu lado

Diversos episódios da história americana foram diretamente observados por Eugene durante sua estadia na Casa Branca. Residia no prédio por boa parte das semanas e pouco visitava a casa que conseguiu adquirir trabalhando para o governo. O primeiro grande momento, no entanto, foi em relação a uma tragédia.

Em 1964, Eugene já estava na residência quando a família Kennedy voltava de Dallas após o assassinato de John. Jacqueline, a então primeira-dama, conhecia os serviços do mordomo e fazia questão de ser atendida pelo mesmo. Quando o marido faleceu, Allen foi um dos convidados para comparecer em seu funeral, porém, recusou.

Com receio de que soasse como uma relação íntima interferindo na vida profissional, o mordomo agradeceu, mas afirmou que continuaria no trabalho, alegando que deveria ficar para auxiliar na recepção de familiares na residência oficial após o enterro. Jackie retornou da cerimônia e presenteou Eugene com uma gravata usada por JFK, que posteriormente, foi emoldurada.

Lyndon Johnson, que assumiu a presidência após o assassinato de Kennedy, também contou com os serviços do mordomo; quando se sentiu mal do estômago em decorrência as constantes manifestações contrárias a Guerra do Vietnã, Eugene lhe ofereceu uma receita de tradição afro-americana para auxiliar o líder: leite com uísque.

Com o passar dos anos, a presença marcante do funcionário também auxiliou em decisões presidenciais, principalmente em questões raciais. Quando perguntado pelo presidente Richard Nixon sobre a nomeação de dois juízes segregacionistas à Suprema Corte, Eugene deu seu parecer negativo, concordando com os movimentos negros da época. Pouco depois, a nomeação foi cancelada.

A equipe de funcionários da Casa Branca na década de 1970, com Eugene a frente / Crédito: Arquivo pessoal

 

Amigo dos líderes

Além da gravata, o funcionário guardou boas lembranças antes de se aposentar, aos 67 anos. O presidente Dwight Eisenhower, que tinha como hobby a pintura, presenteou o leal mordomo com uma paisagem feita por ele. Gerald Ford chegou até a apelidá-lo de Gene e, junto a esposa, comemorou o aniversário do mesmo em uma cerimônia privada nas imediações da Casa Branca.

Seu último chefe, Ronald Reagan, deu a oportunidade oficial que lhe faltava na carreira: Eugene foi convidado, em 1981, a compor a mesa de jantar, junto a sua esposa, durante a visita do chanceler alemão Helmut Kohl, tomando o champanhe que, no dia anterior, havia selecionado para o presidente.

O funcionário se aposentou em 1986, onde preferiu se desligar de qualquer tipo de atividade externa. Foi convidado para retornar a Casa Branca na cerimônia de posse do primeiro presidente negro da história dos EUA, Barack Obama, em 2009. Morreu no ano seguinte, aos 90 anos, vítima de uma falência renal.


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