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Evander Holyfield X Mike Tyson: Uma mordida histórica

Marcado por ter tido parte da orelha arrancada após mordida do ex-campeão em luta realizada em 1997, o americano reencontrou o rival em rentáveis ocasiões

M. R. Terci Publicado em 01/05/2020, às 09h00

Evander Holyfield e Mike Tyson lutando
Evander Holyfield e Mike Tyson lutando - Divulgação

Mencione o nome Evander Holyfield e a primeira coisa que virá à mente da maioria é: pentacampeão de boxe. No entanto, há quem se lembre apenas do incidente com Mike Tyson.

No decorrer dessa semana, circulou pela internet um meme no mínimo curioso. Uma foto de Evander Holyfield, em tempos de coronavírus, usando máscara descartável, contudo, o elástico estava preso à apenas uma orelha. Embaixo, a emblemática frase: “Muito obrigado, Mike Tyson.”

Crédito: Divulgação/Instagram

 

Há quase 23 anos, um dos episódios mais marcantes da história do nobre esporte acontecia em Las Vegas, durante o combate entre Mike Tyson e Evander Holyfield, pelo título de campeão mundial de boxe.

Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, descobrir como uma atitude bizarra e desleal, ocorrida em junho de 1997, rende histórias polêmicas e muito dinheiro aos dois boxeadores até os dias de hoje.

Antes do fatídico e último combate entre Tyson e Holyfield, os dois boxeadores já haviam se encontrado em outras duas ocasiões.

A primeira, em 1983, quando participaram das seletivas americanas para a Olimpíada de Los Angeles, em 1984. A segunda ocasião aconteceu no dia 9 de novembro de 1996 no MGM Grand Garden Arena em Las Vegas. Uma data que, sem dúvida, ficou marcada, de maneira indelével, no imaginário de todos os fãs de boxe. O dia no qual dois dos maiores pugilistas de todos os tempos finalmente se enfrentariam: Evander Holyfield x Mike Tyson.

Mike Tyson acumulava nocautes rápidos e era o campeão unificado e linear dos pesos-pesados, com 37 vitórias em sequência. Um lutador que ninguém podia abater, como diziam na época, “apenas ele mesmo”.

Evander Holyfield tinha subido do peso-cruzador, no qual era campeão linear, e acumulou vitórias até chegar ao cartel invicto de 23 vitórias.

O MGM Garden Arena estava com todos os seus lugares esgotados. Não era para menos. Os olhos do mundo estavam voltados para aqueles dois guerreiros. Uma espera longa iria ser recompensada, afinal, a luta entre os dois pugilistas era para ocorrer em 1991, mas não foi realizada por motivos alheios a vontade de ambos: Tyson tinha se acidentado com sua Ferrari e, posteriormente, em 1992, foi preso, acusado pelo crime de estupro, período em que permaneceu recluso por três anos, adiando o sonho dos entusiastas do esporte de assistir esse confronto.

Uma expectativa de 5 anos, enfim, colocada à prova. A luta foi a primeira defesa de Tyson do título da WBA, que vinha de uma sequência de quatro vitórias seguidas desde que deixara a prisão, enquanto o campeão mundial, Evander Holyfield, colocaria seus cinturões em jogo.

O mundo inteiro parou para acompanhar essa peleja. No Brasil, a luta foi transmitida em canal aberto e todos estavam sintonizados, esperando o combate. Em jogo, não apenas cinturões mundiais, havia principalmente a curiosidade de saber quem se sairia melhor.

Tyson, apesar do favoritismo, foi massacrado durante o combate. Empregando velocidade e técnica, Holyfield foi melhor em toda luta. Extremamente pragmático, Holyfield clinchava Tyson toda vez que este oferecia perigo, colocando golpes fortes na curta distância e se afastando quando necessário, Holyfield frustrou o ímpeto de “Iron” Mike com uma guarda sólida e o controle ideal da distância.

Crédito: Wikimedia Commons

 

Mas, meus bons, não pensem que foi uma peleja de todo limpa. Holyfield não era nenhum santo. No sexto assalto, uma cabeçada abriu um corte em Tyson. Pouco depois, um gancho de Evander colocou Iron Mike no solo. Na sétima parcial, novo choque premeditado de cabeças que quase derrubou Tyson.

Punições à parte, Holyfield marcou mais pontos. Tyson, mesmo agressivo, não conseguia furar o bloqueio de Evander. No fim do décimo assalto, quando estava para ir à lona, Tyson foi salvo pelo gongo. Iniciado o décimo primeiro round, o massacre prosseguiu e o juiz teve de interromper o combate, dando vitória por nocaute técnico para Holyfield.

Um excelente duelo, no qual o quesito tático foi preponderante. O mundo não acreditava, mas Holyfield vencia Tyson em uma das lutas mais importantes de todos os tempos.

A verdade é que Holyfield já estudava o jogo de Tyson desde 1990. 

“Quando eu estava para iniciar a carreira, eu via as suas lutas na TV e a minha mãe dizia: ‘Faça igual a ele, que você vai ser um campeão’. Foi o que eu fiz. Você sempre foi uma inspiração para mim” – disse Evander, antes de ser cumprimentado pelo eterno rival, em 2019, durante um Podcast nos EUA.

Com os patrocinadores enlouquecidos e fãs de todo o mundo pedindo por mais, a revanche foi marcada novamente para a arena MGM, em Las Vegas. Sete meses após a primeira luta, dois dos maiores e mais carismáticos pesos-pesados de todos os tempos voltariam a se digladiar no ringue.

O desafio do século, um confronto que prometia ser intenso.

Em uma época em que o MMA ainda engatinhava, o combate entre Tyson e Holyfield vendeu, naquela ocasião, quase dois milhões de assinaturas no sistema pay-per-view, gerando, ainda, uma receita de quase 100 milhões de dólares – cerca de 543 milhões de reais – e incalculáveis fortunas de marketing para ambos.

Tyson, o mais jovem campeão mundial dos pesos-pesados, um fenômeno midiático que chamava a atenção pela brutalidade e por ter colecionado todos os cinturões antes de sua primeira derrota enfrentaria novamente Holyfield, único campeão indiscutível dos pesos cruzador e pesado, único lutador na história a ser campeão dos pesos-pesados por quatro vezes, o homem que havia desbancado George Foreman, Larry Holmes e Riddick Bowe.

Momento da mordida / Crédito: Divulgação

 

Depois do triunfo de Evander Holyfield na primeira luta, todos esperavam por um troco de Mike Tyson para que a trilogia fosse marcada.

Cada lutador recebeu 30 milhões de dólares para subir mais uma vez no ringue. Ambos os colossos faziam previsões de nocautes rápidos. Mais de 1000 jornalistas estavam credenciados para passar informações aos 97 países que transmitiram imagens da luta ao vivo pela TV.

Soado o gongo, em um combate intenso, Tyson e Holyfield trocaram golpes violentos freneticamente. Mas, ainda no primeiro round, o então campeão Holyfield começou a frustrar o adversário, inclusive, acertando uma sequência que abalou Iron Mike.

No segundo round, após outra cabeçada de Holyfield, Tyson sofreu um grande corte no supercílio direito e se irritou, ao se lembrar dos ferimentos sofridos na luta anterior. O juiz na ocasião nada fez, o que tirou o Tyson do controle.

Eis que sucedeu, no terceiro assalto, um dos momentos mais bizarros e marcantes da história da nobre arte. Tyson partiu enfurecido, atacando o campeão com fortes socos. Fazendo uso do clinch e tomando a vantagem tática mais uma vez, Holyfield contornou a violência do adversário. 

Mas nada poderia prepara-lo para o que ocorreu a seguir.

Em meio ao clinch, Mike Tyson posicionou sua boca perto da orelha direita de Holyfield e deu uma mordida arrancando um pedaço de aproximadamente uma polegada. O pentacampeão começou a gritar, ensandecido de dor.

O árbitro da luta, aparentemente, gostava de sangue. Tirou dois pontos do desafiante pela atitude nefasta e reiniciou a luta.

Tyson mordeu a orelha de Holyfield novamente.

Dessa vez, antes do início do quarto round, Tyson foi desclassificado, se revoltou e causou um tumulto sem precedentes dentro e fora do ringue. Uma confusão, por causa de um estampido de uma garrafa de champanhe parecido com um tiro, causou quebra-quebra dentro do cassino do hotel MGM e dezenas de pessoas ficaram feridas após o fim da luta.

Mike Tyson nunca mais teve credibilidade na carreira, enquanto Evander Holyfield perdeu e voltou a ser campeão. Os dois entraram para o Hall da Fama do Boxe e reataram a amizade em 2009, após um encontro promovido pela apresentadora Oprah Winfrey. “Eu tinha de dar o exemplo do perdão para os mais jovens”. disse Holyfield. “Eu tenho muita vergonha do que fiz”, afirmou Tyson.

Aposentados, os dois ex-lutadores são enaltecidos pelo que fizeram em suas carreiras, apesar do grotesco acontecimento de duas décadas atrás. Mas quem diria que Mike Tyson e Evander Holyfield um dia promoveriam produtos lado a lado, rindo, posando para fotos e até se abraçando carinhosamente?

Anos após, os brigões protagonizaram encontros que renderam grandes somas de dinheiro, como na ocasião em que os tênis esportivos Foot Looker promoveram uma série de comerciais intitulados Semana da Grandeza. Em 2013, com o slogan “perdoar e esquecer”, Mike aperta a mão de Evander e lhe devolve o naco da orelha: “Conservei em formol”, menciona o ex-pugilista se desculpando com o oponente.

No mesmo ano, em uma loja de Chicago, Tyson e Holyfield participaram juntos do lançamento do molho para churrasco Real Deal. Holyfield menciona que seu "Real Deal Barbecue Sauce fará você querer morder a orelha de alguém. Pergunte ao Tyson”, ao que Tyson responde: "A orelha de Holyfield seria muito mais saborosa com o seu novo molho de churrasco. Experimente Real Deal Barbeque Sauce.”

Mais recentemente, em 2019, Tyson recebeu o antigo rival em seu Podcast, onde o papo rendeu gargalhadas em meio a muito assunto e muitos milhares de dólares de anunciantes.

Em mais de 150 anos, o boxe moderno reúne diversas histórias épicas com confrontos épicos e decisivos com Joe Louis, Rocky Marciano, Muhammad Ali e tantos outros campeões, mas nenhum mais estranha ou rentável que a luta que ficou conhecida como The Bite Fight – A Luta da Mordida


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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