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Exclusivo: Esse é o rosto de uma das múmias mais enigmáticas do Egito Antigo

Pesquisa recente feita na Itália analisou os restos mumificados daquele que seria o pai biológico de Tutancâmon e contou com a reconstrução facial forense do brasileiro Cícero Moraes

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 13/03/2021, às 08h00

A reconstrução facial e o crânio da múmia da tumba KV 55
A reconstrução facial e o crânio da múmia da tumba KV 55 - Centro de Pesquisa da FAPAB

Em 1907, o egiptólogo inglês Edward R. Ayrton descobriu a entrada de uma tumba no Vale dos Reis, no Egito, a poucos metros de distância de onde o faraó Tutancâmon foi enterrado. Dentro da sepultura, foram encontrados artefatos funerários e, especialmente, uma múmia.  

Na época, Theodore M. Davis, o advogado estadunidense que patrocinou a expedição, divulgou a descoberta para o resto do mundo como a identificação da tumba da Rainha Tí, mãe do polêmico faraó Aquenáton. Ele acreditou erroneamente que o corpo mumificado era de uma mulher devido a pelve ampla.

Com a descoberta, o antropólogo australiano Grafton E. Smith foi responsável pela análise da múmia, afirmando que tratava-se de um indivíduo do sexo masculino. Ou seja, mudando totalmente a hipótese inicial. O cientista também identificou o homem como Aquenáton, mas essa questão tornou-se mais complexa do que ele poderia imaginar no período.

A múmia da tumba KV 55

O crânio da múmia / Crédito: Centro de Pesquisa da FAPAB

 

Quando Ayrton e Davis colocaram as mãos na múmia, ela logo se transformou em pó e ossos, resultando apenas em um esqueleto, que se tornou objeto de inúmeras pesquisas. Envolvido em inúmeras controvérsias, os restos mortais se tornaram importantes a partir de sua proximidade com Tutancâmon.

Pesquisadores do FAPAB Research Center, na Itália, apontam que algumas pesquisas identificaram a múmia como o pai genético do faraó menino, novamente Aquenáton. Outros estudos criticaram essas análises, em um quebra-cabeça científico que não parece chegar ao fim. 

Os críticos avaliam que as idades entre o indivíduo e Aquenáton são distintas: o primeiro teria morrido em torno de seus 20 anos, enquanto o faraó teria reinado por 17 anos, falecendo com o dobro da idade da múmia da tumba KV 55. Ainda assim, por se tratar de um período muito antigo, o tempo de governo e idade da morte do rei são contestados. 

O incesto praticado na família real egípcia também complicou a análise dos resultados genéticos obtidos. Mas os cientistas fizeram uma nova sugestão: o corpo poderia ser de Semencaré, provavelmente o mais misterioso faraó de todo o Egito Antigo, que teria reinado entre 1338 a.C. e 1336 a.C. 

Reconstruindo a enigmática múmia

A reconstrução facial da múmia / Crédito: Centro de Pesquisa da FAPAB

 

Na última semana, pesquisadores do Centro de Pesquisa da FAPAB, na Itália, divulgaram um projeto no qual trabalharam nos últimos meses: uma reconstrução facial da misteriosa múmia da tumba KV 55. 

O projeto foi realizado pelo egiptólogo Michael E. Habicht em parceria com o designer brasileiro especializado em reconstrução facial forense, Cícero Moraes, sob a direção de Francesco M. Galassi, médico e paleopatologista. 

Eles afirmam em comunicado de imprensa que o projeto “traz de volta à vida, de forma metafórica, uma das mais controversas e importantes múmias da história do mundo”. “O trabalho se concentrou na reconstrução do rosto de KV55, uma múmia agora esqueletizada que ao longo dos anos foi atribuída por alguns ao Faraó Aquenáton e considerado o pai biológico do Faraó Tutancâmon”, escreveram os especialistas em sua página no Facebook.

A reconstrução facial foi criada a partir de dados obtidos por Moraes previamente, contando com evidências antropológicas, históricas e genéticas do indivíduo.

Os cientistas também analisaram fotos e vídeos da múmia para que conseguissem obter detalhes anatômicos do esqueleto, além de pesquisarem a literatura sobre o indivíduo.

“Embora existam várias teorias e argumentos conflitantes que sempre caracterizarão o debate sobre KV 55, usando as evidências antropológicas disponíveis, escolhemos nos concentrar nos traços faciais desse indivíduo”, apontaram os pesquisadores. 

O projeto apresenta grande importância histórica pois dá face à uma das mais enigmáticas múmias já encontradas no Egito Antigo, cuja identidade permanece em debate. Um estudo antropológico completo ainda será finalizado pela equipe e submetido a um jornal científico internacional.


Saiba mais sobre o trabalho de Cícero Moraes por meio de seu site.