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Água e crise: Como a exploração da hidroeletricidade também trouxe a dependência das chuvas

No Brasil, a utilização da energia hidrelétrica teve início em meados do século 19 e demorou anos para se desenvolver

Michel Alecrim Publicado em 12/09/2021, às 09h00

Imagem meramente ilustrativa da Usina hidrelétrica de Itaipu
Imagem meramente ilustrativa da Usina hidrelétrica de Itaipu - International Hydropower Association/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

A persistente falta de chuvas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil não traz consequências apenas para o abastecimento residencial de água. A seca atual afeta diretamente a produção de energia elétrica desses estados, que detêm a maior parte dos reservatórios de usinas hidrelétricas do país.

O risco de racionamento ronda o Brasil porque o país é dependente desse tipo energia. Enquanto a Europa e os Estados Unidos concentraram suas matrizes historicamente nas termelétricas, os brasileiros descobriram desde o fim do século 19 que tinham uma fonte muito mais econômica e abundante para iluminar casas e ruas e como força-motriz para a indústria. E aproveitaram ao máximo seu potencial. Sem necessidade de combustível, o uso de quedas d’água é de fato mais barato, mas é menos produtivo nas estiagens.

A exploração da energia hidrelétrica no Brasil começou de forma um tanto improvisada e durante muitos anos foi crescendo sem planejamento ou controle governamentais. A primeira usina a funcionar foi em Diamantina (MG), em 1883, para auxiliar a produção de diamante na lavra de Santa Maria.

A energia era gerada numa pequena queda d’água do Ribeirão do Inferno, afluente do Rio Jequitinhonha, e transmitida por uma rede de 2 quilômetros de extensão. O objetivo era melhorar a produtividade da extração de diamantes, numa época em que a mão de obra escrava se encontrava em declínio.

O projeto era ousado: a primeira hidrelétrica do mundo surgira 13 anos antes, na Inglaterra, construída pelo inglês William Armstrong (1810 - 1900), que iluminou a primeira casa no mundo com energia hídrica. Em 1882, começou a funcionar em Wisconsin, Estados Unidos, a primeira usina hidrelétrica propriamente dita.

Seis anos mais tarde, outro marco na história da energia hidrelétrica no Brasil: uma nova usina construída perto da cidade de Juiz de Fora, também em Minas Gerais, foi pioneira na iluminação pública fornecida pela geração hídrica. Marmelos foi erguida junto ao Rio Paraibuna para abastecer a fábrica de tecidos do empresário Bernardo Mascarenhas.

E seu excedente serviu para alimentar as lâmpadas das ruas da cidade, que antes eram a gás. A maior luminosidade gerada impressionava os moradores e dava um caráter um tanto mágico para a nova tecnologia. A iluminação pública no país no século 19 era alimentada a óleo de baleia, querosene ou mesmo gás.

Sem conexão

Segundo o historiador Paulo Brandi, do Centro da Memória de Eletricidade da Eletrobras, a supremacia da energia hidrelétrica tornou-se logo realidade no início do século 20. Com a inauguração da usina hidrelétrica Parnaíba, em Santana do Parnaíba (SP), no Rio Tietê, as poucas geradoras do tipo já superavam juntas as demais formas de geração.

A potência instalada do então colosso era 7 mil vezes menor do que a de Itaipu, construída cerca de 70 anos depois. A obra foi de responsabilidade da São Paulo Trainway, Light and Power Company. A empresa, de capital canadense, teve um papel fundamental na expansão da infraestrutura no Brasil. Com o nome reduzido para Light, foi estatizada no regime militar, no fim dos anos 1970 e início dos 1980, e depois privatizada no governo Fernando Henrique Cardoso, na década de 1990.

No Rio de Janeiro, a companhia inauguraria em 1908 a usina de Fontes em Piraí, na época uma das maiores do tipo no mundo, que abastecia a então capital da República. Surgiram dezenas dessas fábricas de energia, espalhadas principalmente pela Região Sudeste, mas sem interconexão entre si.

Geraldo Tiago Filho, professor de engenharia da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), de Minas Gerais, ressalta que a hidroeletricidade cresceu no Brasil sem uma padronização, com tensões e frequências diferentes. Algumas cidades, como São Paulo, recebiam eletricidade a 60 hertz, que era o padrão norte-americano.

O Rio de Janeiro e Porto Alegre adotavam o padrão europeu, de 50 hertz. Na década de 1960, porém, o país precisou interligar suas usinas para dar mais segurança ao fornecimento e unificar os padrões. Consumidores cariocas tiveram que adaptar seus eletrodomésticos em oficinas instaladas pela Light.

Racionamentos

Enquanto o Estado não tomou a frente na construção de novas usinas e de linhas de transmissão, principalmente a partir dos anos 1950, o fornecimento de energia era escasso e sujeito a racionamentos. Segundo o livroHistória da Operação do Sistema Interligado Nacional (editado pelo Centro da Memória de Eletricidade no Brasil em 2003), em 1940 foi preciso fazer uma linha de transmissão entre a capital paulista e a cidade de Campinas para evitar um colapso na localidade do interior.

Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, o presidente Getúlio Vargas decretou um racionamento preventivo de energia. O objetivo era combater o desperdício e estabelecer prioridades. Ainda assim, cortes inesperados levavam a população ao desespero país afora.

“A escassez de energia normalmente tinha como motivo a estiagem, mas outros fatores também influenciaram, como a falta de investimentos e o crescimento rápido do consumo”, afirma Ligia Martins Cabral, coordenadora de pesquisa do Centro de Memória da Eletricidade no Brasil.

Com as capitais crescendo rapidamente e o impulso da industrialização, o ritmo — lento — das obras de novas hidrelétricas não dava conta da demanda. Mesmo se sobrasse energia em alguns locais, faltava conexão para pontos mais carentes. A população do Rio, que em 1940 era de 1,7 milhão de habitantes, saltou para 2,3 milhões em 1950.

São Paulo passou de 1,3 milhão para quase 2,2 milhões. Não foi fácil atender a esse crescimento. Os constantes cortes no fornecimento da capital da República desafiavam o bom humor e a irreverência do carioca. Tanto que no Carnaval de 1954 um dos sucessos foi a marcha Vagalume, de Vitor Simon e Fernando Martins. A letra dizia “Rio de Janeiro/Cidade que me seduz/De dia falta água/De noite falta luz”. O refrão não estava distante da verdade.

Mudança de hábito

As hidrelétricas tiveram no início sua construção associada a projetos industriais, principalmente têxteis.Foi o caso de Angiquinho, construída no Rio São Francisco pelo empresário alagoano Delmiro Gouveia (1863-1917), para abastecer sua fábrica de linhas de costura. O empresário, pioneiro da industrialização brasileira, foi assassinado e virou lenda do capitalismo brasileiro. Sua indústria desafiou uma empresa inglesa de linhas (então a única no ramo) ao vender seus produtos por preço menor.

A autoria de sua morte ainda é suspeita. Mas nem sempre os interesses das multinacionais estiveram em conflito com os avanços da eletricidade no país. Parte dessas empresas ajudou a difundir novos hábitos na sociedade brasileira.

Era comum nos anos 1920 essas companhias distribuírem lâmpadas gratuitamente para estimular o consumo, por exemplo. Com a chegada da norte-americana Amforp (American & Foreign Power Company) ao Brasil, essa estratégia ficou ainda mais agressiva. A companhia promovia campanhas para popularizar o uso de eletrodomésticos, como geladeiras.

Em Porto Alegre, a sua subsidiária Ceerg (Companhia de Energia Elétrica Rio-Grandense) promovia cursos de culinária para as donas de casa aprenderem a conservar os alimentos. “Quando queimava uma lâmpada numa casa, era comum também o empresário bancar a troca”, conta o professor Tiago Filho.

Desenvolvimento

Erton Carvalho, ex-presidente do Conselho Brasileiro de Barragens (CDBD), explica que a partir da década de 1950 os estados e o governo federal assumiram a proeminência nageração hidrelétrica, elevando o país a um novo patamar. Ele cita como exemplo a criação da Cemig, em 1952,por Juscelino Kubitschek, governador de Minas Gerais.

A empresa foi responsável por grandes obras do período, entre elas a usina de Três Marias, só inaugurada no governo João Goulart, em 1962. Outro exemplo foi a construção do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso (BA), no Rio São Francisco, também nos anos 1950, que tornou o Nordeste autossuficiente.

Em 1953, foi a vez de o governo paulista usar seu peso para alavancar a produção de energia do estado, com a criação das Usinas Elétricas do Paranapanema S.A. (Uselpa), uma companhia de economia mista. A empresa daria origem depois à Companhia Energética de São Paulo (Cesp), criada em 1966.

O ex-governador Lucas Nogueira Garcez, que depois ocupou cargo de diretor da própria companhia, foi um desbravador dessa nova fase dos grandes empreendimentos. Segundo Carvalho, ele foi o principal responsável pela exploração hidrelétrica da bacia do Rio Paraná, que culminou com a construção das usinasde Jupiá e Ilha Solteira.

Também fundamental para o desenvolvimentoenergético brasileiro foi o trabalho da comissão de técnicos norte-americanos, canadenses e brasileiros que praticamente mapeou o potencial do território do país. O chamado projeto Canambra consistiu num consórcio formado em 1961 entre o governo brasileiro e a Canambra Engineering Consultants Limited, responsável por estudo das regiões Sul e Sudeste.

Seus indicadores foram usados depois para levantamentos da década de 1970 no restante do território nacional, principalmente na Amazônia. Hoje há barragens em praticamente todos os pontos importantes para a geração de energia.

Com isso, o país recorre cada vez mais às térmicas a gás — que emitem poluentes do efeitoestufa. Mas fontes renováveis, como a energia eólica, têm crescido rapidamente. No futuro, o Brasil pode não ser tão dependente das chuvas. Se um fato une o país do início da exploração hidrelétrica com o atual é a falta de um sistema eficiente que gere energia por meio de outras fontes durante a queda do nível dos rios. Mas, ao contrário do período dos desbravadores, opções tecnológicas não faltam.


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