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Eyam: O vilarejo que se tornou um dos casos mais significativos de auto quarentena da História

A história da cidade inglesa que, no século 17, se sacrificou para deter uma nova epidemia de Peste Bubônica na Europa

Penélope Coelho Publicado em 16/03/2020, às 12h15 - Atualizado às 12h15

Os moradores da pequena vila de Eyam, se isolavam em florestas para evitar proliferação da doença
Os moradores da pequena vila de Eyam, se isolavam em florestas para evitar proliferação da doença - Divulgação / Eyam Museum

Causada pela bactéria Yersinia Pestis, a Peste Negra, ou Peste Bubônica foi uma das pandemias mais destruidoras do mundo. A doença foi responsável pela aniquilação de 75 a 200 milhões da população europeia, entre 1347 e 1351. Advinda da Ásia, o microrganismo, estava presente no trajeto feito pela comercialização da seda, e viajava nos intestinos das pulgas, que estavam nos os ratos que, consequentemente, infestavam os porões dos navios que atracavam nos portos das cidades.

A população medieval vivia em situação precária, com lixos espalhados pelas ruas, fezes e moradias pequenas e sujas, o que facilitava a bactéria de se instalar. Após o primeiro surto — que começou com a presença dos roedores nas cidades —, a mazela evoluiu no corpo humano e se tornou pneumônica, a transmissão acontecia no contato de pessoa para pessoa, através da tosse ou do espirro.

A doença causava febre, vômito, um grande mal estar, e enchia o corpo do enfermo de manchas negras, desenvolvendo complicações graves no pulmão, sendo muito difícil escapar da morte, cerca de 80% dos afetados morriam entre dois e sete dias.

Mas, foi 300 anos depois que um surto da Peste Bubônica chegou ao vilarejo de Eyam, que fica cerca de 60 quilômetros da cidade de Manchester, na Inglaterra. A Peste Negra, não havia regredido até então perto do local e, por isso, causou pânico nos moradores da vila, que tiveram que tomar uma drástica decisão para evitar mais danos.

No verão de 1665, um comerciante de tecidos de Londres enviou algumas peças lotadas de pulgas de ratos infectados para a casa do alfaiate Alexander Hadfield, morador de Eyam. Alexander não estava em sua casa na época para receber o pacote, e foi seu assistente, George Viccars, quem o recebeu, abrindo a embalagem para pendurar os tecidos na frente da lareira do alfaiate para eliminar a umidade.

George começou a sentir os sintomas logo depois, ele sofreu durante sete dias e agonizou até a morte e foi enterrado na própria vila. O mesmo não demorou a acontecer com Mary e Edward Cooper, a esposa e o filho de quatro anos de Alexander Hadfield. O vizinho da família morreu um dia depois e mais cinco mortes aconteceram, todas essas pessoas residiam próximas à casa do alfaiate.

O desespero logo tomou conta dos moradores da cidade de Eyam, que inicialmente acharam que estavam sofrendo alguma punição divina por serem pecadores. Quem tinha mais dinheiro logo fugia para outro lugar, os pobres permaneceram por não terem outra opção.

Sabendo do que estava acontecendo, a cidade vizinha a Eyam, Sheffield, ergueu barreiras ao seu redor, o que impediu com que pessoas infectadas fugissem para lá, e o vilarejo ficou completamente isolado. Muitos foram morar em florestas, ou, se refugiaram em cavernas, enquanto o número de vítimas só aumentava.

William Mompesson convenceu os cidadãos do vilarejo a permanecerem isolados / Crédito: Divulgação/ Museums Sheffield

 

O recém-chegado reitor William Mompesson, percebeu que o que estava acontecendo não se tratava de uma maldição de Deus, e ao lado do ex-reitor, Thomas Stanley, declararam que aquilo se tratava de uma doença mortal. A partir daquele momento, os funerais seriam suspensos e os mortos teriam que ser enterrados em suas próprias terras. Além disso, a igreja foi interditada. Nenhum festival, evento, ou, celebração acontecia na cidade, para evitar ao máximo aglomeração pública. Eyam estava em um regime de quarentena dentro da própria vila, como uma forma de auto sacrifício para evitar que a epidemia se espalhasse para outros lugares.

Para os moradores da vila, a decisão de se isolar do mundo exterior, não foi fácil. Eyam não era autossuficiente, por isso dependeu totalmente da caridade de externos, os pedidos chegavam através de bilhetes que os cidadãos afastados, deixavam na fronteira da cidade. Em seis meses, a morte tomou conta de Eyam, nas casas e ruas infestadas pelo cheiro da putrefação. Só entre os meses de junho, julho e agosto, foram registradas 155 vítimas da Peste Negra, em uma vila que contabilizava mais ou menos 700 habitantes.

Felizmente, a ação radical foi bem sucedida, evitando que outras cidades também fossem dominadas pela Peste Bubônica, o que levaria a Europa a um grande declínio. 365 anos depois, a história de Eyam continua sendo um exemplo de como as pandemias acontecem, não somente pela rapidez da transmissão, mas, também  pela força que a imobilização social têm, para pode conter surtos.


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