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Fabricio Alvarado, o político da Costa Rica que afirmou ter visto Deus em sua cozinha

Em sua campanha presidencial da ala ultraconservadora, Alvarado conseguiu virar o jogo das eleições do seu país com suas opiniões polêmicas

André Nogueira Publicado em 16/03/2020, às 13h00

Fabrício Alvarado
Fabrício Alvarado - Wikimedia Commons

Entre os anos de 2017 e 2018, o pequeno país centro-americano Costa Rica passou por momentos conturbados de agitação política, que levaram ao aumento da popularidade de um político da extrema-direita conservadora, que reverteu diversos quadros do parlamento local. É o caso do pastor Fabrício Alvarado, figura polêmica envolvida com os evangélicos do país.

Alvarado começou a ganhar fama no país em 2014, quando, foi eleito solitariamente pelo Partido de Restauración Nacional. Movimento cristão ultraconservador que tinha como ele porta-voz das bandeiras contra o aborto, a favor da restrição do matrimônio aos heterossexuais e pela perseguição ao consumo da maconha e às identidades de gênero, chamados por ele de Ideologia.

A Costa Rica é um pequeno país de colonização espanhola que desenvolveu um quadro populacional múltiplo, mas ao mesmo tempo bastante reacionário. Com grande influência do escravismo caribenho e do cristianismo, estruturas fortíssimas ligadas à família e ao dogma moral são importantes até hoje, na opinião pública e popular.

E uma vitória relevante nas eleições presidenciais envolve uma possibilidade de poder e de condução das vias democráticas por parte do candidato vencedor, pois a Costa Rica, por mais que seja uma república presidencialista constitucional, possibilita uma série de abusos por parte do Executivo. O país adota a doutrina do unitarismo, ou seja, na liberdade da capital de interferir, modificar e até extinguir poderes e decisões de instâncias menores.

Costa Rica / Crédito: Wikimedia Commons

 

Então, diante da figura do religioso (nascido em berço católico, mas convertido ao evangelicalismo aos 18 anos de idade), a ala direitista da sociedade decidiu lançar a candidatura de Alvarado pelo PRN à presidência da República. Inicialmente, essa inigualável figura pública não tinha a menor chance de vitória, somando míseros 3% das intenções de votos no início da campanha, em dezembro de 2017.

Porém, no início de janeiro, uma decisão a nível internacional mudou os rumos da política costarriquenha, pois uma decisão histórica levou a Corte Interamericana de Direitos Humanos a declarar pleno reconhecimento da legitimidade do casamento homoafetivo, o que gerou indignação entre os mais conservadores da população. O fato impulsionou Alvarado, que era um defensor das pautas restritivas.

Com o pronunciamento de Fabrício não reconhecendo a decisão da Corte Interamericana, em que ele diz defender os valores familiares e cristãos, seus 3% alavancam-se progressivamente. Ele prometeu que, se eleito, a Costa Rica não seria signatária das decisões do órgão internacional, levando às diversas acusações de homofobia e fundamentalismo do candidato.

Mesmo sem um projeto de governo fundamentado, e tendo uma campanha pautada na retórica moralista, as pesquisas provavam um aumento relevante na popularidade de Alvarado, que passou a abusar do charlatanismo e de sua liderança religiosa para fazer campanhas absurdas. Naquele ano, a Costa Rica veria algo que beira o inacreditável, ainda mais para um país que se declara laico e moderno.

Apresentado como figura meio mística, Fabrício usou da imagem da mulher, Laura Moscoa, para vender a ideia de um profeta que defende a discriminação. Laura participava de comícios e atos públicos afirmando ter poderes de cura e de divinação. Porém, os testemunhos da esposa do candidato eram, no mínimo, questionáveis.

O candidato acabou quebrando com o decoro em diversas ocasiões / Crédito: Divulgação/Facebook

 

Segundo Moscoa, Deus teria se manifestado diretamente para o casal em sua casa, mas não da forma tradicional das Escrituras. Segundo a moça, o contato do ente divino com seus fieis ocorreu via um chat bilateral criado em sua cozinha. O Criador, então, teria convocado uma conversa com eles entre sua geladeira e seu micro-ondas.

Mesmo com as diversas falas absurdas, chegando a defender a conversa da esposa de que teria conversado com Deus em sua cozinha, o pastor angariou milhões de votos, atingindo a cifra de 39,33% entre os votos válidos (cerca de 24% do púbico geral). Ele não foi eleito presidente, mesmo chegando ao impensável segundo turno, pois a vitória ficou com o cientista político e atual governante do país, Carlos Alvarado Quesada.

Porém, a quantidade de votos que seu pleito ganhou foi tamanha que possibilitou o preenchimento de 14 das 57 cadeiras da Assembleia Legislativa nacional por membros de seu partido (que, antes, era irrelevante e só conseguira eleger o próprio Alvarado). Com isso, o PRN se tornou o segundo partido mais poderoso do Congresso.


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