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A fábrica de cadáveres: Conheça a grande fake news da Primeira Guerra

Propaganda britânica de guerra acusava os alemães de transformar os cadáveres de seus soldados em fertilizante e explosivos. Poucos anos depois da guerra, a verdade foi descoberta

Santiago Farrell Publicado em 01/08/2019, às 16h00

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Crédito: Reprodução

"Era uma informação falsa". Com essas palavras, o chanceler britânico Austen Chamberlain pôs fim, em 2 de dezembro de 1925, diante do Parlamento, em uma das ações propagandistas de guerra mais eficazes de todos os tempos: a história inventada sobre uma fábrica alemã que processava cadáveres, a Kadaververwertungsanstalt.

Tudo começou em 17 de abril de 1917, quando os jornais britânicos Times e Daily Mail publicaram artigos que afirmavam que o exército alemão tinha uma fábrica na cidade de Évergnicourt, no norte da França, onde eram processados os cadáveres de seus próprios soldados para a fabricação de gordura ou sabão, que depois eram utilizados em fertilizantes ou explosivos.

Com o título impactante de "Os alemães e seus mortos. Tratamento repulsivo. Ciência e espírito bárbaro", a matéria assegurava ser o testemunho direto de alguém que tinha visto a fábrica de perto, de cujo funcionamento fornecia detalhes pavorosos, como transporte, manipulação e transformação dos cadáveres em material para uso no esforço bélico ou na agricultura. E descrevia os trabalhadores como prisioneiros que não podiam falar sobre o desagradável trabalho que tinham de realizar.

Os jornais londrinos não explicavam como uma testemunha tinha tido acesso a detalhes tão precisos do funcionamento da fábrica, mas ofereciam fontes que permitiam disfarçar sua origem propagandista e davam à matéria ar de grande veracidade. A história do Times e do Daily Mail citava dois diários belgas que, por sua vez, tinham reproduzido um pequeno artigo publicado por um jornal oficial do governo alemão, o Lokal-Anzeiger, de Berlim.

Os jornais britânicos traduziram um trecho do artigo original de Berlim, escrito pelo colunista Karl Rosner, que tinha sentido um forte cheiro de cal viva quando atravessava a região de Évergnicourt. "Passamos pela grande fábrica de exploração de cadáveres deste grupo do exército. A gordura que ali se obtém é transformada em óleo lubrificante. Os ossos e todo o resto são moídos até que se obtenha um pó que é utilizado em uma mistura de comida para porcos e como fertilizante", dizia Rosner.

Ali estava a cota de verdade de que toda ação propagandista precisa: a planta realmente processava cadáveres, mas de cavalos, asnos e mulas. O Times recebeu muitas cartas de leitores que diziam que a história era falsa, ou que havia nela ao menos algum erro de tradução, já que a palavra alemã Kadaver se refere a carcaça ou esqueleto de animais, enquanto para o corpo humano se utiliza Leiche.

Mas a versão já estava circulando. Em poucos dias, foi publicada em jornais do mundo todo e recebeu um grande respaldo de uma prestigiada revista médica, The Lancet, que publicou uma detalhada e científica descrição dos produtos químicos que podiam ser obtidos a partir do corpo humano.

Ela afirmava, por exemplo, que mil corpos produziriam aproximadamente 180 kg de glicerina para fabricação de sabão. De nada adiantaram os esclarecimentos de Berlim. Milhões de pessoas acreditaram que os alemães processavam os cadáveres de seus soldados para fazer gordura.

A ironia é que, como finalmente ficou comprovado que aquela era uma ação propagandista, 25 anos depois muitas pessoas duvidaram da veracidade dos horrores nazistas nos campos de concentração.


Reportagem retirada do livro "Tudo o que Você Precisa Saber sobre a Primeira Guerra Mundial", de Santiago Farrell