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Febre Amarela: O vírus que aterrorizou o Brasil Império

Com a chegada da enfermidade, em 1849, muitos negacionistas minimizavam os reais efeitos da epidemia, mesmo assim, ela não deixou de vitimar dezenas de pessoas por aqui

Fabio Previdelli Publicado em 25/06/2020, às 14h00 - Atualizado às 16h00

Dom Pedro II visitando enfermos em hospitais
Dom Pedro II visitando enfermos em hospitais - Wikimedia Commons

Até o final de 1849, a sociedade brasileira vivia com certa tranquilidade sob o reinado de dom Pedro II. Mas no fim daquele ano — e no início de 1850 —, a chegada de um vírus devastador abalou todas as pessoas.

Apesar de já ser mais conhecido no Velho Continente, a febre amarela era novidade por aqui e pegou todos do império de surpresa, avançando impiedosamente pelas grandes cidades litorâneas, deixando uma trilha de corpos e pânico por onde passava.

Apesar de toda angustia e medo que causava na sociedade, documentos históricos guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que, aos olhos de políticos da época, a gravidade da epidemia era minimizada e muitos deles negavam sua realidade.

Charge da revista A Vida Fluminense, de 1874, mostra a devastação provocada febre amarela / Crédito: Biblioteca Nacional Digital

 

Naquele ano, em um discurso no Palácio Conde dos Arcos, sede do Senado no Rio de Janeiro, o senador e ex-ministro mineiro Bernardo Pereira de Vasconcellos afirmou que a enfermidade não era tão temida assim, chegando a colocar em dúvida sua real gravidade.

“Eu estou convencido de que se tem apoderado da população do Rio de Janeiro um terror demasiado e que a epidemia não é tão danosa como se têm persuadido muitos. Talvez fosse mais conveniente que o governo não tivesse criado lazaretos [hospitais de isolamento] e feito tanto escarcéu. Julgo até necessário que se institua um exame público a esse respeito, a fim de mostrar ao Brasil e ao mundo que não é a febre amarela o que reina hoje”, diz trecho resgatado pela Agência Senado.

Ironicamente, duas semanas depois desse fatídico depoimento, o senador morreu por complicações da febre amarela. Entretanto, Vasconcellos não foi a única vítima da doença no Palácio Conde dos Arcos. Em cerca de dois meses, outros quatro parlamentares foram vitimados por ela: os senadores Visconde de Macaé (BA), Manoel Antônio Galvão (BA) e José Thomaz Nabuco de Araújo (ES) — avô do abolicionista Joaquim Nabuco.

Mesmo com o número de casos aumentando, muitos negacionistas do Senado não davam o braço a torcer e insistiam em contradizer os fatos. “Eu tenho algumas 22 pessoas na minha casa e não tive uma única delas doente”, declarou o senador maranhense Costa Ferreira, fazendo alusão a seus familiares e aos escravos que tinha posse.

A declaração foi rebatida por Visconde de Abrantes, senador do Ceará: “Infelizmente eu, na epidemia reinante, tive de ordenar dois enterros. Gostaria de me esquecer de todas as penas que então sofri”.

Recorte de jornal falando sobre a morte do senador Bernado Pereira de Vasconcellos / Crédito: Sébastien Auguste Sisson/ Biblioteca Nacional Digital

 

Entretanto, ao contrário do que muitos pensavam, o vírus não foi nada piedoso por aqui. Somente no Rio de Janeiro, que na época tinha 200 mil habitantes, cerca de 4 mil pessoas morreram logo nos primeiros meses da epidemia. Proporcionalmente correlacionando com os números de hoje, onde a cidade possui cerca de 7 milhões de habitantes, é como se a febre amarela matasse mais de 130 mil cariocas.

Foi justamente por essa crise que uma nova lei foi estabelecida naquele período, proibindo que pessoas fossem enterradas aos arredores das igrejas — o que poderia infectar os fiéis e residentes vizinhos —, e passassem a ser sepultadas em cemitérios longe da cidade.

Como a doença chegou por aqui?

Apesar de aparições esporádicas nos tempos coloniais, o Brasil era visto como um país livre da febre amarela. Mas tudo mudou em setembro de 1849, quando um navio americano, que fez escala em ilhas infectadas do Caribe, atracou em Salvador.

De lá, o vírus se alastrou por toda a costa, fazendo vítimas na capital do Império já em dezembro. Assim, nos próximos 60 anos, com variáveis intensas, a febre amarela provocaria mortes no país a cada verão.

Apesar do negacionismo, a gravidade da situação foi entendia desde o primeiro momento pelo governo, que se propôs a ajudar as populações que foram atingidas, oferecendo a elas os chamados socorros públicos — que nada mais eram que hospitais de isolamento, enfermarias, médicos, alimentos e remédios. Para isso, a Câmara e o Senado aprovavam verbas quando necessário. Por exemplo, em abril de 1850, a soma aprovada foi de 100 contos de réis.

A preocupação sobre a epidemia também era demonstrada por dom Pedro II, que visitava hospitais de isolamento, consolava os enfermos e citava a epidemia em discursos ao abrir e encerrar os trabalhos do Senado e da Câmara.

“Os estragos da enfermidade afligem profundamente meu coração. O meu governo tem empregado todos os meios ao seu alcance para acudir os enfermos necessitados", discursou dom Pedro II em maio de 1850. "Graças a Deus, vai diminuindo o mal. Espero de sua divina misericórdia que, ouvindo nossas preces, arrede para sempre do Brasil semelhante flagelo”.

Estatísticas sobre as mortes por febre amarela no Rio de Janeiro / Crédito: Biblioteca do Senado

 

Apesar de não dispor de uma rede pública de saúde naquele período, o governo destinava verbas extras as Santas Casas, que recebiam pacientes pobres que não tinham condições de arcar com médicos particulares. Porém, apesar do esforço, eles não conseguiam impedir a repetição das epidemias — não por falta de verba, mas sim pelas limitações científicas do período.

A situação só mudou no início do século seguinte, quando, já na República, o médico Oswaldo Cruz se dedicou a combater o mosquito Aedes aegypti, transmissor da febre amarela. Assim, em 1909, o Rio de Janeiro foi considerado livre da enfermidade. Com a invenção de uma vacina, em 1937, o país passou a enfrentar a doença com mais facilidade, afinal, o último surto de febre amarela registrado por aqui ocorreu em 1942.


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