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Febre amarela: A maldição dos trópicos

Doença tem uma longa história de destruição — e a luta contra ela persiste até hoje

Paula Lepinski e Thiago Lincolins Publicado em 07/05/2019, às 14h00

Aedes aegypti
Aedes aegypti - Shutterstock

Nos últimos anos, um dos maiores surtos de febre amarela vem tomando conta do país — centenas de milhares de pessoas se amontoam em postos de saúde para receber a vacina contra uma doença que há séculos desafia o homem.

As mortes registradas recentemente, no entanto, são irrisórias perto daquelas dos primeiros anos de contato com a doença. Em abril de 1686, em Salvador, meses após a chegada da febre amarela ao Brasil, havia dias em que morriam mais de 200 pessoas.

A doença

A febre amarela é provocada por um vírus e transmitida pelos mosquitos Haemagogus, em áreas silvestres, e Aedes aegypti, em áreas urbanas. Ao contrário do que muitos acreditam, os macacos não transmitem a doença - ou não diretamente. Assim como o ser humano, eles são hospedeiros dela, e contaminam os mosquitos, mas não passam a febre por contato.

A manifestação da doença ocorre dentro 3 a 6 dias após a picada do mosquito infectado. Os sintomas vão desde febre alta, calafrios, perda de apetite e náuseas até dores musculares – principalmente nas costas. Em casos mais graves quando a doença desaparece por 1 ou 2 dias, pode ocorrer insuficiência no fígado e hemorragias.

O trajeto do vírus

Segundo o infectologista Stefan Cunha Ujvari, no livro A História e Suas Epidemias, a febre amarela surgiu provavelmente nas Antilhas. Em 1685, foi registrada a primeira epidemia da doença no Brasil, com foco em Recife. Acredita-se que o tráfico de escravos e o próprio trânsito de pessoas foram responsáveis por espalhar a moléstia.

"Em 1800, Napoleão ocupou o Haiti e 23 mil de seus 30 mil soldados morreram. Mais resistentes à doença, os negros de lá conquistaram a independência graças à febre amarela”, diz o médico Joffre Marcondes de Rezende, da Universidade Federal de Goiás.

Caricatura de Oswaldo Cruz limpando o Morro da Favela, no Rio de Janeiro / Crédito: Reprodução

 

No verão de 1850, a doença voltou ao Brasil em um navio recheado de pessoas infectadas, matando mais de 10 mil no Rio. Entre 1895 e 1897, a doença foi a que mais matou no país

Somente em 1881, o epidemiologista cubano Carlos Finlay propôs que a febre amarela era transmitida por mosquitos, e não por contato humano. No Brasil, o sanitarista Emílio Ribas chegou a se trancar em uma sala cheia de mosquitos só para comprovar essa teoria para os especialistas brasileiros, inclusive Oswaldo Cruz.

Além de Cuba e Panamá, o Brasil encabeçou uma campanha de sucesso contra a doença. Começou em 1903 sob a liderança de Oswaldo Cruz, que atacou focos de reprodução do mosquito e isolou pacientes em casas e hospitais. De 469 mortes, no primeiro semestre de 1903, o índice caiu para 39 no ano seguinte.

A vacina contra a febre amarela foi criada em 1937 pelo sul-africano Max Theiler, no Instituto Rockfeller, em Nova York. No mesmo ano, passou a ser produzida no Brasil pelo Instituto Fiocruz, que se tornou um dos maiores - e únicos - fabricantes da vacina. Cinco anos depois, a doença foi erradicada dos centros urbanos brasileiros, que registrou os últimos casos no Acre - da área silvestre, contudo, é impossível erradicá-la sem causar extensos danos ambientais.

Novos surtos de febre amarela silvestre, em 1973 e 1984, trouxeram de volta o temor pela reurbanização do vírus. A história se repetiu em 1993, 2000 e 2008, o que só reforçou esse medo. E ele persiste até hoje.