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Feminilidade e bullying: a dura história de Zhou Peng

A morte do jovem chinês conectada ao bullying e preconceito implicaram em um debate sobre homens ‘afeminados’

Pedro Paulo Furlan, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 19/12/2021, às 10h00

O jovem Zhou Peng foi vítima de bullying quando mais novo
O jovem Zhou Peng foi vítima de bullying quando mais novo - Divulgação / WEIBO

Dezembro, no seu primeiro dia, começou com a triste morte do jovem Zhou Peng, na China, um fotógrafo freelance que foi encontrado morto ao leste da península de Zhejiang. No relatório oficial da polícia, o falecimento do homem de 26 anos não foi um homicídio. O público profundamente acredita que este é um caso de suicídio.

A conclusão foi atingida, em especial, devido a uma publicação que Peng fez em sua rede social Weibo anteriormente à sua morte. Com mais de 5 mil caracteres, sua postagem está sendo considerada uma carta de suicídio, na qual o chinês explicou diversas dificuldades que enfrentou durante a vida, em especial os anos em que sofreu bullying.

Afirmando que passou seus anos de escola sendo xingado por sua feminilidade, delicadeza e aparência em geral, Zhou Peng, que utilizava o pseudônimo Ludaosen  contou que seus colegas sempre implicavam e o agrediam verbalmente, criando um ambiente torturante para o jovem.

Eu poderia apenas me parecer um pouco com uma garota quando era mais jovem, mas me vestia 'normalmente' e não tentava imitar as garotas. Ainda assim, fui intimidado na escola, abusado verbalmente, condenado ao ostracismo, ameaçado e alvo de todos os tipos de insultos”, contou em sua publicação.

Estes testemunhos, em combinação com as últimas movimentações do governo chinês em relação à maior ostracização da feminilidade masculina, ou simplesmente de homens parecerem ‘afeminados’ levou muitos chineses a expressarem o perigo inato deste tipo específico de preconceito.

Quem foi Zhou Peng e o que sua morte significa?

Zhou Peng, fotógrafo sob o pseudônimo Ludaosen - Créditos: Divulgação / WEIBO

 

Fotógrafo independente, Zhou Peng foi um jovem delicado, artístico e extremamente bondoso, segundo relatos de seus amigos mais próximos após sua morte à publicação estatal Global Times. Suas ‘selfies’ e fotos de si mesmo pareciam mostrar uma pessoa feliz e positiva.

“Ele tem uma aparência delicada e uma personalidade aparentemente gentil. Todos esses são pontos positivos, mas, ele foi intimidado apenas porque não estão de acordo com os ideais masculinos tradicionais”, comentou um.

Durante seus anos escolares, Peng relatou, em sua carta, que o bullying que sofreu teve um impacto duradouro em sua psique, traumatizando-o em relação a sua aparência mais feminina e a maneira que era tratado por ser ‘afeminado’.

Os insultos, ameaças e ofensas, junto à opinião popular e conservadora de que os homens e meninos devem se comportar de uma maneira só, seguindo os ideais específicos de masculinidade, fizeram Zhou Peng internalizar o seu próprio sofrimento, como o mesmo escreveu em sua postagem.

“Os meninos supostamente devem ser travessos, brigar e xingar. Meninos muito quietos e educados são afeminados e chamados de maricas", afirmou.

A feminilidade masculina na China

Pouquíssimos dados sobre bullying na China e suas causas estão disponíveis ao público, sendo uma das únicas fontes uma pesquisa da organização Children's and Youth Services Review de 2019, que lista ser do sexo masculino e um relacionamento ruim com os pais como algumas das maiores razões do sofrimento.

Segundo cobertura do portal de notícias da BBC, mais de 30% dos jovens que participaram desta pergunta apontaram, em 2019, que já sofreram com bullying, incluindo o cyberbullying, no entanto, o governo chinês têm fortalecido sua movimentação relacionada ao fim da feminilidade dos meninos.

No começo deste ano, 2021, após o político Si Zefu afirmar que os homens chineses estavam tornando-se cada vez mais ‘afeminados’, o governo emitiu “A Proposta para Prevenir a Feminização do Sexo Masculino” que planeja remover estas características femininas com esportes físicos mais intensos. 

Junto a isto, em setembro, os mesmos ideais que atormentaram Zhou Peng foram mais uma vez fortalecidos quando as autoridades anunciaram que o rádio e a TV não poderiam mais mostrar quaisquer homens ‘afeminados’.

Com uma política agressiva de diplomacia e um ideal quase violento em relação ao resto do mundo, inclusive originando uma impressão de nós contra eles, a China está eliminando influências de outras culturas ou coisas que a fazem parecer mais fraca.

O impacto deste tipo de ideal no público chinês pode ser assustador em relação ao bullying e a normalização do preconceito contra a feminilidade masculina, como apontou Wang Shuaishuai, especialista em cultura digital da Universidade de Amsterdã, em resposta ao caso de Peng, à BBC.

“A violência baseada no gênero, o assédio e o bullying provavelmente aumentarão, porque o governo basicamente concordou com isso. É terrivelmente triste.", afirmou.