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Como a expressão 'filhotes de ditadura' marcou um dos momentos mais caóticos da TV brasileira

O primeiro debate presidência desde golpe que inaugurou a ditadura militar no país foi marcado por uma verdadeira confusão

André Nogueira Publicado em 26/01/2020, às 08h00 - Atualizado em 31/03/2021, às 12h13

O debate de 1989, que viralizou a expressão
O debate de 1989, que viralizou a expressão - Divulgação/YouTube

O dia 1º de abril de 1964 é marcado por um golpe dado pelos militares que derrubou o governo de João Goulart. Como consequência, atos institucionais passaram a impedir a população de se expressar de forma livre. Aqueles que ousavam denunciar os absurdos do período acabavam sendo alvo de tortura impediosa.

Muitas foram as vítimas dos militares durante esse tempo. Foi o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, que escandalizou a sociedade ao denunciar tudo de errado que era feito na época.

Vlado nasceu na antiga Iugoslávia — atual Croácia, e se mudou para o Brasil, onde construiu sua carreira como jornalista, sendo lembrado para sempre como um dos maiores profissionais que o país já teve a honra de ter.

Depois do período marcado pela violência, muitos foram os políticos que lembraram da ditadura, no entanto, uma frase específica relembra o período.

Leonel Brizola apelidou muitos personagens da História do Brasil. Lula era o Sapo Barbudo. Moreira Franco era o Gato Angorá e Antony Garotinho, o Queijo Palmira. Os militares que derrubaram Jango já eram chamados de Gorilas Golpistas em 1961. Porém, nenhum apelido cunhado pelo Engenheiro Leonel é mais famoso do que "filhotes da ditadura", cujo principal alvo era Paulo Maluf.

"Filhote da ditadura" se tornou a principal maneira de apontar, pejorativamente, os políticos e membros da sociedade civil que colaboraram com os militares durante a ditadura militar brasileira. No entanto, Maluf não foi o primeiro a ter o infeliz epíteto dado pelo líder trabalhista.

Um "filhote da ditadura", é basicamente, quem se beneficiou na ditadura e, com a saída dos militares, passou a acompanhar os políticos da redemocratização. Menos poderoso que um militar de alto escalão, os "filhotes" dominaram a política nos anos 1980. Após anos de cumplicidade com o autoritarismo, num regime que levou ao exílio de Brizola, essas pessoas apagavam suas ações e se fingiam democratas.

Uma das cenas mais famosas da televisão / Crédito: Domínio Público

 

A primeira vez que Brizola apontou o dedo e gritou a alcunha foi para Ronaldo Caiado, da União Democrática Ruralista, durante um debate para as eleições de 1989. Caiado e sua família haviam ganhado muito com os loteamentos rurais da ditadura militar e, ao apontar a suposta falta de nacionalismo de Brizola por ter uma fazenda no Uruguai, recebeu ofensas do esquerdista.

No entanto, a vez de Maluf foi a que mais repercutiu. Em rede nacional durante um debate de 1989, o político acusava Brizola de loucura. Sem abaixar a cabeça, Brizola se sobressaiu, relembrando, em suas palavras, o apoio aos militares. O debate, mediado por Marília Gabriela, resultou numa confusão.

“Desequilibrado! O senhor passou 15 anos no estrangeiro e não aprendeu nada!”, afirmou Maluf. A plateia reagiu em favor dele, rindo e aplaudindo. Brizola, então, apontou para eles, gritando “bando de malufistas!”, “filhotes da ditadura”.

A fala de Brizola pode até parecer simplória, mas a acusação tem um objetivo relevante: a exposição daqueles que não admitem ter auxiliado o autoritarismo. Por trás do apelido, há uma percepção importante da maneira sórdida como a redemocratização aconteceu até 1985: longe de ter sido um processo feito pelo povo, foi uma estratégia dos militares para que as estruturas de poder e os benefícios da classe política fossem mantidos.

++Leia também: “Fui recebido por Carlos Alberto Brilhante Ustra”, relembra Adriano Diogo, torturado na ditadura. 


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