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"Filhotes da ditadura": o debate entre Leonel Brizola e Paulo Maluf que alucinou os brasileiros

No primeiro debate presidencial desde o Golpe de 1964, o líder do PDT relembrou o passado de cumplicidade do ex-ARENA com os militares

André Nogueira Publicado em 26/01/2020, às 08h00

O emblemático debate de 1989
O emblemático debate de 1989 - Divulgação/YouTube

Leonel Brizola apelidou muitos personagens da História do Brasil. Lula era o Sapo Barbudo. Moreira Franco era o Gato Angorá e Antony Garotinho, o Queijo Palmira. Os militares que derrubaram Jango já eram chamados de Gorilas Golpistas em 1961. Porém, nenhum apelido cunhado pelo Engenheiro Leonel é mais famoso do que o clássico "filhotes da ditadura", cujo principal alvo era Paulo Maluf.

“Filhote da ditadura” se tornou a principal maneira de apontar, pejorativamente, os políticos e membros da sociedade civil que colaboraram com os militares durante a ditadura militar brasileira. No entanto, Maluf não foi o primeiro a ter o infeliz epíteto forjado pelo líder trabalhista.

Um "filhote da ditadura", é basicamente, quem se beneficiou na ditadura e, com a saída dos militares, passou a acompanhar os políticos da redemocratização. Menos poderoso que um militar de alto escalão, os "filhotes" dominaram a política nos anos 1980. Após anos de cumplicidade com o autoritarismo, num regime que levou ao exílio de Brizola, essas pessoas apagavam suas ações e se fingiam democratas.

Uma das cenas mais famosas da televisão / Crédito: Domínio Público

 

A primeira vez que Brizola apontou o dedo e gritou a alcunha foi para Ronaldo Caiado, da União Democrática Ruralista, durante um debate para as eleições de 1989. Caiado e sua família haviam ganhado muito com os loteamentos rurais da ditadura militar e, ao apontar a suposta falta de nacionalismo de Brizola por ter uma fazenda no Uruguai, recebeu ofensas do esquerdista.

No entanto, a vez de Maluf foi a que mais repercutiu. Em rede nacional, o político acusava Brizola de loucura, xingando-o para reduzir sua moral. Sem abaixar a cabeça, Brizola sobressaiu-se a sua voz, relembrando seu apoio aos militares. O debate, mediado por Marília Gabriela, resultou numa confusão.

“Desequilibrado! O senhor passou 15 anos no estrangeiro e não aprendeu nada!”, afirmou Maluf. A plateia reagiu em favor dele, rindo e aplaudindo. Brizola, então, apontou para eles, gritando “bando de malufistas!”, “filhotes da ditadura”.

Brizola sempre foi de apontar o dedo / Crédito: Divulgação/Facebook

 

A fala de Brizola pode até parecer simplória e desnecessária, mas a acusação tem um objetivo relevante: a exposição daqueles que não admitem ter auxiliado o autoritarismo. Por trás do apelido, há uma percepção importante da maneira sórdida como a redemocratização aconteceu até 1985: longe de ter sido um processo feito pelo povo, foi uma estratégia dos militares para que as estruturas de poder e os benefícios da classe política fossem mantidos.


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