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Filinto Müller, o torturador do Estado Novo

Atuando como chefe de polícia política do governo de Getúlio Vargas, Müller tem um legado de sangue e repressão

André Nogueira Publicado em 09/09/2019, às 13h00

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- Reprodução

Filinto Müller foi um dos elos centrais da ditadura do Estado Novo. Torturador, militar e líder da polícia política de Vargas, Müller tem um legado de sangue e repressão em seu currículo, mas nunca foi exaltado como herói nacional por nenhum presidente de nossa História. Era abertamente antissemita e germanófilo, por ascendência familiar.

A vida política de Müller foi bastante movimentada, principalmente por suas conexões familiares. Nascido em Cuiabá, em 1900, era filho de Júlio Frederico Müller, importante político mato-grossense que governou a capital em diversos mandatos durante a República Velha, e irmão de dois interventores estaduais do início do governo revolucionário varguista.

Exército e guinada à direita

Müller / Crédito: Reprodução

 

Migrando para o Sudeste, ele ingressou na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, até o início das insurgências tenentistas de 1922. Acusado de participar dos levantes, ficou preso por cinco meses e, em 1924, foi transferido para Quitaúna, São Paulo, onde integrou à Revolta Paulista daquele ano.

Com a retirada dos revoltosos da cidade, integrou à Coluna Miguel Costa, sendo promovido a major, mas em pouco tempo se rebelou contra a Coluna Costa-Prestes, exigindo a deserção de seus sargentos.

A carta em que fazia tal exigência nunca chegou às mãos de seus subordinados, sendo interceptada por Luís Carlos Prestes. Como cosequência, Müller foi acusado de covarde e desertor. Em seguida, exilou-se na Argentina, enquanto a Coluna subia rumo ao Norte do país. Neste momento, foi possível perceber que o militar deixou alguns ideais insurrecionistas, guinando para uma direita autoritária.

Era Vargas, ápice de carreira

Retornando ao Brasil em 1927, integrou o grupo político oposicionista à presidência café-com-leite até que, em 1930, participou discretamente da Revolução em curso no Brasil. Quando Getúlio Vargas assumiu, ele foi nomeado oficial de gabinete do Ministério da Guerra de Leite de Castro, pulando entre cargos, até se tornar chefe da Polícia do Distrito Federal, devido seus méritos na repressão à Revolta Constitucionalista de 1932.

No cargo, criou bases para a centralização do poder policial pelo país, transformando a Polícia do Distrito Federal como centralizadora das diretrizes do controle social, baseadas na proposta do DESPS.

Cap. Müller à esquerda, junto a membros do governo Vargas / Crédito: Wikimedia Commons

 

A partir de 1935, teve como principal alvo a Aliança Nacional Libertadora e os comunistas, que vinham crescendo cada vez mais. Segundo Müller, a ANL não passava de um bando de subservientes à URSS. Assim, ele teve papel crucial na proibição do grupo, naquele ano, pelo Governo Federal.

Devido esse movimento, em 1936, os comunistas tentaram dar um golpe de Estado e assumir o poder, no entanto, falharam. A ação rápida de Vargas contra os levantes no Rio de Janeiro, Pernambuco e Rio Grande do Norte, possibilitou o acirramento da repressão, em que Müller era peça elementar.

Com isso, o militar ganhou grande destaque como chefe da polícia. Comandou ordens de prisão e sessões de tortura, ganhando fama de bárbaro. Ficou conhecido internacionalmente após a varredura encomendada por Vargas, que resultou na deportação da comunista judia Olga Benário, onde foi executada em 1942, num campo de concentração.

Com essa artimanha, conseguiu estreitar relações com o Reich, que já estava na alçada do ministro Góis Monteiro. Já instaurado o Estado Novo, Müller fez uma visita oficial à Alemanha, onde conheceu a instituição que tinha maior apreço na época: a Gestapo, de Heinrich Himmler – com quem se encontrou. No ano seguinte, comandou a repressão à oposição da AIB, que tentara dar um golpe contra Vargas.

Desavenças

Em 1938, finalizou a sua graduação em Direito pela Faculdade de Niterói. Após alguns anos, a ala de Osvaldo Aranha do governo comecaria a ganhar espaço e o presidente se aproximaria das potências Aliadas da Segunda Guerra, em busca de financiamento para a indústria nacional.

Isso ia contra a vontade de Müller, caro ao Eixo. Na época, Müller era o maior torturador do país, comandante das operações que reprimiam a oposição a nível nacional.

Filinto Müller, Benedito Valadares e Apolônio Salles / Crédito: Reprodução

 

Em 1942, criou profundas desavenças no interior do governo ao proibir uma manifestação pró-Aliados da UNE, autorizada pelo Ministro da Justiça Vasco Leitão da Cunha. O ato foi grande e criou uma cisão que resultou no afastamento de Filinto Müller da chefia da polícia e entrada do torturador no ministério da Guerra de E. G. Dutra, como oficial de gabinete.

Pós-Ditadura e Ditadura

A partir de 1945, com a deposição de Getúlio Vargas, foi iniciado um processo de redemocratização. Nesse momento, o militar torturador ingressou no grupo político organizado por antigos interventores de estados do governo Vargas, articulando a fundação do Partido Social Democrático (PSD), que elegeu Juscelino Kubitschek em 1955.

Em 1947, foi eleito senador pelo Mato Grosso, e acabou sendo reeleito em 1955 e 1962. Destacou-se por sua atuação no Senado, principalmente após o governo Kubitscheck. Porém, voltaria a se envolver com Ditaduras após o golpe que derrubou Goulart em 1964.

Com a outorga do AI-2, filiou-se à ARENA, e conseguiu reeleger-se senador em 1970. Também acabou participado no desenvolvimento das forças repressivas dos Anos de Chumbo, sem o mesmo destaque que teve no Estado Novo.

Foi presidente do partido ARENA entre 1969 e 1973 e também presidiu o Senado, em apoio à Ditadura. Müller morreu em julho do mesmo ano, ainda Presidente do Senado, em uma situação trágica: no dia de seu aniversário, estava presente no acidente de avião que ocorreu em Paris e matou 123 pessoas.