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A “forte evidência” de que Lee Oswald não atirou em JFK

Embora alegasse ser apenas um "bode expiatório", Lee Oswald foi apontado como assassino de JFK. Quais provas sugerem isso?

Fabio Previdelli | @fabioprevidelli_ Publicado em 09/04/2022, às 00h00

Oswald sendo escoltado pela polícia em 22 de novembro de 1963
Oswald sendo escoltado pela polícia em 22 de novembro de 1963 - Getty Images

Em 24 de setembro de 1964, a Comissão Warren apresentou suas conclusões sobre o assassinato de Jonh Fitzgerald Kennedy, 35º presidente dos Estados Unidos que havia sido morto em 22 de novembro de 1963, enquanto desfilava com a primeira-dama Jacqueline Kennedy em uma limusine aberta pela Dealey Plaza, em Dallas, no Texas.

Segundo o relatório, três disparos foram feitos a partir de uma janela do sexto andar do Texas School Book Depository, sendo Lee Harvey Oswald o único autor deles. Além do mais, uma mesma bala teria ferido o presidente no pescoço e atingido também o governador do Texas John Connally.

Entretanto, Oswald nunca teve a chance de se defender. Alegando ser apenas um “bode expiatório”, o ex-fuzileiro naval, que havia desertado para a União Soviética, foi baleado a sangue frio enquanto era transferido sob custódia policial da cadeia municipal para a cadeia estadual. 

Momento em que Jack Ruby atira em Lee Harvey Oswald / Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

Porém, quando o Comitê Seleto da Câmara sobre Assassinatos (HSCA) revisitou o caso, na década de 1970, várias inconsistências foram encontradas sobre as conclusões da Comissão Warren. Com a alegação de que as investigações foram prejudiciais demais, cerca de 500 mil relatórios deveriam permanecer trancados até 2029.

Mas a aprovação do Ato dos Registros de John Kennedy, em 1992, liberou cerca de 98% destes arquivos de imediato. Cerca de 2 bilhões de páginas de relatórios e artefatos foram coletadas, sendo que todos estão disponíveis para acesso público no Arquivo Nacional de Maryland.

Já em 2017, o então presidente norte-americano Donald Trump autorizou a publicação de mais 2.891 relatórios confidenciais — sendo que outros 200 ainda permanecem guardados.

Esses novos arquivos foram usados pelo diretor Oliver Stone, famoso por abordar o assassinato de John Kennedy no clássico ‘JFK: A Pergunta Que Não Quer Calar’ (1991), para elucidar o que realmente aconteceu em 1963 e trazer novas respostas em seu novo documentário: ‘JFK Revisited: Through the Looking Glass’ (2021)

Os testes balísticos

Um dos pontos apresentados na produção de Stone é que os testes balísticos da chamada “teoria da bala única” — que apontou que um único disparo causou sete feridas diferentes em duas vítimas (Kennedy e Connelly) — jamais provaram o ponto de vista de Arlen Specter

Outro ponto, ainda mais surreal, é que nem mesmo existe uma certeza em relação ao rifle usado por Lee Harvey, um fuzil Carcano. À época, conforme aponta o documentário de Stone, Specter foi irredutível em relação ao assunto: "Sabemos que Oswald era dono daquele rifle porque ele tem uma foto com o rifle na mão e a esposa dele disse que era ‘o fiel rifle de Lee Oswald’”.

Mas a grande questão é: o rifle que a Comissão disse pertencer à Oswald era o mesmo que ele havia adquirido em uma revista?

Conforme explicou Brian Edwards, instrutor de Justiça Criminal na Washburn University e coautor de 'Beyond The Fence Line: The Eyewitness Account of Ed Hoffman and the Murder of President Kennedy’, o rifle que Oswald havia comprado em uma revista, sob o codinome Alex Hidell, foi enviado pela loja Klein’s, em Chicago. 

Ele comprou na revista ‘American Rifleman’. No pedido, ele escreveu que queria um modelo 90 cm, Carcano, de munição 6.5mm, por US$19,95”, relata Edwards

Entretanto, Robert Franzier, um dos examinadores e especialistas em arma de fogo no FBI, testemunhou que mediu o rifle: o objeto tinha 1 metro de comprimento de uma ponta a outra. O que representa uma diferença de 10 centímetros. 

Mas as divergências não param por aí. Considerando que a loja, por qualquer motivo que seja, tenha entregado um modelo diferente para Lee Harvey, outra questão chama a atenção. 

O modelo que Oswald comprou mostra que os ganchos para prender a alça ficam na parte de baixo do cano e da coronha”, aponta o instrutor de Justiça Criminal.

“O tenente Carl Day está na foto com a polícia de Dallas segurando o rifle achado no depósito de livros. Uma das alças na parte de trás do rifle está à esquerda da coronha e embutida nela. Claramente não é o rifle comprado”, ressalta. “O modelo nem existe na revista da loja Klein’s”.

Além do mais, nas fotos que a esposa de Oswald, Marina Nikolayevna Oswald Porter, tirou dele, onde o ex-fuzileiro aparece em um quintal segurando um rifle e com uma pistola na cintura, é possível ver a exata posição dos ganchos. 

Este, aliás, não é o único segredo que guarda as fotos. Segundo aponta Edwards, a Comissão Warren alega que Marina fez três registros do amado. “Nas fotos 133A e 133B, ele está com um anel no dedo anelar da mão direita”. 

Imagem CE 133-A, uma das três "fotos de quintal" conhecidas/ Crédito: Marina Oswald/Domínio Público via Wikimedia Commons

Já na foto 133C, o anel de Lee Harvey aparece na mão esquerda. “A polícia de Dallas mostrou uma das fotos para Oswald enquanto ele estava sob custódia. E ele disse: ‘É o meu rosto, mas eu não me lembro de ter tirado essa foto’”, continua Brian

A grande questão de toda essa história é: por que usar um rifle para assassinar um presidente americano sabendo que toda a documentação da arma levaria até você?

Durante anos, debateu-se que Lee Harvey queria ser 'lembrado na história', que ele fazia questão de aparecer e ser mostrado como o cara que pôs fim a um dos presidentes mais populares da história americana. 

Mas o fato é, segundo apresentado por Stone, que não há indícios sequer de que o ex-fuzileiro usou aquela arma para matar JFK. Conforme revela o instrutor de Justiça Criminal, à época, o melhor especialista em digitais do FBI foi chamado para avaliar a arma do crime. Tratava-se de Sebastian Latona

“Latona pegou o rifle e tentou encontrar impressões no cano ou na coronha”, aponta Edwards. Porém, em seu testemunho para a Comissão Warren, afirmou que não tinha encontrado nenhuma marca em pontos fundamentais do rifle, como no cano ou na coronha. 

A informação ia contra o relatório do tenente Day, que disse que, enquanto o rifle estava em Dallas, antes de ir para Washington, havia encontrado “uma impressão parcial de palma no guarda-mato e uma digital parcial no cano”. 

Mas Sebastian Latona disse que não havia evidência de que sequer tivessem examinado o rifle. Nada que ele pudesse usar no tribunal. É preciso ter 8 pontos de identificação. Ele não achou nada que levasse a isso”, completa Brian

Alguém avistou Lee Harvey Oswald no local do crime?

Após JFK ter sido alvejado, a versão oficial do caso aponta que Lee Harvey deixou a arma de lado e desceu correndo 5 lances de escada do Texas School Book Depository. Mas existem testemunhas que viram Oswald saindo do local?

Sabe-se que o atirador estava em um andar sem movimento algum, onde não haviam testemunhas, visto que a maioria dos funcionários do local ficavam nos andares mais abaixo. 

Segundo relatou a Comissão, Lee Harvey foi detido pelo oficial Marrion Baker no segundo andar do prédio, mas funcionários confirmaram que ele trabalhava lá e Oswald foi liberado do local do crime.  

Texas School Book Depository/ Crédito: JFK.org

É então que entra em ação o autor Barry Ernest, que escreveu o livro ‘The Girl on the Stairs: My Search For A Missing Witness To The Assassination of John F. Kennedy’, que se dispôs a encontrar a suposta testemunha que avistou o ex-fuzileiro e confirmou ao oficial que ele trabalhava lá. 

Para saber mais detalhes deste dia, Barry foi atrás do testemunho original de Victoria Adams, que trabalhava no quarto andar do depósito de livros, guardado nos registros do Arquivo Nacional. Para sua surpresa, a fita com seu relato tinha desaparecido.

“Depois soube que aquela fita havia sido destruída pela Comissão Warren. Até que, enfim, eu encontrei Vicki e ouvi o lado dela da história”, celebra Ernest. “Ela testemunhou que, logo após o assassinato, ela desceu correndo pela escado dos fundos para ver o que tinha acontecido lá fora. Se isso for verdade, ela teria visto Oswald".

Mas Adams aponta que jamais ouviu alguém naquele dia. A funcionária também relatou que sentiu algo errado ao dar sua versão do ocorrido, já que ninguém parecia acreditar no que ela falava. “Então ela disse a David Belin [advogado da Comissão Warren] que estava interrogando-a: ‘Entrevista Sandra Styles, uma colega que desceu as escadas comigo”, aponta o autor. 

Barry revela que isso virou uma grande dor de cabeça para a Comissão, visto que poderia até ser fácil desacreditar uma testemunha, mas fazer isso com duas pessoas era algo extremamente difícil. Belin então teria respondido à Vicki: “Não precisamos de Sandra Styles, nós temos você”.

O testemunho oficial de Adams ao FBI aponta que ela saiu da janela do quarto andar cerca de 15/30 segundos após o assassinato. “A Comissão Warren aumentou esse tempo para um minuto”, pontua Ernest. Já para chegar ao primeiro andar, ela declarou que levou cerca de 60 segundos, relato que a Comissão mudou para “vários minutos”.

Barry explica que, com isso, a Comissão Warren conseguiu cumprir seu objetivo: “fazer acreditar que Vicki era só uma testemunha confusa”. 

Por fim, o escritor finaliza que, em 1999, encontrou no Arquivo Nacional um documento crucial que havia ficado adormecido por 35 anos. Em uma carta, a procuradora assistente Martha Jo Stroud encaminhou o testemunho de Vicki para os cuidados de J. Lee Rankin, que na época chefiava as investigações da Comissão Warren. 

“No último parágrafo da carta, quase que como um comentário final, ela [Victoria Adams] mencionava uma mulher chamada Dorothy Garner [sua supervisora que estava junto com ela quando os disparos aconteceram”, aponta o Ernest. “A carta fala que Garner disse ter visto Vicki descer a escada antes de ver o policial Baker e Roy Truly subirem”.

Barry conta que conseguiu entrevistar Dorothy pouco depois e ficou impressionado com o que ela relatou, confirmando a versão dada pela funcionária.

Além do mais, Garner aponta que, no meio tempo em que Vicki saiu, e Baker e Truly chegaram, ela não viu Lee Harvey em momento algum.“Então, a carta de Stroud virou um documento muito perigoso para a Comissão Warren”, concluiu Barry Ernest.

Sem o processo de liberação, feito pelo Conselho de Revisão, nós nunca saberíamos do testemunho dessas três mulheres, que fornece uma forte evidência de que Oswald não estava no sexto andar na hora dos disparos”.

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