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Freira e preferida do rei: a particular trajetória de Madre Paula

A noviça era próxima de D. João V, com quem viveu um amor avassalador nas redondezas de um convento português

Vanessa Centamori Publicado em 17/05/2020, às 08h00

Representação de Madre Paula
Representação de Madre Paula - Divulgação

Quando pensamos em um convento, a primeira coisa que provavelmente vem em mente é a vida religiosa, de reclusão e dedicação à Igreja. Porém, durante o reinado de D. João V de Portugal (1689-1750), não era bem assim: as instituições religiosas, sob sigilosas quatro paredes, eram sinônimo de devassidão para os homens poderosos da corte, da nobreza - e até do clero.

Os nobres camaradas não queriam orar, mas sim, buscar satisfação sexual. Por outro lado, as freiras eram guiadas por desejos repreendidos, os quais não incluíam apenas o sexo, mas também a vontade de ter poder. A visita de homens poderosos simbolizava justamente isso - e foi nessa tentação que caiu a noviça Paula Teresa da Silva e Almeida. 

Ingresso no convento do pecado

Em 31 de Janeiro de 1717, uma adolescente de família pobre, Paula, foi enviada pelo pai ao Mosteiro de São Dinis, em Odivelas, a 15 quilômetros de Lisboa, controlado pela Ordem das Bernardas de Cister.

Ela embarcou na jornada religiosa junto de suas duas irmãs, embora nenhuma delas tivesse vocação. Nesse caso, assim como no de muitas outras freiras, os pais enviavam aos conventos as filhas mais namoradeiras ou que estavam dando mais dores de cabeça para os familiares.

Mosteiro de São Dinis, em Odivelas / Crédito: Wikimedia Commons 

 

O pai de Madre Paula também não tinha dinheiro para pagar dotes de casamento nem boa educação às filhas, então não teve outra escolha senão entregá-las à religião. Mas mal ele sabia que as suas preciosas meninas estariam adentrando um território longe de ser puro ou educacional. 

Interessados em sexo, nobres, aristocratas, poetas e músicos apareciam no mosteiro em Odivelas com pretextos diferentes. Diziam que iam assistir festejos ou reuniões culturais. Só que, na verdade, proferiam poesias para arrasar o coração das beatas.  

“As rimas dos galãs eram pagas com vinhos e licores, doces e olhares concupiscentes. Amiúde as irmãs se deixavam enlear, perdendo a compostura, entregando-se a desvarios pelas muitas penumbras conventuais”, escreveu o autor César Príncipe, no livro Ementas do Paraíso (2005). 

Corredores do Mosteiro de São Dinis, em Odivelas / Crédito: Wikimedia Commons 

 

O desejo floresce 

Madre Paula conheceu o primeiro amor de sua vida no convento. Era ele o conde de Vimioso. Porém, foi com o rei português D. João V que ela viveu o seu caso mais avassalador e duradouro. 

O monarca esteve em Odivelas na festa do Desagravo do Santíssimo Sacramento, que ocorreu em 11 de maio de 1718. Depois, voltou ao local durante a comemorativa ao casamento de um nobre, no dia 23 de outubro daquele mesmo ano.

Em uma dessas ocasiões, o rei conheceu Madre Paula. A irmã já mantinha um relacionamento com o D. Francisco de Paula de Portugal e Castro, 8º Conde de Vimioso. O rapaz namorador então passou a ser rival de D. João V.

"Reza a tradição, mais lendária que histórica, que o rei (…) enamorado de Paula Silva à primeira vista (…) teria dito ao conde de Vimioso que lhe dava duas freiras à escolha se ele deixasse o objeto do seu desejo”, contam Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni, no livro Amantes dos Reis de Portugal (2008). 

D. João V, de Portugal / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Madre Paula acabou tendo um filho com o monarca, D. José, que nasceu em 1720. O rapaz se tornou mais tarde Inquisidor-Mor do Reino. Como ocorria com várias noviças, a irmã tornou-se uma mulher muito rica, devido aos privilégios e pensões que recebeu do amante. O pai da freira, inclusive, virou cavaleiro professo da Ordem de Cristo - uma enorme honra da época.

Encontros românticos

Especialmente para encontrar a amada, D. João V montou uma casa de luxo próxima ao convento. A construção foi batizada de Torre da Madre Paula, local demolido em 1948, por riscos de desabamento. Entre as finezas do imóvel, estavam nove criadas, uma banheira de prata maciça, cortinas com bordados de ouro e vidros vindos da Boêmia. A noviça usufruiu de tudo isso com duas de suas irmãs freiras. 

Porém, Madre Paula não se interessava somente pelos bens materiais do monarca, mas demonstrava também grande afeto por ele. “A Paula amava o rei, loucamente. Não só por ser rei; amava a pessoa que ele era – um homem culto, que a fascinava”, diz Joana Ribeiro, atriz que interpreta a freira na série Madre Paula – Mulher de Deus, Amante do Rei.

Cena da série Madre Paula – Mulher de Deus (2017) , que mostra a freira com o rei D. João V/ Crédito: Divulgação 

 

A irmã recebia D. João V com vários doces à mesa, entre os quais quadrados de pudim, que levavam marmelo e tinham consistência delicada, porém pastosa. Hoje, o doce, que era nada mais do que marmelada branca, virou atração turística no município de Odivelas. 

O convento localizado na cidade portuguesa foi fundado pelo rei D. Dinis, como pagamento de uma promessa. Ali e em várias outras comunidades religiosas de Portugal, irmãs se envolveram com visitantes interessados em vínculos carnais. Segundo a Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, 20 freiras foram condenadas por esses delitos amorosos, na primeira metade do século 18.

A noviça Paula, por outro lado, se deu bem e viveu sumptuosamente, mesmo depois que D. João V morreu, aos  67 anos. Uma das representações mais conhecidas da freira é o quadro Madre Deus, do acervo do Palácio do Correio Velho, de Lisboa. Na pintura, no lugar de São José, aparece o rei, e em vez da Virgem Maria, está Madre Paula. O filho deles está deitado no leito, como se fosse o Menino Jesus.


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