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Freiras pecadoras: as heresias no convento Sant'Ambrogio

Localizada em Roma, a instituição foi palco para diversas transgressões cometidas por clérigas e noviças no século 19

Pamela Malva Publicado em 18/03/2020, às 19h00

Imagem meramente ilustrativa de pecado por Adolf Echtler
Imagem meramente ilustrativa de pecado por Adolf Echtler - Wikimedia Commons

Em meados dos anos 1500, a Igreja de Sant'Ambrogio della Massima foi construída e fundada em homenagem ao Santo Ambrósio. Erguida pelos beneditinos, ela sofreu diversas alterações até ser abandonada durante a ocupação napoleônica de Roma.

A estrutura só foi recuperada e restaurada em 1814, por ordem do Papa Pio VII. Nesse momento, a igreja passou a ser um convento exclusivamente feminino habitado por freiras franciscanas.

No local, construído em solo santificado, teoricamente onde Santo Ambrósio viveu, o convento foi palco de diversas polêmicas. Muitas delas, denunciadas durante a Santa Inquisição, em 1860, foram mantidas em segredo pelas autoridades eclesiásticas.

Todos os documentos, entretanto, foram redescobertos pelo Papa João Paulo II, em 1998. Foi a partir de tais textos que Hubert Wolf, professor de história eclesiástica na Universidade de Münster, na Alemanha, escreveu o livro As Freiras de Sant'Ambrogio.

Pintura de Santo Ambrósio / Crédito: Wikimedia Commons

 

Na obra, ele descreve as descobertas feitas por Katharina von Hohenzollern-Sigmaringen, uma princesa recém-admitida como noviça no convento, em meados de 1810. Aos 41 anos, a dama rica, devota e duas vezes viúva entrou para a instituição — e ficou espantada com o que encontrou.

Entre pinturas sagradas e cantigas pronunciadas ao vento, o convento Sant'Ambrogio era povoado por transgressões hetero e homossexuais, heresias eclesiásticas e abusos tanto sexuais, quanto psicológicos. Sem contar os quase homicídios.

Uma vez dentro do convento, Katharina não aceitou as polêmicas que preenchiam os corredores e usou de suas conexões de burguesa para contatar o juiz investigador da Inquisição Romana. Muitas dessas denúncias foram abordadas pelo livro de Hubert.

Para começar, Katharina descreveu os escândalos sexuais e tentativas de assassinato entre as paredes sagradas do convento. Segundo a princesa, Maria Luísa, a mestre das noviças, era a maior herege do lugar, mas era só a ponta do iceberg.

Pintura de Maria Luísa / Crédito: Divulgação

 

Aos 27 anos, Maria Luísa era tratada no convento como uma santa viva, dona de diversos poderes milagrosos. Seu passado, todavia, não tinha nada de abençoado: quando tinha 13 anos, ela foi abusada sexualmente por uma abadessa.

Quando assumiu o posto de liderança no Sant'Ambrogio, portanto, ela adquiriu uma postura bem diferente do esperado e, segundo Katharina, chegou a levar noviças para a própria cama. E os relacionamentos homossexuais não eram os únicos no local.

Por vezes, as noviças, principalmente a princesa, testemunharam supostas relações amorosas entre as freiras e os padres. Além disso, outras transgressões denunciadas incluíam beijos e outros atos sexuais no ritual da imposição das mãos.

O pior veio quando as acusações de Katharina vieram à público. Diversas entidades franciscanas ficaram furiosas e a princesa noviça foi alvo de múltiplas tentativas de envenenamento. Ela, contudo, seguiu com as denúncias.

Em 1816, Maria Agnese Firrao, a abadessa fundadora do Sant'Ambrogio foi condenada pelo crime eclesiástico de falsa santidade — por fingir ser uma santa.Pela acusação, ela foi removida do posto, afastada do convento e presa.

Pintura representando o ato do pecado / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ainda assim, Maria comandava as freiras e as noviças através de cartas contrabandeadas por suas seguidoras. Quarenta anos mais tarde, já durante a Inquisição, as freiras continuavam venerando sua abadessa.

Quando as investigações começaram a ser feitas, as mulheres do convento foram afastadas do local e Maria Luísa foi colocada em isolamento forçado. Ela desapareceu dos registros em 1872. Ao final da Inquisição, padres foram punidos de forma leve, enquanto freiras eram castigadas com severidade.

No final, o convento, que ficava a um quilômetro do palácio do Papa Pio IX em Roma, foi entregue pelo próprio clérigo a um grupo de monges beneditinos. Com a igreja em mãos, eles transformaram o antigo Sant'Ambrogio em uma universidade missionária.

Hoje, a igreja reformada é uma instituição abacial e faz parte da paróquia de Santa Maria in Portico in Campitelli. Grande parte do seu passado foi apagado quando grande parte da basílica ruiu, em 1862. As memórias de Katharina, todavia, trouxeram de volta, através do livro de Hubert, os escândalos que foram silenciados na época.


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