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"Fuera Madonna": Como a rainha do pop enfureceu argentinos ao interpretar Evita

Apesar de ganhar o Globo de Ouro, pessoas apaixonadas pelo legado de Eva Perón não gostaram nada da escolha principal do longa

Wallacy Ferrari, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 25/04/2021, às 00h00

Madonna interpreta evita (esq.) e pichação em trecho do making of (dir.) em montagem
Madonna interpreta evita (esq.) e pichação em trecho do making of (dir.) em montagem - Divulgação / YouTube

Em 1996, uma grande produção hollywoodiana retratando uma das figuras femininas mais importantes da História foi anunciada com uma surpresa ainda maior.

Madonna faria sua estreia como protagonista de um longa-metragem encenando a vida de Eva Perón num roteiro adaptado de seu criticamente aclamado musical.

Evita foi primeira dama da Argentina durante o mandato do presidente Juan Perón, chegando a se candidatar a vice-presidente e recebendo apoio da população mais pobre, mas falecendo precocemente aos 33 anos, vítima de um câncer.

A cantora pop tinha pouco mais que isso quando as gravações iniciaram. Com 37 anos, começaram a filmar a obra em fevereiro daquele ano.

Após longas negociações, gravações foram realizadas entre a Hungria e Londres, porém, em uma solicitação do diretor Alan Parker e da própria cantora, o então presidente argentino Carlos Menem autorizou as gravações em localizações na Argentina, incluindo a Casa Rosada, como revelou a Folha Ilustrada. O problema, no entanto, partiria dos próprios admiradores da figura original.

Pichação sob passarela na Argentina pede respeito por Evita e fora de Madonna / Crédito: Divulgação / Alan Parker

 

“Respeite Evita”

Antes da cantora, a atriz Maryl Streep e Michele Pfiffer recusaram o papel, como revelou o jornalista Roger Ebert na época. Para suprir a atuação com classe, Madonna ainda aperfeiçoou o canto e fez aulas de atuação — mas não foi suficiente para os peronistas mais fanáticos, que associaram a imagem da ‘fase Erotica’ da cantora com perversidades e excentricidades incompatíveis com a de Evita.

Com medo de uma representação desonrosa, a equipe e elenco foram recebidos na Argentina com vaias e pichações por toda a cidade, sendo a maior delas próxima ao aeroporto de Buenos Aires, como relatou o diretor Alan Parkerem seu blog pessoal.

“Todas as paredes estavam cobertas com graffitis gigantes proclamando “Fuera Madonna”. Eram enormes placas coloridas com letras pintadas de três metros de altura, estendendo-se por 12 metros em cada ponte sob a qual passamos”, disse Parker. Além das críticas com palavrões contra a cantora, as pichações acompanhavam "Viva" ou "Respeite Evita!".

Em coletiva de imprensa no hotel em que se hospedou, a loira se defendeu: "Não posso dizer que não me afetaram, mas a verdade é que creio que os comentários negativos são baseados em coisas que as pessoas não sabe. Recomendo a todos que formem uma opinião após ver o filme", registrou em documentário produzido pela MTV latino-americana.

Madonna na varanda da Casa Rosada durante personificação de Evita / Crédito: Divulgação

 

Legado da obra

Apesar de durar poucos dias, as gravações no país sul-americano foram concluídas sem problemas, tendo a cena do palácio oficial do presidente realizada em dois dias, podendo ser concluída na Europa. Então vice-presidente da Argentina, Carlos Ruckauf, usou a saída para fortalecer um boicote ao filme, afirmando que “era melhor ficar em casa” do ver um “insulto à memória de Eva Peron”.

Em entrevista à Folha, pouco antes do lançamento da obra, a biógrafa Alicia Dujovne Ortiz, responsável pela obra “Eva Perón - A Madonna dos Descamisados”, comentou a reação dos mais fanáticos.

“Na Argentina, basta um pequeno grupo de fanáticos gritar forte para parecer que o povo argentino está todo furioso. Não foi assim. Acredito que o povo argentino de hoje tenha outros problemas muito mais concretos”, disse a escritora.

Mesmo com boicote e críticas, a aversão não foi capaz de interromper as críticas positivas e a arrecadação de US$ 141 milhões em bilheteria — além de, no ano seguinte, ser condecorado com o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical para Madonna.


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