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“Fui recebido por Carlos Alberto Brilhante Ustra”, relembra Adriano Diogo, torturado na ditadura

Em entrevista exclusiva ao site do Aventuras na História, ex-presidente da Comissão da Verdade relata como foi sua prisão

Fabio Previdelli Publicado em 31/03/2021, às 09h50

Adriano Diogo (esq.), aos 18 anos,  durante passeata em São Paulo, em 23 de julho de 1968
Adriano Diogo (esq.), aos 18 anos, durante passeata em São Paulo, em 23 de julho de 1968 - Divulgação/ Arquivo Pessoal

Na madrugada entre 31 de março e 1º de abril as primeiras movimentações militares começam. Em poucas horas, um Golpe Militar derrubaria do poder o presidente eleito democraticamente João Goulart

Começava ali um período de angústia e sofrimento, que dominaria o Brasil por 21 longos anos, de 1964 até 1985. Durante essas pouco mais de duas décadas, 5 militares comandaram o país e 16 atos institucionais — mecanismos que se sobrepunham à constituição — entraram em vigência, o que resultou em centenas de pessoas torturadas, assassinadas e desaparecidas. 

Somente em 2011, 47 anos após o Golpe, a Comissão Nacional da Verdade foi fundada pela então presidente Dilma Rousseff, que tinha como objetivo investigar as graves violações de direitos humanos ocorridas na época. 

Um relatório final, divulgado três anos depois, apontou que 191 pessoas foram assassinadas e outras 243 desapareceram durante o Golpe, totalizando 434 vítimas, que podem ter seus nomes consultados no portal Memórias da Ditadura.  

Além delas, a organização internacional não governamental Human Rights Watch, apontou que aproximadamente 20 mil pessoas foram torturadas entre esses 21 anos.  

“Eu fui preso quando eu era aluno de Geologia da USP, em 17 de março de 1973”, relata Adriano Diogo, que posteriormente presidiu a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, em entrevista exclusiva ao site do Aventuras na História.  

Foto da ficha de Adriano Diogo / Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal

 

Segundo Adriano, os militares nunca explicaram exatamente o motivo dele ter sido detido, embora muitos tenham lhe dito que era porque ele pertencia ao movimento estudantil.

“Quando o cara te prende, como aquelas circunstâncias que eu fui preso, não tinha nenhum tipo de explicação e a acusação é que eu era ligado ao Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP. Então, eu podia ter relação com organizações revolucionárias armadas. Mas eu não cheguei nem a ser condenado por isso”, conta.  

“Eu fui preso no dia 17 de março, às 11 horas da manhã, na minha casa, no meu pequeno apartamento na Mooca, onde eu morava com a minha esposa, Arlete”, revela Diogo, que conta que os militares estavam escondidos dentro de um caminhão da Folha de São Paulo. “Eles saíram, invadiram meu prédio, me prenderam. Fui jogado num porta-malas de um Opava Verde, em virtude da Operação Bandeirantes”. 

O encontro com Carlos Alberto Brilhante Ustra 

Segundo Adriano, ele foi encapuzado e, depois, enquanto era levado ao Destacamento de Operações de Informação — Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), era constantemente agredido pelos militares. “Chegando lá, passei por um corredor polonês antes de ser recebido pelo então coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Naquela época ele ainda era Major”, relembra.  

Antes de ser preso, Adriano conta que um de seus colegas de classe na Geologia da USP, Alexandre Vannucchi Leme, também tinha sido capturado pelos militares. “Ele [Ustra] falou que meu colega de classe, Alexandre, tinha acabado de morrer. Ele morreu lá dentro das dependências do DOI-CODI, na cela-forte. Me contou que estava estrebuchando em sangue”. 

Carlos Alberto Brilhante Ustra/ Crédito: Dida Sampaio

 

“Ustra me disse que havia mandando o Alexandre para a Vanguarda Popular Celestial, ou seja, que tinha mandado ele para o céu e que eu iria ter o mesmo destino que ele”, narra.

Diogo explica que, após isso, o corpo de seu colega foi enrolado em um tapete e colocado dentro do porta-malas de um carro. “Depois, eles jogaram o carro com o corpo dele na rua João Boemer e, posteriormente, apresentaram a versão de suicídio”. 

Seu papel na Comissão da Verdade 

Adriano Diogo ficou preso durante 90 dias, incomunicável, sozinho numa cela-forte, durante a Operação Bandeirantes. “Depois que eu sai da Operação Bandeirantes (Oban), eu fui mandado para o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), onde eu fiquei preso por mais uns 45 dias. Passei pelas mãos do delegado Sérgio Paranhos Fleury”. 

“Depois eu fui para o Presídio do Hipódromo, e fique preso lá. Quando eu saí, eu voltei para a Geologia, peguei meu diploma, fui exercer minha profissão e desde o dia que eu saí da prisão, eu nunca mais parei de lutar contra a ditadura; pela preservação dos direitos humanos; pelos outros presos que ficaram nas prisões; pelos assassinatos que ocorriam contra a juventude na periferia”, completa Adriano. 

Manifestação contra a ditadura militar no Brasil/ Crédito: Domínio Público

 

Para Diogo, presidir a Comissão da Verdade, anos depois, foi um dos mais importantes momentos de sua vida. “Tenho muito orgulho, foi um dos trabalhos mais significativos da história do Brasil”, comemora. 


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