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Ganga Zumba: conheça o primeiro líder dos Palmares

Os acordos com o Reino de Portugal feitos pelo unificados do quilombo foram mal vistos por muitas lideranças negras — inclusive Zumbi

André Nogueira Publicado em 16/06/2020, às 13h00

Ganga Zumba interpretado por Antonio Pitanga
Ganga Zumba interpretado por Antonio Pitanga - Copacabana Filmes

Por mais que haja indícios da presença de quilombos na Serra da Barriga desde a década de 1580, o núcleo articulado formando o famoso Quilombo dos Palmares nasceu no século 17, com a estruturação de um Estado negro por escravos fugidos de engenhos na Capitania de Pernambuco, liderados pelo nobre africano Ganga Zumba. Nomeado Grande filho do Senhor, esse poderoso chefe congolês e considerado o primeiro governante propriamente dito de Palmares, e tio de Zumbi.

Filho da importante princesa Aqualtune, que liderou a Janga Angolana (Palmares) na luta contra a escravidão, e, portanto tinha herança dos reis do Congo. Ganga nasceu também no Reino do Congo, foi capturado em guerra e vendido como escravo no Brasil. Articulado como a mãe, também organizou um movimento de fuga dos engenhos da região e se refugiou em Palmares, onde herdou as habilidades de liderar da rainha.

Quando Zumba assumiu a posição de liderança dos mocambos que formavam a Janga, ele deu início a uma articulação centralizada e organizada dos núcleos de resistência, criando assim um único quilombo, que ficou conhecido como Quilombo dos Palmares, nas montanhas pernambucanas (atualmente, Alagoas). Foi nomeado seu primeiro rei (ganga), eleito pelas unidades políticas que formavam a rede.

Assumindo o título de Ganga Zumba, a partir do título kimbundu de Grande Lorde, ele deu início a um governo centrado e envolvendo todas as partes do quilombo como corpo único de uma espécie de “nação de origem angolana”, coisa que não era vista em lideranças anteriores. Seu comando ficou sediado nas vilas maiores e mais centrais da região, o Cerro do Macaco, e chefiava um conselho de chefes de mocambos. Como uma espécie de rei, ele articulou uma administração dos mocambos menos centrais.

Mapa da Capitania de Pernambuco, com representação de Palmares / Crédito: Divulgação

 

Para esses subgovernos foram indicados seus irmãos e parentes próximos, numa malha política nobiliárquica, que envolveu seus sobrinhos brasileiros: Zumbi e Andalaquituche. Sua moradia, uma espécie de palácio com 1.500 casas, era também local de cerimônias e de vivência de muitos parentes, núcleos próximos de súditos, ministros e suas três esposas. Era o centro da administração de Palmares, e de onde muitas negociações de paz com estrangeiros vieram.

Ganga Zumba foi o principal responsável por um reinado de pacificação entre Palmares e a Coroa Portuguesa, realizando uma série de acordos (alguns deles envolvendo o retorno de negros fugidos para fazendas onde eram escravos) pela trégua entre africanos livres e lusitanos. Isso gerou certa independência de Palmares em relação à colônia brasileira, mas era mal visto por alguns dos membros de sua corte, principalmente Zumbi.

As articulações de Ganga Zumba incluíam correspondências trocadas com o governador de Pernambuco e o Vice-Rei, que renderam paz até a década de 1670. Porém, os interesses dos engenhos da região iam contra um apaziguamento das relações com aquela nação de escravos fugidos e, pressões políticas levaram à articulação de um ataque contra Palmares em 1677.

Naquele ano, um administrador colonial e futuro Governador do Maranhão, Fernão Carrilho, comandou uma guerra contra o quilombo, que levou à morte de Zambi e Acaiene, filhos de Ganga Zumba, e à prisão e escravidão de quase 50 palmarenses. O ataque forçou o rei a retomar negociações com a administração pernambucana, oferecendo um novo acordo de paz.

Zumba e seu irmão, Ganga Zona, comandaram uma equipe diplomática que chegou a um acordo que abrigava os portugueses, liderados pelo governador Pedro de Almeida, a cessar o fogo contra Palmares em troca de uma migração dos núcleos de habitação do quilombo da Serra da Barriga para o Vale do Cacaú. Com isso, mais alguns anos de tranquilidade com o Reino de Portugal foram garantidos, e os monarcas se mudaram para a região.

Estátua de Ganga Zumba em Alagoas / Crédito: Wikimedia Commons

 

Porém, a atuação dos irmãos foi considerada por muitos líderes de Palmares como traição, e o sobrinho de Ganga Zumba, Zumbi, se revoltou contra a mobilização arbitrária dos negros livres e a favor de uma resistência mais violenta contra os revezes portugueses — marca da administração de Zumbi mais tarde.

Em meio à revolta de Zumbi contra a decisão do tratado de paz, um partidário do sobrinho ofereceu um licor envenenado para Ganga Zumba, levando-o à morte e criando um espaço de ascensão a um novo rei. Inicialmente, Ganga Zona teria assumido, mas seu programa de pacificação que envolveu a fuga para o Vale do Cacaú criou instabilidades para seu poder. Com isso, Zumbi foi indicado como novo Ganga de Palmares, assumindo com a proposta de resistir incondicionalmente e criar total emancipação do Quilombo.


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