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Otto Rahn: Gay, antinazista e filho de judeus juntou-se à SS para procurar o Santo Graal

Conheça o arqueólogo, o Indiana Jones da vida real, que pagaria com a vida por sua obsessão

Paula Lepinski Publicado em 31/05/2019, às 10h00

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Homossexual. Anti-nazista. Possivelmente judeu - ainda que ele próprio não soubesse. Esse foi Otto Rahn, arqueólogo que levou sua obsessão pelo Santo Graal às últimas consequências, traindo tudo o que acreditava.

Rahn nasceu na Alemanha em 1904 e formou-se na Universidade de Giessen. Tinha como inspiração o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann, conhecido por se basear na Ilíada para encontrar as verdadeiras ruínas de Troia na costa oeste da Turquia.

O cálice sagrado

O Graal, para quem precisa de apresentações, foi a suposta taça usada por Jesus Cristo durante a Última Ceia. Com que secretamente José de Arimateia teria recolhido seu sangue na Cruz. Na Bíblia, José é quem empresta sua sepultura para o messias, sem nenhuma menção a qualquer cálice.

Obcecado desde cedo, Rahn decidiu se debruçar sobre lendas e mitos para tentar localizar a taça. O mais importante foi o poema Parzival, escrito por Wolfram von Eschenbach no século XIII. O épico narra a busca de Percival, o cavaleiro da Távola Redonda.

Crédito: Reprodução

 

Conspiração medieval

O poema fez Rahn acreditar que os cátaros, seita cristã medieval condenada pela Igreja Católica, eram a chave para encontrar a taça.

Algumas pessoas acreditavam que, em 1244, antes dos cátaros serem dizimados pela Cruzada Albigense, três cavaleiros da seita conseguiram escapar do Castelo de Montségur, na França. Eles levaram consigo alguns tesouros, entre eles a taça sagrada.

No verão de 1931, Rahn chegou ao Castelo de Montségur para investigar. Encontrou apenas um complexo de cavernas que os cátaros usaram como uma catedral subterrânea. Sem perder as esperanças, publicou o livro Kreuzzug Gegen den Gral ("Cruzada contra o Graal"), no qual expunha suas teorias.

Berlim - 7 Prinz Albrechtstrasse

Rahn não esperava que seu livro atrairia a atenção de um dos homens mais importantes de Hitler. Em 1933, ele recebeu um telegrama tentador - continha uma proposta para continuar a sua busca pelo Santo Graal, escrever uma sequência para o seu primeiro livro e receber em troca 1.000 reichsmarks por mês (equivalentes a cerca de R$ 15 mil em valores atuais). Bastava ele ir ao endereço 7 Prinz Albrechtstrasse, em Berlim.

Ao chegar lá, Rahn deu de cara com Heinrich Himmler, comandante militar da SS. E descobriu que o comandante era tão obcecado pelo Graal quanto ele.

Himmler ao lado de Hitler / Crédito: Reprodução

 

Em 1936, Rahn finalmente cedeu à pressão e juntou-se à SS. Tornou-se um oficial não-comissionado. A partir desse momento, encontrar o Santo Graal deixou de ser um sonho particular com remotas chances de dar certo, era uma missão da SS e Rahn precisava mostrar resultados. Viajou para a França, a Itália e até a Islândia, mas não encontrou nada que o levasse à taça sagrada.

Em 1937, publicou Luzifers Hofgesind ("A Corte de Lucifer") que narrava a segunda etapa de suas buscas. Himmler, encomendou 5.000 cópias e distribuiu para a elite nazista. Mas, contra a vontade de Rahn, o livro editado para incluir pensamentos antisemitas, o que deixou claro para ele que Himmler não estava satisfeito.

Encontro com a neve

“Basicamente, ele voltou de mão vazias”, diz Nigel Graddon na biografia Otto Rahn and the Quest for the Holy Grail: the Amazing Life of the Real Indiana Jones. “Essa foi a sua maior ofensa. É verdade que Rahn expressou sentimentos anti-nazistas, mas ele sempre foi discreto quanto a isso. O que era um problema muito maior para Himmler era que Rahn era abertamente homossexual. Antes, Himmler estava preparado para ignorar isso. Mas conforme o tempo passava, a sua tolerância diminuiu.”

Otto Rahn / Crédito: Reprodução

 

No mesmo ano em que seu segundo livro foi publicado, Rahn foi pego na cama com um homem. Como punição, foi designado como guarda do campo de concentração de Dachau por três meses. Aquilo foi a última gota para Rahn. Em uma carta, ele escreveu: "É impossível para um homem tolerante e liberal como eu viver em uma nação igual a que meu país se tornou".

Ele também escreveu para Himmler entregando seu cargo na SS. Mas, como a máfia, a SS não era o tipo de organização que podia-se simplesmente pedir demissão.

Como aconteceria anos depois à Raposa do Deserto Erwin Rommel, a SS deu a Rahn a opção de se suicidar ou ser eliminado. Em uma noite de março de 1939, ele foi em direção às montanhas do Tirol e deitou-se na neve para morrer. No dia seguinte, o seu corpo foi encontrado congelado. Ele tinha 34 anos.

Essa é a versão oficial. Existe outra teoria de que o corpo encontrado não era dele, e o verdadeiro Rahn fugiu para a Itália, mudou de nome e tornou-se um embaixador alemão no país.