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George Stinney: o menino de 14 anos que foi morto na cadeira elétrica por ser negro

Acusado de matar e estuprar duas meninas em 1944, Stinney é — até hoje — a pessoa mais jovem a ser executada nos Estados Unidos

Caio Tortamano Publicado em 04/03/2020, às 17h26

Cena do filme Carolina Skeletons, que conta a história de George Stinney
Cena do filme Carolina Skeletons, que conta a história de George Stinney - Divulgação

Em uma sociedade extremamente segregada, a culpa de um crime hediondo como a morte por espancamento de duas meninas brancas rapidamente recairia para as mãos de uma pessoa negra. Mesmo se ela tivesse somente 14 anos.

George Stinney era um garoto afro-americano que morava em Alcolu, na Carolina do Sul. Em março de 1944, duas meninas brancas — Betty Binnicker, de 11 anos, e Mary Thames, de 8 — foram vistas pela última vez procurando flores enquanto andavam de bicicleta.

As duas passaram por George e sua irmã Katherine, que estavam vendo cavalos andando pelo campo, e perguntaram se eles sabiam onde seria possível localizar flores de maracujá. As garotas não voltaram para casa naquela noite, e só seriam encontradas na manhã seguinte. Todavia, a situação era insólita: foram localizadas sem vida em uma vala cheia de água.

A casa mais próxima do local de desova era a da família Stinney, que abrigava George e seu irmão mais velho, Johnny. Sem evidências, a não ser a proximidade da casa com a macabra vala, os dois foram presos imediatamente.

Surpreendentemente, Johnny foi solto em pouco tempo, mas George continuou na mão da polícia. Na delegacia, o garoto foi interrogado somente por policiais brancos, sem a presença de um responsável e — muito menos — de um advogado.

Em menos de uma hora, o menino teria confessado o crime ao delegado H. S. Newman. Na suposta confissão, o garoto teria admitido que queria fazer sexo com Betty, mas que a presença de Mary teria atrapalhado o plano. Então, teria matado as meninas com uma barra de ferro de 38 centímetros. Apesar de todos os detalhes, nenhuma declaração ou confissão foi assinada por Stinney.

Foto do garoto após ser preso pela polícia / Crédito: Wikimedia Commons

 

Um dia depois, o menino de 14 anos foi acusado de homicídio. Seu pai foi demitido de seu emprego, e a família passou a viver em anonimato para evitar a perseguição local.

George, então, foi mantido sozinho em uma cela em Columbia, à 80 km de sua casa, novamente questionado sobre o crime sem a presença de ninguém de sua confiança. O julgamento aconteceu em uma corte na presença de 1.000 pessoas brancas.

Em apenas duas horas, o júri — também formado por brancos — decidiu que o Stinney havia cometido o sádico crime. Sem nenhuma evidência, a decisão foi apoiada no depoimento de três autoridades que afirmaram que ele teria confessado durante sua apreensão na delegacia. 

Sua punição?

Por ser considerado um adulto de acordo com as leias da Carolina do Sul, o menino de apenas 14 anos foi sentenciado a morte na cadeira elétrica. No momento, uma vez que eles não tinham dinheiro, nenhum recurso foi aberto pela família da criança.

Até o menino ser eletrocutado, a família Stinney, igrejas locais e a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (instituição a favor dos direitos civis para os negros nos Estados Unidos) enviaram uma carta para o governador do estado, Olin D. Johnson, implorando para que o absurdo episódio fosse interrompido.

A resposta de Johnson foi, no mínimo, insensível. “Poderia ser interessante para vocês saber que Stinney matou a menina mais nova para estuprar a mais velha. Depois, ele matou a garota e estuprou seu defunto. 20 minutos depois, ele voltou e tentou estupra-la de novo, mas seu corpo estava muito frio. Tudo isso foi admitido por ele”.

Além das confissões duvidosas — pela evidente falta de qualquer entidade que estivesse minimamente neutra à situação do garoto, como um advogado —, os laudos de legistas não confirmavam ou apontavam estupros.

No dia 16 de junho de 1944, o trágico fim de George se aproximava. Pesando 40 kg e medindo apenas um metro e meio, a cadeira elétrica parecia um monumento perto do garoto. Em minutos, a criança foi executada. 

A história, entretanto, só teve um fim anos depois, quando novas evidências foram coletadas por um historiador da região da Carolina do Sul. De acordo com o profissional, o George Stinney tinha um álibi, já que ele esteve o tempo todo com seus irmãos durante os supostos assassinatos. Em dezembro de 2014, uma juíza derrubou a antiga pena de Stinney, que foi declarado inocente.


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