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Gestantes de Auschwitz: A cruel saga das mães e dos bebês nos campos da morte

Consideradas como ameaça ao extermínio, nazistas realizaram o "controle da natalidade de judeus". Inúmeras grávidas foram torturadas até a morte

André Nogueira Publicado em 19/09/2019, às 11h56

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- Reprodução

Em Auschwitz, havia um local em que foram erguidos barracões usados como latrina. Também servia de ponto de encontro para o prisioneiros. No local, realizavam encontros e faziam sexo rodeados de excrementos, ao cheiro de carne queimada exalando dos crematórios.

“Era ali que prisioneiras e prisioneiros se encontravam para ter relações sexuais furtivas e sem alegria, nas quais o corpo era utilizado como uma mercadoria com a qual pagar os produtos de que tanto se necessitava e que os homens eram capazes de roubar dos armazéns”, relata Gisella Perl.

Perl era uma ginecologista romena que publicou suas memórias do campo de concentração em 1948, quando divulgou ao mundo seu papel de controladora da natalidade entre os prisioneiros. Ela conta que, mesmo com o esforço em inibir o desejo sexual entre os judeus, ocasionados pelos nazistas perante o acréscimo de nitrato de potássio na comida, a libido e vontade pelo sexo ainda “era um dos instintos mais fortes”.

Perl já idosa / Crédito: Reprodução

 

O problema é que muitas mulheres engravidaram. E isso era absolutamente perigoso - os carrascos nazistas enxergavam nisso uma ameaça ao extermínio. “Não me parece justificável exterminar os homens [...] e deixar que seus filhos cresçam e se vinguem de nossos filhos e netos”, colocou Himmler. Nesse cenário, Perl começou um trabalho de interrupção das gestações, para salvar a vida daquelas mães.

A trágica incumbência

A jornada de Perl foi resgatada por um artigo de Georg M. Weisz e Konrad Kwiet publicado na revista Rambam Maimonides Medical Journal, de Israel. Segundo o trabalho, Perl nasceu em 1907, na Transilvânia e trabalhava como ginecologista até a invasão da Romênia por Hitler. Em cinco dias, foi encaminhada para Auschwitz e nunca mais reviu seus familiares.

Na Polônia, ela foi convocada por Mengele para que reanimasse judias que ficaram inconscientes após sessões de retirada de sangue. Contraditoriamente, a Wehrmacht estava encaminhando esse sangue para o front. “A rassenschande, a contaminação com o sangue judeu inferior, foi esquecida”, lembrou Perl.

A partir de 1943, por diligência de Himmler, o esforço no controle da natalidade de judeus foi acirrado e, com isso, mulheres grávidas, mesmo aptas a trabalhar, eram levadas às câmaras de gás ou aos incineradores. “seus bebês recém-nascidos eram assassinados com injeção letal ou afogados”, explicam Weisz e Kwiet.

Em Auschwitz, as grávidas foram enganadas. Quando eram enfileiradas, as judias recebiam a informação de que as gestantes seriam encaminhadas para um local onde receberiam ração dobrada, pela condição, e que, portanto, deveriam dar um passo a frente para a seleção. A farsa só foi descoberta quando Perl, em 1944, cumpria uma tarefa a ela estabelecida perto dos crematórios e presenciou o que realmente acontecia.

Mulheres enfileiradas em Auschwitz / Crédito: Reprodução

 

Elas “eram espancadas com porretes e chicotes, destroçadas por cães, arrastadas pelos cabelos e golpeadas na barriga com as pesadas botas alemãs. Então, quando caíam, eram jogadas no crematório. Vivas”. Então, a médica iniciou seu plano para salvar aquelas mulheres.

A tarefa era ingrata: na tentativa de abortar ou gerar partos antecipados, sem condições técnicas se não suas próprias mãos, Perl teve que matar muitas crianças, o que foi muito sentido por ela. Perl relata uma situação em que enforcou um bebê de três dias até a morte, para que sua mãe fosse salva.

Ao fim, centenas de mulheres tiveram suas gestações interrompidas por Perl, de forma consentida. Como Perl recebeu a missão de informar Mengele sobre as mulheres grávidas no campo, o controle nazista já estava fragilizado. “O maior crime que se podia cometer em Auschwitz era estar grávida”, contou a ginecologista ao The New York Times em 1982. “Decidi que nunca mais haveria uma mulher grávida em Auschwitz”.

Libertação

Em 1945, o Exército Vermelho marchou sobre a Polônia e obrigou os nazistas a evacuarem os campos, rumo a Oeste. Muitos judeus foram obrigados a seguir numa marcha da morte em meio ao inverno europeu oriental, que matou mais de 15 mil. Entretanto, Perl foi encaminhada ao campo de Hamburgo e, depois, a Bergen-Belsen, onde ajudou mais mulheres a terem partos de sucesso.

Judias com seus filhos, após a libertação de Dachau / Crédito: Reprodução

 

Quando presenciou a libertação de um campo, o perigo de sentenciamento das crianças e das grávidas pelos alemães fora abolido, e Perl foi responsável pelo nascimento saudável do primeiro menino judeu nascido livre no campo onde morreu Anne Frank.

Em 1947, ao descobrir que a maioria de sua família fora executada, Perl tentou se matar. Sem obter sucesso, emigrou para os EUA para recomeçar a vida, mas lá foi acusada de crime de guerra por ter, teoricamente, colaborado com o Anjo da Morte. “Qualquer um que tenha trabalhado no hospital para os presos poderia ser acusado disso”, opina Weisz, que enxerga a acusação como bobagem.

Nos anos que seguiram, Perl colaborou, com depoimentos, para a condenação de diversos nazistas. Com o tempo, sua reputação foi se restaurando e o seu papel em Auschwitz na salvaguarda de mulheres judias foi reconhecido. Então, se especializou em infertilidade e começou a trabalhar no Hospital Monte Sinai de Nova York. Morreu em 1981, em Israel.