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Do que se alimentavam as preguiças gigantes do passado?

O ambiente da América do Sul teria obrigado esses mamíferos a adotarem comportamentos diferentes dos que vemos hoje

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 28/11/2021, às 09h00 - Atualizado às 11h37

Ilustração representando como as preguiças-gigantes seriam
Ilustração representando como as preguiças-gigantes seriam - Divulgação/ Museu Americano de História Natural

É raro encontrar alguém que não simpatize com bichos-preguiça. Além deste mamífero fazer parte do grupo de animais selvagens que são considerados fofos, possui uma rotina com a qual é fácil de se identificar, dedicando várias horas aos atos de comer e dormir.  

No entanto, essas características se aplicam somente às preguiças que conhecemos nos dias atuais. Suas ancestrais pré-históricas possuíam hábitos muito diferentes. 

Um dos estudos mais recentes que se aprofundou nesta questão foi publicado na Nature em 7 de outubro deste ano. No artigo, os cientistas decidiram investigar qual era a dieta do animal, chegando a conclusões que desafiam o conhecimento que tínhamos até então. 

Anteriormente, foi-se amplamente considerado que esses animais eram herbívoros. Essa ideia baseava-se em uma série de fatores, como análises da anatomia de sua mandíbula e dentes, exames de fezes fossilizadas e, de forma mais direta, o fato de suas descendentes da atualidade se alimentarem somente de plantas.

Os especialistas envolvidos neste estudo, porém, foram capazes de provar que as preguiças do passado também comiam carne, diferente do que havia sido sugerido por esses dados anteriores, de acordo com informações repercutidas pela CNN. 

Dieta variada

O objeto de pesquisa foi o milodonte, um gênero de preguiça que viveu 10 mil anos atrás. A criatura extinta podia alcançar 3 metros de comprimento, e, de forma proporcional, pesava entre mil e 2 mil quilos. Só para dar uma ideia, suas dimensões podem ser comparadas com as dos elefantes atuais. 

Modelo representando preguiça-gigante em tamanho natural / Crédito: Divulgação/ Centro Paleontológico de Uberaba

 

Conforme descoberto pelos pesquisadores, essa criatura gigante comia tanto plantas quanto carne, sendo, portanto, onívora, assim como a espécie humana. 

A conclusão foi alcançada através do estudo de pelos que pertenciam a milodontes. Isso pois a composição química dessa estrutura varia de acordo com a dieta do animal.

E, quando ele consome certos alimentos com frequência, é possível encontrar evidências disso dentro dos aminoácidos contidos nos pelos. O mesmo resultado pode ser obtido, aliás, através de análise de dentes ou unhas. 

Para ter uma base de comparação com os dados encontrados através desse método, os especialistas também fizeram esse mesmo processo com espécies herbívoras e onívoras que estão vivas hoje. 

“Se eles eram necrófagos esporádicos ou consumidores oportunistas de proteína animal não pode ser determinado em nossa pesquisa, mas agora temos fortes evidências que contradizem a suposição de longa data de que todas as preguiças eram obrigatoriamente herbívoras”, explicou Julia Tejada, que é uma pesquisadora do Museu Americano de História Natural e foi a principal autora do estudo.

Montagem mostrando dentes, pelos e couro de preguiça-gigante / Crédito: Divulgação/ Museu Americano de História Natural/ Museu de La Plata

 

Adaptação

Mas porque um animal que tem uma anatomia condizente com o de um que apenas consome plantas estaria usando carne como fonte de alimento?

Conforme repercutido pela CNN, estudos anteriores já haviam apontado que a América do Sul possuía muitos herbívoros na época em que a preguiça gigante vivia, de forma que é possível que não houvesse vegetação em abundância para todos. Assim, a criatura poderia ter diversificado seu cardápio a fim de sobreviver. 

A pesquisa recente possui uma grande relevância para o campo da paleontologia, mudando algumas das noções mais fundamentais que tínhamos a respeito deste mamífero ancestral. 

“Esses resultados, fornecendo a primeira evidência direta de onivoria em uma espécie de preguiça ancestral, exigem uma reavaliação de toda a estrutura ecológica das comunidades de mamíferos antigos na América do Sul, já que as preguiças representaram um componente importante desses ecossistemas nos últimos 34 milhões de anos”, concluiu Tejada, também segundo repercutido pelo veículo.