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Matérias / Crime

Governo vs. jornal: O espião acusado de abuso que gerou uma batalha judicial

A BBC defende a divulgação da identidade do agente secreto, que teria aterrorizado sua ex-namorada. Entenda!

Redação Publicado em 04/06/2022, às 08h00

Imagem meramente ilustrativa de homem segurando arma - Divulgação/ Freepik/ YuliiaKa
Imagem meramente ilustrativa de homem segurando arma - Divulgação/ Freepik/ YuliiaKa

Em fevereiro de 2022, um caso judicial peculiar envolvendo nada menos que o governo da Inglaterra e a BBC, um veículo de comunicação britânico, veio a público.

O processo é centrado em um ex-agente do MI5, que é o serviço de inteligência do país. Ele teve sua identidade exposta em um documentário desenvolvido pela BBC, todavia, essa produção original nunca viu a luz do dia, sendo barrada pela Suprema Corte do Reino Unido.

Em seu projeto de jornalismo investigativo, o veículo britânico entrevistou duas parceiras românticas do passado do espião que revelaram ter presenciado uma série de comportamentos violentos assustadores da parte dele.

Além disso, o jornal teria conseguido acesso a documentos escritos pelo homem que continham mensagens misóginas e racistas perturbadoras.  

Já no último mês de maio, foi publicada uma versão censurada do documentário na plataforma BBC iPlayer, que não está disponível no Brasil. Ela ainda contém as acusações de abuso feitas pelas entrevistadas, porém, se abstém de citar o nome do agente do MI5 para seguir as orientações judiciais. 

O que ele teria feito

A primeira fonte que falou à BBC foi uma mulher identificada pelo nome fictício de "Beth". Ela teria conhecido o espião em um site de namoro, e iniciado um relacionamento com ele. 

A experiência, todavia, se revelaria intensamente traumatizante. A britânica relatou ter sido submetida a estupros, agressões, "terror psicológico" e ameaças de morte, entre outras formas de violência. 

No final do relacionamento, ele ditava todas as minhas horas de vigília - onde eu ia, quem eu via, como trabalhava, o que fazia no trabalho, o que usava (...) Ele tinha controle total. Eu era uma sombra de quem sou agora", contou Beth à BBC. 

De acordo com a mulher, o agente do MI5 por vezes a obrigou a assistir vídeos em que grupos terroristas realizavam execuções, e elogiou assassinos seguidores da supremacia branca, que é a crença racista na superioridade da raça "ariana" sobre as outras, e está por trás de ideologias como o nazismo. 

Ao mesmo tempo em que a abusava, o homem teria usado seu cargo de informante do serviço secreto para garantir seu silêncio, dizendo que pessoas influentes iriam mandar matá-la caso ela procurasse a polícia. 

Havia tanto terror psicológico dele para mim, que culminou em eu ter um colapso, porque eu estava com tanto medo de tudo - por causa de como ele me fez pensar, as pessoas com quem ele estava envolvido e as pessoas para quem ele trabalhava”, relatou a ex-parceira do espião, que foi hospitalizada devido ao colapso. 

Após um incidente em que o homem a ameaçou de morte com um facão, algo que Beth registrou em vídeo, ela até conseguiu que ele fosse acusado de agressão, contudo, conforme apurado pela BBC, o caso foi posteriormente abandonado. 

Trechos da gravação citada / Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal

A britânica apenas teria ficado livre do agente quando ele decidiu abandonar o país por conta própria em meio a outras investigações, essas relativas a terrorismo. Também segundo o veículo, o ex-espião voltou a trabalhar para a polícia secreta no país onde se instalou. 

Uma segunda mulher, essa identificada como "Ruth", descreveu experiências similarmente perturbadoras após relacionar-se com o homem neste segundo território. 

Embate com o governo 

Fotografias mostrando a sede do MI5 / Crédito: Divulgação/ MI5 Thames House Image Gallery

Em sua produção exclusiva, a BBC afirmou ainda ter entrado em contato com diários pertencentes ao ex-agente. Nos documentos, ele teria expressado o desejo de matar Beth, e, em outro trecho, judeus, além comentar um caso de estupro e assassinato com uma atitude de aprovação. 

Baseado nessas evidências, o veículo de comunicação inglês defende que o homem é um perigo para a sociedade, e a divulgação de sua identidade (que foi proibida pela batalha com o governo da Inglaterra) ajudaria pessoas a identificá-lo antes que se tornassem suas futuras vítimas.  

De acordo com a Suprema Corte do Reino Unido, contudo, a ordem judicial que mantém o anonimato do ex-membro do MI5 "visa proteger a segurança nacional e evitar um risco real e imediato à vida, segurança e privacidade".