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Greve de fome no convento e vida agitada em Nova York: Quem foi Elsa Schiaparelli antes da fama

Com personalidade forte e referências artísticas excêntricas, a estilista italiana firmou seu nome na história da moda com o rosa-choque e parcerias com figuras como Salvador Dalí

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 09/08/2021, às 11h46 - Atualizado às 20h51

Ilustração da estilista italiana Elsa Schiaparelli
Ilustração da estilista italiana Elsa Schiaparelli - Openthedoor estúdio de animação (todos os direitos reservados)

Muito mais que a “rival de Coco Chanel”, a estilista Elsa Schiaparelli foi responsável por imaginar peças que transformariam a moda de maneira tão revolucionária quanto Gabrielle.

Enquanto a francesa preferia peças mais modernas e tons mais frios, Schiap, como era apelidada, ficou conhecida por ter concebido o famoso rosa-choque através de roupas espalhafatosas.

De personalidade extremamente forte, a italiana combinou moda e arte da maneira mais explícita possível, fazendo parcerias importantes que demonstrariam o potencial imaginativo das vestimentas, muito além de somente peças bonitas. Com SalvadorDalí, por exemplo, imaginou o The "Lobster" Dress (o vestido da lagosta), no começo dos anos 1930.

Para chegar a esse impacto no mundo da moda, porém, Elsa passou por situações difíceis e teve que desafiar uma família de visões conservadoras. Na verdade, ela só viria a desenvolver sua primeira peça aos 32 anos, um pouco ao acaso, um pouco com o toque do destino.

De família aristocrática

As referências de Elsa foram construídas desde cedo, a partir de sua família. A linhagem nobre começou com o avô, que foi reitor da Universidade de Roma, e o tio-avô, o ilustre Giovanni Schiaparelli, que foi o primeiro astrônomo a desenvolver mapas de Marte, entre 1877 e 1890. 

O pai da jovem seguiu no mesmo caminho: era diretor da Accademia Nazionale dei Lincei, dedicada às ciências; e a mãe também não ficava para trás quando o quesito era importância histórica, visto que ela fazia parte da dinastia Médici, família de grande poder político na Itália. 

Ou seja, dá para entender que ela nasceu em uma família de intelectuais, extremamente rica e erudita. As influências fizeram com que ela se formasse em Filosofia na Universidade de Roma, interessando-se em histórias antigas e desenvolvendo um conhecimento importante que lhe renderia muitas inspirações para a arte que criaria mais tarde.

Ainda assim, Schiap tinha uma personalidade muito forte, que ficou clara quando ela escreveu uma obra poética com temas sexuais inspirados na ninfa Arethusa, da mitologia grega, aos apenas 21 anos. Chocados com a temática adulta dos poemas, os familiares a enviaram para um convento na Suíça.

Personalidade forte

Openthedoor estúdio de animação (todos os direitos reservados)

 

A família de Elsa pensou que o convento fosse “endireitá-la”, mas isso nunca chegou a acontecer. Na verdade, a passagem no local foi extremamente curta e deixou ainda mais explícita a personalidade da jovem. 

A italiana escapou da instituição. Isso não antes de ficar um período fazendo uma greve de fome para protestar contra o fato de que não queria estar no local. A manifestação contra os pais foi seguido pela fuga, e a jovem retornou para sua casa, com a família, em Roma, o que também não duraria muito.

Schiaparelli decidiu se mudar para Londres, na Inglaterra, e conheceu seu futuro marido em uma conferência sobre teologia. Apaixonados, os dois se mudaram para Nova York dois anos após o casamento, em 1916, e a filha de nobres continuou alimentando sua mente imaginativa com as amizades que fazia nas noites animadas estadunidenses.

Entre dificuldades

No começo, o casal sobrevivia à cara Nova York com o dinheiro que receberam da abastada família Schiaparelli do dote do casamento, que não iria durar para sempre. A situação também ficou difícil quando a primeira e única filha que tiveram, Maria Luisa Yvonne, desenvolveu poliomielite já no começo da vida. 

Os dois ainda decidiram firmar o divórcio e Elsa se mudou para a Europa novamente, principalmente para poder tratar a filha, já que o continente contava com mais tratamentos disponíveis. Ela foi para Paris, em vez de Roma, e continuo tendo uma vida agitada, acompanhando artistas e figuras importantes da época.

Foi em uma dessas saídas, em que acompanhou uma amiga ao ateliê do estilista Paul Poiret, que vestiu, ao acaso, alguns vestidos. Aos 32 anos, encontrou a moda pela primeira vez, quando acatou as sugestões do costureiro de desenhar roupas.

Depois de algum tempo como estilista freelancer, criou o pulôver trompe-l'oeil, que “dá o ponta-pé inicial em sua carreira", como conta Laura Wie, especialista em História da Moda à Aventuras na História.

A partir disso, ela cria sua marca, abre ateliês e cresce exponencialmente, com um potencial imenso que só viria a diminuir décadas mais tarde. Com perfumes, roupas e muito mais, Elsa Schiaparelli criou o rosa-choque, que persiste na moda até os dias de hoje e usou suas referências para juntar suas paixões: moda e arte, criando modelos que contaram com inspirações surrealistas, por exemplo.

Salvador Dalí foi uma das personalidades que mais contribuíram com Elsa, criando em conjunto peças que ficariam para a história. A maior delas provavelmente é o The "Lobster" Dress (o vestido da lagosta), no começo da década de 1930, mas também surgiram o vestido-esqueleto, o chapéu com formato de sapato e muitos outros, que representavam a maneira artística com que os dois enxergavam a vida. 

Pensando na importância da estilista para a história da moda, o site Aventuras na História desenvolveu a animação 'A moda surrealista de Elsa Schiaparelli, criadora do rosa-choque' no ano que marca os 48 anos de sua morte, produzida pelo Openthedoor Estúdio de Animação. 

Você pode conferir o vídeo a seguir!