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Greve Geral de 1917: Quando São Paulo fez o Brasil parar

Método de luta da esquerda, a greve foi muito comum no século 20, principalmente associada aos comunistas e anarquistas

Jânio de Oliveira Freime Publicado em 15/05/2019, às 17h00 - Atualizado às 23h00

Trabalhadores paralisados em SP
Trabalhadores paralisados em SP - Wikimedia Commons

Em plena República Velha, São Paulo ficou marcada por três importantes aspectos: os comerciantes de café financiavam o crescimento da indústria na cidade, diversos negros libertos em 1888 fugiam para a região em busca de trabalho e a cidade foi inundada pelas massas imigratórias vindas da Europa, principalmente espanhóis e italianos. Esses fatores foram muito relevantes para o desenvolvimento do cenário no qual a cidade se encontrava em 1917, ano de sua primeira Greve Geral.

Numa época em que as questões trabalhistas mal eram discutidas pelo governo, a vida dos operários de São Paulo era deplorável. O ambiente de trabalho era marcado pela insalubridade, o perigo de vida e a baixa remuneração. Os movimentos trabalhistas enfrentavam pautas ligadas à própria sobrevivência dos trabalhadores e de suas famílias.

Manifestação durante a greve de 1917 / Crédito: Reprodução

 

Ao mesmo tempo, essa era uma época em que a ideologia comunista ainda não era muito difundida no Brasil. Ao contrário, a esquerda grevista e revolucionária era radicalmente influenciada pelas vertentes do anarquismo, que, ao contrário do unitarismo estadista dos comunistas, visava à autogestão e à tomada dos espaços de trabalho a partir da ação direta.

O movimento operário em São Paulo era extremamente articulado. Era impossível ignorar suas demandas no balanceamento da situação econômica do país, apesar do governo e dos empresários não abrirem mão dos privilégios. “A questão social é um caso de polícia”, já chegou a relatar o presidente Washington Luís, ilustrando bem a maneira como a pauta era tratada.

Antes da famosa Greve Geral (ou seja, a paralisação do trabalho em rede entre as forças produtivas articuladas em defesa de uma pauta geral, encerrando a produção do máximo de setores possível), as grandes cidades já vinham passando por paralisações significativas.

Em 1917, principalmente influenciados pela vitória popular na Rússia, que derrubou o czar Nicolau II em fevereiro, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre passaram por algumas paralisações de trabalho e greves em fábricas cujos trabalhadores eram mais radicais em relação à luta anarquista, principalmente ligados à Confederação Operária Brasileira.

Crédito: Wikimedia Commons

 

Em julho de 1917, o clima político estava tenso. O Brasil participava da Primeira Guerra e a Rússia passava por uma revolução. No interior do Brasil, a exploração do trabalho chegava a níveis desumanos e a ideia de articulação de uma grave geral era muito disseminada. Pautas como a melhoria no ambiente de trabalho, a diminuição da jornada, o fim da exploração infantil nas fábricas e a formulação de direitos trabalhistas a partir da liberdade sindical fomentavam entre operários anarquistas a necessidade de articular uma paralização a nível, no mínimo, metropolitano.

O início da greve é marcado pela data 9 de julho. Nesse dia, operários protestavam na frente da fábrica Mariângela, no Brás, em São Paulo, por aumento de salário. Uma carga de cavalaria foi lançada sobre os trabalhadores, resultando na morte do anarquista espanhol José Martinez. Chocados, os manifestantes velaram Martinez sob um forte sentimento de revolta. Dada a situação, os trabalhadores da fábrica Cotonífero Crespi chamaram assembleia e declararam greve, sendo acompanhados por uma série de outras unidades que, em rede, articularam rapidamente a Greve Geral.

Essa foi a primeira greve geral da história do Brasil, se tornando a maior marca da história das lutas trabalhistas no país. A greve durou 30 dias, e foi uma experiência pioneira de surpreendente sucesso. Os operários em greve, concentrados em São Paulo, mas articulados com greves que foram lançadas no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, deixaram claro aos chefes as pautas da paralisação e abriram o espaço das fábricas ocupadas para negociações. Muitos foram presos e as manifestações foram reprimidas, mas a greve se manteve de pé até o final.

Funeral de José Martinez, em direção ao cemitério do Araçá / Crédito: Wikimedia Commons

 

Depois das negociações, foi acordado o retorno do trabalho nas fábricas paulistanas, após um mês de produção paralisada. Os chefes concordaram com o aumento imediato dos salários dos operários e se comprometeram a estudar as outras exigências. Porém, em termos políticos, as consequências da greve foram bastante positivas para o movimento operário: a partir da articulação de luta, foi possível forçar os patrões a negociar. Os anarquistas fizeram provar que, em escala nacional, a luta trabalhista tinha alcançado uma posição significativa, como agente político legítimo para lançar demandas.


Durante os 30 dias de luta, as pautas eram as seguintes:

1. Que sejam postas em liberdade todas as pessoas detidas por motivo de greve;

2. Que seja respeitado do modo mais absoluto o direito de associação para os trabalhadores;

3. Que nenhum operário seja dispensado por haver participado ativa e ostensivamente no movimento grevista;

4. Que seja abolida de fato a exploração do trabalho de menores de 14 anos nas fábricas, oficinas etc.;

5. Que os trabalhadores com menos de 18 anos não sejam ocupados em trabalhos noturnos;

6. Que seja abolido o trabalho noturno das mulheres;

7. Aumento de 35% nos salários inferiores a $5000 e de 25% para os mais elevados;

8. Que o pagamento dos salários seja efetuado pontualmente, cada 15 dias, e, o mais tardar, 5 dias após o vencimento;

9. Que seja garantido aos operários trabalho permanente;

10. Jornada de oito horas e semana inglesa;

11. Aumento de 50% em todo o trabalho extraordinário.