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Guerra aos emus

Num dos episódios mais ridículos da história militar, em 1932, a Austrália declarou guerra à aves nativas, parentes dos avestruzes. E perdeu

sexta 20 julho, 2018
Austráçia X Emus
Austráçia X Emus Foto:Shutterstock

De um lado, soldados australianos munidos de metralhadoras Lewis e 10 mil cartuchos. Do outro, 20 mil adversários desarmados, porém velozes e bem liderados. Essa poderia ser a descrição de uma batalha qualquer na história da humanidade. Não fosse pelo fato de que os milhares de inimigos da Austrália eram aves. Os emus, parentes nativos dos avestruzes.

Os primeiros entraves da guerra contra os emus aconteceram em 2 de novembro de 1932. Mas a história começa antes, após a Primeira Guerra Mundial, quando não havia emprego para todos os soldados australianos que voltaram do combate. A solução do governo foi oferecer dinheiro e terras, no oeste árido do país, para mais de 5 mil veteranos plantarem trigo. Nem todas as promessas de subsídio foram cumpridas. E a situação só piorou com a Grande Depressão de 1929 e a queda no preço do trigo.

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Diante do cenário já ruim o suficiente, os fazendeiros ainda se viram diante da chegada de 20 mil emus. Animais típicos da região central da Austrália, as aves seguiram para o oeste em migração natural atrás de alimentos. Deram sorte ao encontrar o trigo e água estocada nas plantações. Resultado: cercas derrubadas e plantações devastadas.

Sem condições de derrotar os emus por conta própria, os donos de terra seguiram de Campion, no oeste, em busca de ajuda na capital, Camberra. Encontraram auxílio numa decisão do ministro da Defesa George Pearce. Tropas militares, armadas com duas metralhadoras Lewis, foram enviadas para as plantações. O armamento pesado, e exagerado diante do alvo, dava sinais de vitória garantida – e ainda ajudaria o governo a demonstrar auxílio aos heróis da guerra.

No primeiro enfrentamento, foram avistadas 50 aves. As ordens do major G.P.W. Meredith foram imediatas. Cercar os animais e persegui-los até estarem ao alcance dos disparos. Ao fim do dia, vexame: uma dúzia de emus abatidos. Além de serem rápidos – atingem mais de 40 km/h –, os animais seguiam em fuga mesmo depois de atingidos.

Os combates continuaram nos dias subsequentes, e veio a ideia de uma emboscada. Deitados em uma barragem, os soldados ficaram à espera da aproximação de um grupo de mil aves. O número de mortes estava apenas em 12 quando uma metralhadora emperrou. O restante dos emus fugiu.

Ninguém fazia ideia de que os emus tinham uma boa dose de esperteza, do alto de seus quase 2 metros de altura. Nas palavras do comandante Meredith: “Cada grupo [de animais] tinha um líder, que vigiava enquanto os outros se mantinham ocupados com o trigo. Ao primeiro sinal suspeito, o líder dava o aviso e dezenas de cabeças surgiam da plantação”. Em seguida, diante dos primeiros emus assustados, o restante saía em debandada. A ave na liderança ficava no local até os últimos estarem em segurança.

Ainda houve uma tentativa motorizada de ataque, usando um caminhão — incapaz de alcançar as aves e instável demais para artilharia. Meredith fez as contas, após semanas de combate, e concluiu que precisaria de dez balas para acabar com cada um dos emus. Ele foi chamado de volta a Camberra. O governo reconheceu a derrota. As aves venceram.

Maria Carolina Cristianini


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