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A queda da república: Guerra Civil Espanhola

A defesa bem-sucedida de Madri não foi suficiente para impedir que Franco e seus homens avançassem em todas as frentes de batalha

Reinaldo José Lopes Publicado em 08/02/2019, às 10h00

Organização anarco-sindicalista da CNT durante a Guerra Civil Espanhola, em Aragão.
Wikimedia Commons

Se o governo republicano concluiu que os combates de novembro de 1936 tinham diminuído o ânimo do exército de Franco, estava enganado. O ano de 1937 começou com mais uma ofensiva nos arredores de Madri e um cenário internacional cada vez mais desfavorável para as tropas legalistas, apesar da ajuda militar soviética.

As potências ocidentais haviam concordado com um embargo armamentista, para arrefecer os dois lados do conflito espanhol. O plano fora arquitetado pelo Reino Unido e pela França e recebeu o apoio da Liga das Nações, a antecessora da Organização das Nações Unidas (ONU). Embora tivessem aderido ao plano oficialmente, Alemanha e Itália continuavam a apoiar Franco com homens e armas. Do lado republicano, se a URSS ainda era fonte de auxílio, os eficientes tanques e aviões cedidos pelos oficiais de Stalin perdiam em número de unidades para os veículos militares e armamentos da Itália e, especialmente, da Alemanha nazista, que serviam às tropas de Franco.

Mais soldados em ação

Assim, no início do segundo ano da Guerra Civil Espanhola, a estratégia da República de montar seu novo Exército Popular (depois de sofrer milhares de baixas nos combates contra as tropas nacionalistas) tinha como princípio utilizar mais soldados das milícias urbanas e das Brigadas Internacionais. Os legalistas conseguiram mobilizar quantidade suficiente de soldados para entrar em ação. No entanto, os esquerdistas continuavam perdendo nos embates aéreos, de blindados e de artilharia. Não se sabia por quanto tempo a República continuaria a resistir.

Anarquistas durante a Guerra Civil Espanhola Wikimedia Commons

Novos ataques a Madri foram repelidos em janeiro e fevereiro, mas o avanço nacionalista continuou em outras frentes. Em Málaga, por exemplo, cidade que só contava com milícias anarquistas para sua defesa, as tropas franquistas tomaram os bairros, a partir de 8 de fevereiro, e iniciaram uma repressão brutal contra seus adversários políticos – a maioria deles, fuzilados. Outro ataque à Madri, no mesmo mês, culminou na batalha de Guadalajara. Entre 8 de março e 19 de março de 1937, os republicanos tentaram novamente deter o avanço nacionalista perto de Madri. No combate, soldados italianos, enviados por Mussolini, desgarraram-se da força rebelde principal. O exército de Franco e seus aliados sofreram então uma derrota com centenas de baixas e rendições. Contribuiu para a vitória republicana a participação desses italianos, que desertaram para se alistar nas Brigadas. Foram eles que comandaram as ações contra os nacionalistas.

Tropas nacionalistas atacando oposição na Batalha de Guadalajara Wikimedia Commons

Sem conseguir tomar Madri, Franco e Mola decidiram, então, voltar sua atenção para o Norte da Espanha, região altamente industrializada, com forte tradição esquerdista e, também, odiada pelos fascistas por causa da rebeldia dos bascos. Nessa empreitada, a aviação nazista – liderada pela chamada Legião Condor – foi fundamental para o avanço dos rebeldes, mas ao custo de um massacre da população civil da região. Pesados bombardeios mataram milhares de moradores no País Basco e nas Astúrias.

Nenhum ataque foi tão traumático quanto o que atingiu a vila basca de Guernica, em 26 de abril de 1937. Imortalizada pelo pincel de Pablo Picasso, a ação é hoje considerada a primeira experiência de um bombardeio aéreo, cujo único objetivo era a aniquilação total de uma cidade e de seus civis – estratégia que se tornaria comum na Segunda Guerra Mundial. Há relatos de que os alemães receberam ordens expressas para poupar depósitos de material militar, que poderiam ser úteis aos franquistas mais tarde. Três quartos de Guernica ficaram completamente destruídos. O episódio chocou tanto a opinião pública mundial que os nacionalistas, inicialmente orgulhosos do feito, passaram a usar sua máquina de propaganda para afirmar que os nacionalistas bascos é que tinham colocado fogo na cidade (na verdade, os alemães usaram grande quantidade de bombas incendiárias no ataque).

A infantaria tradicional não ofereceu resistência a essa tempestade aérea. Os bascos recuaram para Bilbao, cidade protegida pelo chamado “cinturão de ferro” de fortificações. Mas novos ataques da Legião Condor fizeram o cinturão ruir aos poucos. Os republicanos perderam seus aviões um a um e, no começo de junho, os nacionalistas avançaram para a guerra urbana em Bilbao. Na cidade, ocorreu outra carnificina, com milhares de civis tentando deixar o País Basco por mar. Muitos morreram assim que chegaram às praias, atingidos por disparos vindos de navios alemães.

Anarco feministas durante a Guerra Civil Espanhola Wikimedia Commons

Para tentar ajudar as tropas do norte e acabar com o cerco da capital, as forças republicanas de Madri decidiram organizar uma grande contra-ofensiva no centro do país. Inicialmente, conseguiram repelir os franquistas. Mas exércitos rebeldes, nos pequenos povoados tomados, continuaram a expulsar e matar soldados republicanos. Em poucas semanas, um novo ataque nacionalista fez o quadro voltar à situação anterior, de controle dos nacionalistas. No fim de outubro de 1937, a guerra do Norte foi encerrada, com a vitória dos generais de Franco.

Enquanto os republicanos perdiam batalhas, vertentes esquerdistas de Barcelona envolviam-se numa violenta briga interna. Integrantes do Partido Comunista Espanhol (PCE), de tendências stalinistas, tentaram tomar o controle da central telefônica da Catalunha e entraram em conflito com anarquistas e membros do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), trotskistas e, portanto, contrários ao stalinismo. O conflito transformou-se em combate urbano e, quando terminou, em 7 de maio de 1937, 2 mil pessoas tinham morrido. O PCE usou o incidente para perseguir anarquistas. O episódio aumentou a discórdia entre as esquerdas.


Saiba mais

Arte e Literatura na Guerra Civil Espanhola, João Cerqueira, Zouk, 2005.