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Guerra das Malvinas: O Brasil permaneceu neutro, mas, por muito pouco, não se tornou beligerante

O conflito entre Argentina e Reino Unido foi travado em meados de 1982, em um mundo dividido pela geopolítica da Guerra Fria

Ricardo Lobato Publicado em 14/11/2021, às 12h00

Soldados argentinos capturados em Porto Stanley durante o conflito
Soldados argentinos capturados em Porto Stanley durante o conflito - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

A Guerra das Malvinas (ou Falklands para os ingleses), conflito travado entre Argentina e Reino Unido em 1982, é cheia de peculiaridades e histórias que vão muito além do campo de batalha. A própria situação em que a guerra foi travada — nunca tendo sido formalmente declarada — chama a atenção.

Ademais, em um mundo dividido pela geopolítica da Guerra Fria, pelo menos em teoria, ingleses e argentinos estavam do mesmo lado contra a chamada “ameaça vermelha”. Fato é que, entre 2 de abril e 14 de junho de 1982, ambas as nações se enfrentaram nas gélidas águas do Atlântico Sul.

O Brasil permaneceu neutro, mas, com a entrada de um bombardeiro britânico em seu espaço aéreo, foi dado o código “Rojão de Fogo”, o indicativo de que uma missão real estava em curso. Por pouco não se tornou um beligerante na guerra. Para entendermos como esse episódio entre ingleses e argentinos quase respingou no Brasil, é preciso compreender as motivações do conflito.

Internamente a situação tanto na Inglaterra quanto na Argentina não ia bem. Os ingleses experimentavam as reformas neoliberais de Margaret Thatcher; enquanto os argentinos viviam sob o jugo do general Leopoldo Galtieri, ditador que via os índices econômicos e sociais do país, governado com mão de ferro, piorarem a cada dia.

Fotografias de Leopoldo Galtieri e Margaret Thatcher / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

No intuito de desviar o foco das perseguições cometidas pelo governo e da situação caótica atravessada pelo país, Galtieri apelou ao patriotismo do povo conclamando as massas à luta. Para tal, reacendeu uma rivalidade histórica com a Inglaterra pela posse das Ilhas Malvinas. O que parecia ser apenas retórica acabou desencadeando um conflito internacional que, por pouco, não mergulhou toda a América do Sul em guerra.

De início, os argentinos obtiveram uma vitória rápida, pois a guarnição britânica nas ilhas era pequena e não ofereceu forte resistência. Entretanto, a possibilidade de que o Reino Unido fosse contra-atacar não havia sido levada a sério pelo governo em Buenos Aires.

Foi quando a esquadra britânica zarpou, disposta a reconquistar seu território, que os problemas começaram. Apesar de os demais países sul-americanos terem se mantido neutros, movimentos foram feitos como contramedida no caso da situação se deteriorar.

O Peru ofereceu uma esquadrilha à Argentina e a Bolívia mobilizou voluntários. O único país da região que manifestou apoio aos ingleses foi o Chile, então governado pelo ditador Augusto Pinochet. O Brasil, mesmo que esboçasse apoio à causa argentina, também optou pela neutralidade.

O bombardeiro nuclear Avro Vulcan / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Foi apenas em 3 de junho, já no final da guerra, que as coisas esquentaram e o país por pouco não tomou posição. Por mais que dispusessem de uma logística e equipamentos superiores aos dos argentinos, os ingleses estavam bem longe de casa.

A cobertura para sua frota era feita da base aérea de Ascensão, um território britânico no meio do Atlântico Sul a mais de 6 mil km de distância das Malvinas. Era de lá que seus bombardeiros Avro Vulcan decolavam para bombardear aeródromos e radares argentinos nas ilhas ocupadas. Não era uma missão fácil.

Os Vulcans precisavam ser reabastecidos no ar, duas vezes na ida e três vezes na volta, além de ser uma viagem extremamente desgastante para as tripulações. Foi no retorno de uma dessas missões que, com a sonda de combustível de um Vulcan apresentando problemas, os pilotos decidiram, sem aviso prévio, rumar para o destino mais próximo: a Base Aérea do Galeão.

Os radares de longo alcance da FAB, que operavam com atenção redobrada desde o início do conflito, detectaram uma aeronave não identificada em espaço aéreo brasileiro. Seguindo o protocolo, dois caças F-5E Tiger II do 1º Grupo de Caça (o lendário “Senta a Púa”) decolaram para interceptar a aeronave da Força Aérea Real.

Como não sabiam do que se tratava, apenas que era uma aeronave militar não identificada, o código “Rojão de Fogo” foi acionado, indicando que uma missão real estava em curso. Ao avistarem o Vulcan, um dos pilotos brasileiros fez contato com a aeronave britânica.

O navio de guerra inglês HMS Antelope / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

De início, os ingleses mantiveram o silêncio de rádio, mas na iminência de um abate, explicaram a situação e seguiram as diretrizes da FAB, recebendo então permissão para pousar em solo brasileiro. Antes de serem avistados, haviam se livrado dos documentos confidenciais que levavam a bordo e dos mísseis antirradar AGM 45, lançando-os ao mar.

Todavia, apenas um dos mísseis se soltou do gancho, enquanto o outro ficou preso na aeronave até chegar ao solo. Assim que pousaram, tripulação e aeronave foram detidos, pois, pelas regras de guerra, ao pousar em um país neutro, tropas e  equipamentos oriundos das nações beligerantes devem ser retidos, não podendo voltar ao conflito.

Nos bastidores, tal medida gerou protestos de Margaret Thatcher, que secretamente pediu que o governo dos EUA interviesse junto ao Brasil. O mesmo não precisou ser feito, pois nove dias depois do episódio o Brasil permitiu que partissem, com a condição que não retornassem à guerra. Os ingleses concordaram.

De todo modo, àquela altura, o Vulcan já não era mais necessário, já que em 14 de junho as hostilidades chegaram ao fim. Quanto ao míssil que os ingleses não conseguiram descartar no mar, sabe-se que foi apreendido. Seu destino, porém, permanece incerto.


+Ricardo Lobato é sociólogo e mestre em economia pela UNB, oficial da reserva do Exército Brasileiro e consultor-chefe de política e estratégia da Equilibrium — consultoria, assessoria e pesquisa.