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Guerra das Malvinas: O início da desastrada aventura dos hermanos

Há exatos 37 anos, os argentinos ousaram desafiar a poderosa força britânica em um dos lugares mais inóspitos do planeta

Leo Nishihata (São Paulo) e Ana Manfrinatto (Buenos Aires) Publicado em 02/04/2019, às 07h00

A Guerra das Malvinas em Port Stanley. Em abril de 1982
A Guerra das Malvinas em Port Stanley. Em abril de 1982 - Getty Images

Mais de trinta anos depois, a Guerra das Malvinas (ou Falklands, para os britânicos) ainda é uma pedra no sapato da Argentina e do Reino Unido. O conflito pela posse de um arquipélago na extremidade austral do Atlântico permanece sem solução e, para as Nações Unidas, as Malvinas são consideradas um território em disputa.

Diferentemente de uma guerra impessoal ao estilo videogame, argentinos e britânicos protagonizaram um conflito feroz e surpreendentemente equilibrado. Comandante da frota britânica durante a guerra, o almirante Sandy Woodward admitiu em suas memórias que os ataques argentinos levaram a gloriosa Marinha Real (RN) à beira de uma derrota.

Uma derrota como a sofrida pelo major Mike Norman, comandante dos defensores das Falklands na manhã de 2 de abril de 1982, quando ele e pouco mais de 70 soldados enfrentaram quase mil invasores vindos do continente, sabendo que a ajuda mais próxima teria de percorrer 14 mil quilômetros desde a Inglaterra. Norman e suas tropas tiveram de se render, as Falklands foram rebatizadas de Malvinas e a euforia tomou conta da Argentina. Mas a verdadeira guerra estava apenas começando.

Uma série de medidas tomada pelos britânicos (corte nos gastos militares, política de descolonização) fez a junta argentina liderada pelo general Leopoldo Galtieri acreditar que o Reino Unido não reagiria. Pior: eles achavam que os Estados Unidos iriam se manter neutros. Estavam enganados. Antes mesmo do desembarque, o primeiro de quatro submarinos nucleares já rumava para as ilhas, alertado pela inteligência britânica. Dias depois, o grosso da Marinha Real (e 10 mil soldados) iniciava sua jornada. Uma zona de exclusão de 370 quilômetros foi determinada ao redor das Malvinas: dentro dele, navios e aviões não identificados seriam atacados. Os Estados Unidos disponibilizaram dados secretos, satélites, mísseis e combustível para seu aliado histórico.

Sem planejamento

Do lado argentino, simplesmente não havia plano de resistência após a ocupação. Sem consultar os chefes das Forças Armadas, Galtieri ordenou a transferência de 10 mil recrutas com menos de um ano de serviço militar. Todos seriam transportados por avião, evitando os submarinos ingleses, mas sobrecarregando a pequena FAA. Para piorar, a única pista de pouso na capital, Port Stanley, tinha apenas 1 350 metros e não poderia operar grandes jatos. Todo o equipamento pesado ficou no continente, incluindo blindados e canhões. Depois, os soldados argentinos passariam até fome.

A junta militar teve quase um mês para ampliar a pista de Port Stanley. A extensão viabilizaria não só operações de transporte, mas também as decolagens dos caças Mirage III, Dagger e A-4 Skyhawk. Até os ingleses imaginavam que isso seria feito, mas nada aconteceu, e os caças tiveram de operar a mais de 600 quilômetros de distância, no limite do alcance, dispondo de apenas 5 minutos de combustível na zona de combate. Partindo de Stanley, eles obrigariam a Marinha Real a manter distância das ilhas, sob o risco de ataques contínuos.

Os britânicos, enquanto isso, preocupavam-se com sua inferioridade numérica. Contra mais de cem jatos argentinos, havia apenas 20 caças Sea Harrier embarcados em dois porta-aviões (outros 12 chegariam após três semanas de combate). Duas vezes mais rápidos, um enxame de Mirage e Dagger atacando em alta velocidade, partindo de diversas direções, faria em pedaços as patrulhas de Sea Harrier. Conscientes disso, os tenentes Paul Barton e Steve Thomas quase não acreditaram quando, em 1º de maio, viram-se em rota de colisão com um par solitário de Mirage III, voando próximos – o tipo de formação perfeita para um alvo. Em poucos segundos, Barton e Thomas envolveram o par argentino em uma manobra de pinça, disparando mísseis AIM-9L Sidewinder fornecidos pelos americanos. Um dos Mirage caiu; o outro foi atingido por ‘fogo amigo’ ao tentar um pouso de emergência.

Depois disso, e até o final da guerra, a FAA fugiu dos Sea Harrier sempre que pôde. Os ataques aos navios seriam feitos sem escolta, auxiliados por aviões que tentariam despistar os interceptadores. “Não tínhamos liberdade. Até o ar estava tomado pelos ingleses”, diz José Ramón Negretti, oficial de logística do Exercito Argentino durante a guerra.

Batidos nos combates aéreos, os argentinos mostraram seu valor em algumas das mais difíceis missões de ataque da história. Operando em bases de clima semi-ártico como Rio Grande, na Terra do Fogo, eles voavam longas horas a menos de dez metros de altura para evitar serem detectados, sem recursos modernos de navegação, enfrentando turbulência, acúmulo de sal, risco de colisão com a água, as patrulhas de Sea Harrier, três tipos de mísseis antiaéreos e mais todo canhão e metralhadora atirando dos navios britânicos.

Bombas não explodiram

Voando no nível da ponta dos mastros, os argentinos afundaram seis embarcações, puseram cinco fora de combate e danificaram outros sete, entre destróieres, fragatas e navios de desembarque. Foi a maior perda inglesa desde a Segunda Guerra, e poderia ter sido pior: 75% das bombas que atingiram os vasos da Marinha Real não explodiram. Os lançamentos estavam sendo feitos tão baixo que as espoletas não tinham tempo de armar-se antes que a bomba atravessasse o casco. Experientes no ataque naval, os A-4 Skyhawk da Armada argentina evitaram o problema usando bombas Snakeye de queda retardada.

Mas perícia nenhuma evitou a punição pela falta de escolta. Entre os dias 1º. de maio e 13 de junho, 37 caças Dagger e Skyhawk foram abatidos, quase metade da força disponível. Os únicos caças livres de perdas foram os Super Etendard, adquiridos na França e armados com o míssil antinavio Exocet. A combinação virou o pesadelo da Marinha Real, afundando o destróier Sheffield e o navio de transporte Atlantic Conveyor, lotado de helicópteros e suprimentos. A Argentina, porém, cometeu a insanidade de iniciar um conflito antes de completar o recebimento de sua arma mais moderna. Apenas cinco mísseis foram entregues antes que a França (aliada da Grã-Bretanha na Otan) cortasse o fornecimento.

Debaixo d’água, a dinâmica foi parecida. Após o submarino britânico Conqueror torpedear o velho cruzador General Belgrano em 2 de maio, toda a frota argentina recuou, menos o San Luis, um submarino diesel-elétrico de projeto alemão, armado com os modernos, mas pouco confiáveis torpedos SST-4. Destacado para “caçar” dentro da Zona de Exclusão, em três ocasiões o San Luis identificou alvos e disparou seus torpedos sem ser detectado, e nas três vezes o sistema de guiagem a cabo falhou. Apesar das patrulhas inglesas, o submarino San Luis escapou ileso.

Do lado britânico, a situação era crítica. Em junho, cerca de 45% dos destróieres e fragatas da Marinha Real tinham sido postos fora de combate. A maioria dos 255 mortos ingleses pereceu no mar. Se as bombas e torpedos não detonados tivessem funcionado, as perdas inviabilizariam o prosseguimento da operação. Para sorte dos ingleses, o colapso argentino era ainda pior.

Sob o comando do general Mario Menendez, as tropas argentinas (duas brigadas de infantaria, uma de fuzileiros navais e duas companhias de comandos, entre outras) foram dispostas de forma exageradamente defensiva, concentradas nos pontos mais importantes dos 12 mil quilômetros quadrados do arquipélago. Carentes de blindados e helicópteros, eles enfrentavam um clima úmido, temperaturas abaixo de zero e terreno montanhoso e lamacento. Nenhum contra-ataque foi realizado durante o tão aguardado desembarque inglês, no dia 21 de maio, na Baía de San Carlos. “Os soldados eram moleques. Tinham coragem, mas eram despreparados. Nosso equipamento especial era uma jaqueta com plumas de ganso”, diz Julio Cesar Ledesma, cabo do Exército nas Malvinas, hoje com 49 anos.

Na verdade, em mais um erro de avaliação, as melhores tropas de montanha e pára-quedistas foram deslocadas para a fronteira com o Chile, com o qual a Argentina mantinha disputas territoriais. A junta militar de Galtieri aproveitaria o ufanismo pró-Malvinas para resolver a questão de uma vez. O Chile acabou sendo o único país latino americano a apoiar – não oficialmente – a Grã-Bretanha. Os chilenos permitiram a instalação de um potente radar no extremo sul, forneceram dados de inteligência e podem até ter permitido a operação de aviões Nimrod de patrulha e escuta eletrônica a partir de suas bases.

Estabelecida nas ilhas, a elite da infantaria britânica pôs em prática uma estratégia simples: cercar o inimigo e tomar uma a uma suas posições. Os Reais Fuzileiros Navais, os pára-quedistas e os Gurkhas (soldados nepaleses a serviço do Reino Unido) bateram os argentinos repetidamente. Mesmo quando estes resistiam ao máximo, debitando baixas pesadas como em Goose Green e na batalha pelo Monte Longdon, o esforço era inútil: presos ao solo, impedidos de atuar em apoio mútuo e sem reforços, a derrota virou questão de tempo. Em duas semanas, as forças britânicas completavam o cerco a Port Stanley. Mais de 640 argentinos já haviam morrido. A região estava completamente minada para barrar as investidas britânicas, mas a chegada do inverno simplesmente congelou as minas. Em 14 de junho, encurralado pela derrota, o general Menendez assinou a rendição. Após 74 dias, as Malvinas voltavam a se chamar Falklands.

Neutralidade brasileira

Companheiro de ditadura militar, o Brasil adotou uma postura neutra. Quando os argentinos desesperaram-se à procura de aviões de patrulha, o governo do general Figueiredo arrendou dois aviões Embraer, que chegaram a cumprir missões tripulados por argentinos. Anos depois, revelou-se que, no dia 25 de abril de 1982, enquanto a frota britânica cruzava o Atlântico, um Boeing 707 da Varig voando da África para o Brasil foi confundido com o 707 argentino que monitorava o deslocamento inglês. O almirante Woodward conta em seu livro One Hundred Days que já havia recebido autorização para abater o avião, quando, a minutos do disparo, sugeriu a identificação visual do alvo. Foi o que o salvou.

“El que no salta es un inglés!”

Traduzida como “quem não pula é inglês”, o grito é entoado aos pulos nos estádios, unindo as torcidas de Boca Juniors e River Plate para mostrar que, enquanto os britânicos mal se lembram da guerra, os argentinos ainda lidam com o tema. “A imagem mais forte que tenho é do slogan ‘Argentinos a vencer’. Tinha 11 anos e na escola nos faziam cantar a marcha das Malvinas, escrever cartinhas para os soldados e arrecadar blusas de lã e chocolates que seriam enviados ao front”, conta Emiliano Chrestia, designer gráfico. Na época, sob censura dos militares, a mídia deturpava os relatos. A revista Gente publicava listas fictícias de alvos destruídos. A comoção nacional foi capaz de sublimar até o ódio pela ditadura, um regime que deixou cerca 30 mil desaparecidos, mais de 46 vezes o número de mortos argentinos nas Malvinas. A euforia deu lugar à incredulidade no dia 14 junho, quando o general Leopoldo Galtieri apareceu em rede nacional para declarar: “O combate em Puerto Argentino terminou”. A nação sequer pôde receber seus heróis com honras – eles foram “escondidos”, pois voltaram extremamente magros, doentes. “Longe de confundir o inimigo, a manipulação da ditadura enganou o povo argentino, que despertou para uma amarga decepção”, diz o jornalista Horacio Verbitsky. Desde 1994, recuperar as ilhas Malvinas está na Constituição. Ainda hoje se encontram placas “Las Malvinas son Argentinas” em rodovias do país, assim como adesivos e broches. Para o povo, porém, a desforra veio na Copa do México de 1986, quando Diego Maradona fez contra a Inglaterra não apenas um dos gols mais bonitos da história, driblando meio time inglês, como também o histórico gol feito com a mão e validado pelo juiz. El que no salta es un inglés!


Você sabia?
 

• Durante o conflito, a base aérea de Wideawake, no meio do Atlântico (mais próximo ponto de apoio britânico, mesmo assim a 7,4 mil km de distância das Falklands) tornou-se um dos aeroportos mais movimentados do mundo.

• De lá, os bombardeiros Vulcan cumpriram as mais longas missões aéreas da história até então: 16 horas para percorrer quase 13 mil quilômetros entre ida e volta, para despejar 14 bombas de 454 quilos em Port Stanley. Esse ‘recorde’ seria batido pelos B-52 durante a Guerra do Golfo.

• Campeão da Copa de 1978 e ídolo do Tottenhan Hotspur, na Inglaterra, o craque argentino Osvaldo Ardiles era primo de José Ardiles, um dos primeiros aviadores mortos em combate contra os britânicos. Durante a guerra, o meio-campista decidiu deixar a Inglaterra. Vingança? Que nada. Com moral ainda maior, ele voltou ao clube em 1983 e iria se tornar treinador na década de 1990.

• O príncipe Andrew (irmão de Charles) era piloto de helicópteros Sea King. Serviu embarcado no porta-aviões Invincible.

• Os argentinos, aliás, sustentam até hoje que danificaram o Invincible com mísseis Exocet e bombas no dia 30 de maio de 1982. Os britânicos negam o fato.

• Um documentário do Discovery Channel levantou a hipótese de os Estados Unidos terem oferecido porta-aviões para arrendamento aos ingleses, no caso de a Marinha Real perder um dos seus.
Saber mais

 

Malvinas, La Trama Secreta, Oscar Cardoso, Ricardo Kirschbaum e Eduardo Van der Kooy, Editora Clarin, 2007

Malvinas, La Última Batalla de la Tercera Guerra Mundial, Horacio Verbitsky, Editora Sudamericana, 2002

One Hundred Days, Admiral Sandy Woodward, US Naval Institute Press, 1997