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Gueto cultural: O campo de concentração criado para persuadir o mundo

Criado para receber a visita do Comitê Internacional da Cruz vermelha, o objetivo era criar a falsa ideia de que judeus sob domínio dos nazistas não eram maltratados

Por Silvia Lerner historiadora, filha de pais sobreviventes do Holocausto e autora de Arte em Tempos de Intolerância: Theresienstadt (Ed. Rio Books) Publicado em 01/03/2021, às 18h00 - Atualizado às 19h00

Imagem do campo de concentração de Theresienstadt
Imagem do campo de concentração de Theresienstadt - Divulgação

Na cidade de Terezin, a 60 quilômetros da capital da então Tchecoslováquia, Praga, foi criado um gueto judaico em 10 de outubro de 1941, durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse dia, Terezin deixou de existir, dando lugar ao Campo de Theresienstadt – como os nazistas passaram a chamá-lo. 

Para dezenas de milhares de prisioneiros, tratava-se de um campo de trânsito à espera da deportação para o extermínio em Auschwitz. Ao regime nazista, a área servia para mostrar ao mundo as condições de guetos e campos de concentração sob seu domínio e convencê-lo de que nada mais eram do que zonas de estabelecimento.

Além dos judeus do Protetorado da Boêmia e da Morávia, território anexado da Alemanha nazista, e dos heróis judeus que lutaram pelo país na Primeira Guerra, foram enviados para este campo muitos artistas, músicos e compositores – e embora não pudessem atuar com as artes nesses espaços concentracionários, muitos inventaram artifícios ou contrabandearam instrumentos musicais para compor, treinar, estudar, ocupar o tempo ou até realizar concertos secretos nos porões ou sob os telhados do lugar.

Fortaleza-prisão

Construída entre 1780 e 1790 por ordem do imperador austríaco José II, Terezin é o nome de uma antiga fortaleza militar situada na República Tcheca. No fim do século 18, a instalação, porém, se tornou obsoleta, não preenchendo os requisitos para ser fortaleza e passou a manter prisioneiros militares e políticos até que, em 1940, os nazistas transformaram o pequeno forte em uma prisão da Gestapo (o acesso para o exterior podia ser facilmente controlado pelos seus poucos portões e seus 11 barracões militares seriam suficientes para milhares de judeus).

No auge do funcionamento do Campo de Theresienstadt, havia mais de 58 mil prisioneiros, originários de vários países da Europa, em um espaço onde a população máxima era de 8 mil pessoas antes da guerra. Esse espaço, que passou a ser conhecido como “gueto-modelo” ou “Campo Cultural”, único criado durante o governo de Hitler, recebeu cerca de 150 mil prisioneiros durante sua existência. 

Em 20 de janeiro de 1942, Reinhard Heydrich, líder do Protetorado da Boêmia e da Morávia (morto pela resistência judaica em 4 de junho daquele ano), anunciou que tal espaço concentracionário teria vários objetivos, entre eles, um campo de trânsito a caminho de Auschwitz – para onde cerca de 86 mil prisioneiros foram enviados para a morte em câmaras de gás – e um gueto modelo e cultural de judeus para receber a visita do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. 

Crianças no campo de Theresienstadt / Crédito: Wikimedia Commons

 

Para Adolf Eichmann, um dos principais organizadores do Holocausto, era importante “salvar as aparências” e despistar informações sobre como os nazistas agiam nos diversos campos de concentração e extermínio.

A visita da Cruz Vermelha

Com a confirmação da visita da Comissão Internacional da Cruz Vermelha a Theresienstadt, prisioneiros plantavam árvores, escavavam jardins, “embelezavam” o local, pintavam e renovavam os prédios do Campo, desenvolviam atividades culturais de entretenimento para serem apresentadas para os visitantes e convencê-los de que aquela situação era real. 

O importante era não dar a impressão ou confirmar os rumores do que se ouvira falar que ocorria nos Campos da Polônia e nos diversos espaços em que prisioneiros eram exterminados e morriam de fome, doenças e maus-tratos. Além disso, eventos sociais e culturais foram ensaiados e organizados para que os visitantes assistissem. 

Nesse período, as deportações de Theresienstadt foram intensificadas para não evidenciar o excesso de população no gueto – entre 16 e 18 de maio de 1944, foram deportados 7.503 judeus para Auschwitz. No dia 23 de junho de 1944, Heinrich Himmler, um dos principais líderes do partido alemão, deu o consentimento para uma delegação da Cruz Vermelha Internacional e uma delegação da Cruz Vermelha dinamarquesa visitarem o gueto. 

A região foi preparada para a ocasião e, em maio de 1943, os nazistas já haviam ordenado que o espaço não fosse mais chamado de gueto, e sim de Siedlungsgebiet (área de assentamento). Cédulas de dinheiro foram especialmente produzidas com a imagem de Moisés e a assinatura do judeu ancião Jakob Edelstein, um Banco foi instalado, as ruas foram numeradas, uma sala de concerto e um playground foram construídos e lojas e cafés, inaugurados.

As deportações de prisioneiros cessaram durante sete meses e um Campo de família foi aberto em Auschwitz com o nome de Arbeitslager Birkenau bei Neu-Berun (Campo de trabalho de Birkenau próximo a Neu-berun), caso a Cruz Vermelha insistisse em visitar o local. Mas a organização deu por encerradas as visitas após conhecer Theresienstadt – e o Campo de família instalado em Auschwitz foi desfeito em junho de 1944.

Tudo foi organizado pelo comandante Karl Rahm, para que não percebessem a realidade vivida pelos prisioneiros, cuja delegação foi acompanhada pelo líder do Conselho Judaico, Paul Eppstein. A comissão da Cruz Vermelha incluía Eigil Juel-Henningsen, médico-chefe do Ministério da Saúde da Dinamarca, Franz Hvass, o mais alto servidor civil do Ministério do Exterior dinamarquês, e Maurice Rossel, médico da Cruz Vermelha Internacional, que ficou bem impressionado com as condições dos prisioneiros em Theresienstadt. Suas impressões foram consideradas emblemáticas e levaram a instituição ao descrédito.

Paul Eppstein, orientado pela SS a representar o papel de prefeito do lugar, recebeu os visitantes em uma limusine dirigida por um soldado. Naqueles dias, o judeu foi obrigado a descrever Theresienstadt como “uma cidade normal, com atividades normais”, e fornecer dados pré-fabricados, como número de prisioneiros, atividades básicas e culturais. Também foram erguidas falsas lojas e cafés com o objetivo de mostrar que os judeus viviam com relativo conforto.

Rossel, o representante da Suíça da Cruz Vermelha Internacional, durante a Segunda Guerra, escreveu um relatório favorável a Theresienstadt. Além de os visitantes passarem apenas oito horas no lugar e aceitarem as informações sem procurar mais investigações, não indagaram a razão de as crianças não estarem na escola; apenas foram informados de que “elas estavam em férias”. 

Uma das performances das crianças vítimas do holocausto / Crédito: Wikimedia Commons

 

Para impressionar os representantes, os prisioneiros artistas tiveram de apresentar a ópera infantil Brundibár e Requiem, de Verdi. A delegação tinha permissão para falar somente com prisioneiros dinamarqueses especialmente selecionados – o que também não foi percebido, já que não procuraram falar com os demais judeus.

Outro ponto maquiado para os visitantes foi o nível dos quartos apresentados: recém-pintados e com no máximo três pessoas por recinto. Como resultado dessa visita, um sobrevivente escreveu que “no verão de 1944, foi o melhor tempo, pois ninguém pensava em novos transportes”.

O fim do Campo modelo

Após a visita da Cruz Vermelha, não havia mais razão para manter Theresienstadt como um “Campo modelo”. Encerrada a inspeção, reiniciaram-se as deportações, o que só terminou em outubro de 1944. Porém, os nazistas não contavam com uma nova vistoria da instituição e um rápido “embelezamento” foi feito para recebê-los de novo, em 6 de abril de 1945. 

Nesse dia, 413 judeus dinamarqueses deixaram o lugar, via Suécia, em direção à terra natal, sendo entregues aos cuidados da Cruz Vermelha sueca, como resultado das negociações entre representantes do governo local e oficiais nazistas.

Os “ônibus brancos” – assim chamados porque foram pintados dessa cor para não serem confundidos com os veículos de militares alemães, em cooperação com a Cruz Vermelha da Dinamarca, retiraram os sobreviventes dinamarqueses de Theresienstadt, libertados pelo rei Cristiano X em 15 de abril de 1945.

Heinrich Himmler permitiu o transporte porque havia feito um acordo com Jean-Marie Musy, presidente do Conselho Federal e da Confederação Nacional da Suíça de 1919 até 1934, em que aprovou o resgate de 1.210 prisioneiros de Theresienstadt (não somente dinamarqueses) após o pagamento de 1,25 milhão de dólares, que seria pago por meio de organizações judaicas que operavam na Suíça. Os prisioneiros foram libertados, porém a quantia nunca chegou às mãos dos nazistas. 

Após a primeira visita da Cruz Vermelha, cerca de 18 mil prisioneiros foram enviados para Auschwitz, em setembro de 1944. Em Theresienstadt, ficaram em torno de 11 mil prisioneiros, numa jornada de trabalho de 70 horas semanais.

No início de 1945, os alemães começaram a destruir documentos e jogar as cinzas do crematório no Rio Ohre. Havia ordens de apagar qualquer vestígio em poder de prisioneiros e que pudesse ser usado como propaganda antinazista.

Em 5 de maio, os SS deixaram Theresienstadt e um comitê dirigido pelo rabino Leo Baeck assumiu a liderança dos judeus que lá ainda se encontravam, junto com a Cruz Vermelha Internacional. Todos foram autorizados a deixar o Campo e em agosto já não havia mais prisioneiros.

O historiador dinamarquês Hans Sode-Madsen, no livro De hvide busser: reddet fra Hitlers helvede (Os ônibus brancos: resgatados do inferno de Hitler), relata a história de seu pai, o policial Erik Madsen, que sobreviveu oito meses em Theresienstadt até ser resgatado pela operação humanitária da Dinamarca. A memória do historiador era de um silêncio opressivo, em casa, com um pai que não queria falar sobre o assunto.

No livro, ele descreve os traumas deixados não só no pai como em toda a família. Após a guerra, o pai passou a trabalhar em uma oficina mecânica e, quase dez anos depois, enviou uma carta ao Serviço de Seguros do país contando ainda sofrer traumas de sua época de prisioneiro e que ainda tinha medo de se aproximar das pessoas ou sair à noite. 

Desenho presente na obra Arte em Tempos de Intolerância: Theresienstadt / Crédito: Divulgação / Editora Rio Books

 

O filho conta que só conseguiu se aproximar do pai quando já tinha 18 anos. Muitos ex-prisioneiros receberam indenizações ou aposentadorias prematuras, inclusive Erik, que faleceu em 2001, aos 83 anos de idade.

Arte da denúncia

Um professor que dava aula de desenho em Theresienstadt dizia às crianças do gueto que desenhar era uma forma de ir para muito longe dali. No entanto, segundo o depoimento de Dita, personagem real do livro A Bibliotecária de Auschwitz, o desenho não transportava para longe nem fazia embarcar no vagão de outras vidas, como os livros, e sim o contrário. 

Para ela, o desenho era uma catapulta para dentro de si mesma. Desenhar não era uma forma de sair, e sim de entrar. Por isso, os desenhos que fazia em Terezin eram escuros, de traços agitados, céus carregados de um cinzento tenebroso, como se já na época intuísse que esses céus interiores se tornariam o único que ela veria quando os levassem para Auschwitz. 

Desenhar foi uma maneira de conversar consigo mesma em muitas daquelas tardes em que era vencida pelo desalento de uma juventude que nem havia começado e que já parecia estar encerrada. Entre os desenhos deixados pelos prisioneiros judeus de Theresienstadt, foi encontrado um material produzido por adultos e crianças.

Uma oficina de produção artística foi criada, na qual trabalhavam cerca de 25 internos que exerciam o próprio ofício. Estes faziam projetos e desenhos técnicos e gráficos para empresas alemãs. Nas horas vagas, muitos produziam desenhos com os quais denunciavam os espaços superlotados dos dormitórios e o mundo que os cercava, como fome, doenças e falta de humanidade. 

A esse tipo de trabalho, podemos denominar “Arte da Denúncia”. Não se sabe ao certo o número de artistas profissionais encarcerados em Theresienstadt, que exerciam este ofício, mas se calcula que havia mais de 35 artistas de diferentes procedências, como Alemanha, Áustria, Holanda e Tchecoslováquia – e que mais de 20 foram enviados para Auschwitz entre 1943 e 1944.

O artista que dirigia este ateliê era chamado de Bedrich Fritta (1906-1944), um gráfico e caricaturista de Praga, interno desde dezembro de 1941, quando chegou no segundo transporte para Theresienstadt, cujo nome verdadeiro era Fritz Taussig. Na década de 1930, ele se dedicou à caricatura política e contribuiu para a revista satírica Simplicus. E, no gueto, conseguiu salvar 200 desenhos criados por ele e por outros artistas: os enterrou no solo dentro de um cofre de ferro, sendo descoberto após a guerra.

Prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz ; Crédito: Getty Images

 

Tais obras causam consternação e dor porque narram a verdade que os nazistas escondiam: filas de deportados fustigados pela fome, pelo frio, pela neve; crianças com olhar aflito; músicos que fingem tocar no Café Concerto, com rostos sem expressão, como que aguardando a morte.

Vê-se que a arte ali produzida era a expressão do que os afligia. Essa forma de resistir à violência foi percebida pelos nazistas, que, em julho de 1944, conseguiram interceptar e interromper esta arte, prendendo alguns membros do ateliê sob a acusação de fazer propaganda mentirosa. 

Interrogados em presença de Adolf Eichmann, estes artistas ficaram presos na pequena fortaleza de Terezin, junto com suas famílias até que os nazistas resolvessem o que fazer com eles. Otto Ungar, um dos artistas profissionais, teve a mão decepada para que não pudesse mais pintar e acabou morrendo alguns meses depois.

Bedrich Fritta, a esposa Johanna e seu filho de 3 anos, Tommy (Thomas), ficaram três meses encarcerados na fortaleza. Em seguida, ele foi deportado para Auschwitz, onde morreu de exaustão, enquanto sua esposa morreu de tifo em Theresienstadt e Tommy sobreviveu. Ferdinand Bloch, também artista, foi assassinado na pequena fortaleza de Theresienstadt.

Leo Haas, discípulo e amigo de Fritta, foi enviado para Auschwitz, mas retornou para Theresienstadt sem saber o motivo. Sobreviveu e adotou o filho de Bedrich, que, anos depois, foi o primeiro a testemunhar sobre a vida difícil das crianças em Theresienstadt. Além disso, Leo escondeu estas obras em pequenos espaços dos sótãos. Após a guerra, o sobrevivente voltou para o local onde esteve preso e encontrou os desenhos, divulgando-os depois.


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