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Há 25 anos, o assassinato brutal do jornalista José Luis Cabezas provocou debate na Argentina

Questão da liberdade de imprensa entrou em foco após um empresário ir ao extremo para calar um repórter

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 15/05/2022, às 09h00

Fotografia de José Luis Cabezas
Fotografia de José Luis Cabezas - Divulgação/ Fair Use

Já era por volta de 5h da madrugada quando José Luis Cabezas, o fotógrafo da revista "Noticias", saiu do último evento do qual participaria em sua vida. Tratava-se de uma festa anual que havia atendido junto de um colega também da área do jornalismo. Sua companhia, no entanto, acabou indo embora mais cedo. 

O repórter percorrera quase todo o caminho até seu apartamento quando foi subitamente interceptado por um grupo de homens armados que o espancaram, levaram de carro até uma gruta, e o assassinaram à queima-roupa com duas balas na cabeça.

Era o dia 27 de janeiro de 1997, e, horas mais tarde, um zelador viria a encontrar o cadáver de Cabezas, dando o pontapé inicial para uma investigação que revelou esquemas de corrupção e atos de repressão à imprensa capazes mobilizarem toda a Argentina. 

Motivo

Para saber mais sobre o assassinato de José Cabezas, é preciso voltar no tempo até março de 1996. 

Na época, o ministro da economia do país, Domingo Cavallo, havia feito uma denúncia grave em relação ao empresário Alfredo Yabrán. De acordo com o político, o homem de negócios controlava uma organização mafiosa que estaria envolvida com a própria polícia argentina. 

Os crimes mandados por Yabrán, contudo, seriam encobertos graças às suas conexões com pessoas dentro do sistema judiciário e do governo, conforme relembrado por uma matéria recente do jornal Buenos Aires Times. 

Em vista dos acontecimentos, o veículo "Noticias" decidiu concentrar esforços em uma investigação jornalística do empresário.

Vale dizer que não era a primeira vez que o faziam: o jornal já havia divulgado anteriormente informações relativas a possíveis delitos de corrupção realizados por Yabrán junto ao Estado e ainda seus laços com o governo militar que comandou a violenta ditadura vivida pela Argentina entre 1978 e 1983. 

Naquela ocasião, contudo, o "Noticias" conseguiu um grande trunfo ao revelar, pela primeira vez, qual era a aparência do empresário, que nunca permitira a veiculação de imagens de seu rosto pela imprensa. De um dia para o outro, a identidade de Yabrán não era mais anônima para o grande público. 

O responsável pela impactante fotografia, por sua vez, foi ninguém menos que José Luis Cabezas. O repórter conseguiu capturar uma imagem do homem enquanto ele relaxava na praia junto de sua esposa. Mal sabia ele que aquilo que então parecia um sucesso, mais tarde se tornaria a razão de seu destino trágico. 

Verdade revelada

Rapidamente, as autoridades que se debruçaram para investigar o assassinato de Cabezas elegeram Yabrán como seu principal suspeito, ainda de acordo com o Buenos Aires Times. 

Diversos políticos e indivíduos do meio empresarial foram interrogados, e, embora em um primeiro momento acusações tenham sido jogadas para todos os lados, logo ficou claro que a maioria delas era direcionada ao homem de negócios cujo rosto fora divulgado ao mundo devido ao trabalho do repórter. 

Os rastros deixados pelas evidências levaram os oficiais a cerca de uma dúzia de pessoas. A maioria delas eram policiais e ex-policiais, mas também havia o guarda-costas do empresário, e até mesmo o ministro da Justiça de então. 

Eles possuíam envolvimentos diretos ou indiretos na operação de execução do repórter e ainda outras maquinações também atribuídas a Yabrán, que passou alguns dias foragido antes de tirar a própria vida, de forma que nunca foi julgado. 

Capa da revista Noticia / Crédito: Domínio Público

A suposta quadrilha montada pelo argentino e o poder que possivelmente mantinha sobre as instituições do país chocaram a população, provocando reflexões necessárias sobre o estado da liberdade de expressão e da repressão à imprensa na Argentina do período.